Terça-feira, 18 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO >

Do info-entretenimento aos caça-likes

Por Felipe Moraes em 10/10/2015 na edição 871

O excesso de carga emocional na narração dos acontecimentos, o drama mesclado ao espetáculo são alguns conceitos do entretenimento, tão comum e famigerado atualmente. Há quem se refira ao sensacionalismo como sendo o curto-circuito midiático de Edward S. Herman e Noam Chomsky: “Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional”, conceituam os autores. A exploração da emotividade é característica principal dessa forma de realizar a prestação de serviço da qual o jornalismo é responsável de desempenhar tal tarefa perante a sociedade.

“O humor é concorrente do repórter de veículo tradicional, isso quando competentes. Eles são muito malandros porque quando não dá certo usam de seu direito poético do humor para se retratar” disse o jornalista Caco Barcellos em palestra realizada em Porto Alegre. O entretenimento assemelha-se a uma produção de larga escala extremamente questionável quando vinculada ao jornalismo. Há um nicho em que cabe espaço para a produção do entreter (em algumas ocasiões também fazer humor). Porém, isso não pode estar atrelado ao jornalismo sério. É preferível então boiarmos na superfície da informação, do que mergulhar no jornalismo de dados e de longas decupagens.

Alguns dos principais portais de notícia renderam-se ao sensacional entretido. A produção é vasta: Moda, estética, horóscopo, receitas, relacionamentos, família, comportamento, fitness, nutrição, saúde, viagens, televisão, cinema e teatro, vida e estilo, celebridades e famosidades, música, turismo, entre outros. O termo “imprensa” cunhado por Guttenberg em que se teve início aquilo que conhecemos no presente como jornalismo, assumiu novas formas. Veículos tradicionais de notícia passaram a ser marcas de conteúdo, produtos e serviços, um conglomerado de tudo.

Mas qual a explicação para o que se presencia hoje no jornalismo? Será que nos rendemos ao entretenimento devido à alta demanda por parte da sociedade por esse conteúdo? Em 07/10/2015 a manchete mais lidas do dia no portal Uol era: Seita cristã revê predições e calcula que fim do mundo será nesta quarta. No Estadão: E se eu chegar aos 35 sem estar com a vida resolvida?”. “Fast food é bom, trata-se de uma refeição rápida e ligeira, mas como o corpo reagiria se diariamente nos detivéssemos em comer tão somente o tal fast food?

Faz-se a leitura do entretenimento inclusive na estética. Recentemente, o “Minuto G1” que se detém em informar em um minuto os telespectadores na televisão aberta durante a sua programação, passou a usar apresentadores mais jovens e “descolados” com o figurino de um protagonista de Malhação. A notícia agora é vendida em papel presente intuitivo e curioso que busca dessa forma conquista o seu consumidor. “Não sou um Dom Quixote, porque os meus moinhos de vento são reais”, declarou Chomsky que afirma ainda que a qualidade da informação continua diminuindo: é cada vez mais homogênea.

“A extraordinária concentração de plataformas de disseminação de informações como Facebook, Twitter, YouTubeApple e Google, por exemplo, é avassaladora. A indústria dos jornais, revistas e audiovisuais está sucumbindo rapidamente à expansão viral de sistemas muito mais ágeis, econômicos e globalizados”, pondera Carlos Castilho em artigo publicado nesse mesmo site. A largada para a proliferação de notícias entretidas nas novas plataformas que surgem foi dada. Os “caça likes”, como são chamados os irresistíveis hiperlinks que nos guiam por uma ampla esfera de conteúdo interativo e badalado das redes sociais buscam seus espaços todos de uma única vez pelejando por nossa atenção.

Após rescindir contrato com o Fluminense, o jogado Ronaldinho Gaúcho deu uma exclusiva para a rádio Atlântida, de Porto Alegre. O Entretenimento é claro. Tratava-se de um conteúdo exclusivo uma vez que pouco Gaúcho falou após a saída do clube carioca. Ao longo de pouco mais de 12 minutos a entrevista foi mesclada entre perguntas sérias, consideráveis e um humor questionável. A mulher mais gostosa que você já pegou? Ronaldinho, você é gay? O que é mais legal: Fazer um gol pelo Barcelona e ser aplaudido de pé pela torcida do Real Madrid ou vazar uma foto sua com muitas mulheres dentro de uma piscina? Os apresentadores ainda se oferecem, ao longo da entrevista, a serem convidados para uma festa no sítio do jogador de futebol, em cidade vizinha a Porto Alegre. Um dos locutores faz então uma observação sobre a tal festa: “Ronaldinho, eu prometo ficar com pênis dentro da calça”, seguido de risos. Porém, a última e chamada de “clássica” pergunta pelo apresentador foi: de todos os colegas de clube que você teve quem tem o maior pênis? Ronaldinho desliga o telefone.

***

Felipe Moraes é estudantes de jornalismo e graduado em teologia

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem