Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Dólares no lide, tecnologia no pé

Por Rolf Kuntz em 04/10/2005 na edição 349

No ano passado o Brasil ficou em 10º lugar entre os destinos mais atraentes para o investimento direto estrangeiro e em 3º na lista restrita aos emergentes. Foi um desempenho muito melhor que o do ano anterior, quando o país ocupou o 15º posto na relação geral e o 4º na sua categoria. O ingresso de investimento direto, 18,2 bilhões de dólares, foi 79% maior que o de 2003.

É fácil entender que os jornais tenham destacado esse aspecto, mais que qualquer outro, ao noticiar o Relatório do Investimento Mundial . O documento foi divulgado na quinta-feira (29/9) pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento, também conhecida pelo acrônimo inglês Unctad. Mas o relatório trouxe mais do que o balanço tradicional dos capitais investidos em atividades industriais, agrícolas e de serviços.

Esse balanço ocupa só 38% das 252 páginas que formam o miolo do relatório. Todo o resto é devotado a um tema especial, os investimentos transnacionais em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Nesse quadro, a figura do Brasil é menos brilhante do que no atinente a investimentos. A absorção e produção de tecnologia são atividades fundamentais para o crescimento econômico, para a competitividade e para a criação de oportunidades de emprego – hoje mais que em qualquer outra fase da história moderna. No entanto, os jornais deram muito menos espaço e destaque a esse tema do que aos dados gerais sobre o investimento direto.

Pesquisa e desenvolvimento

Na mesma semana, toda a imprensa havia noticiado, e com destaque, a pesquisa anual de competitividade do Fórum Econômico Mundial. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) havia divulgado recentemente um trabalho sobre o assunto. O Brasil aparece mal nos dois estudos, embora seu agronegócio e alguns setores de sua indústria tenham alcançado padrões muito bons de eficiência.

Os jornais poderiam tratar o relatório da Unctad como seqüência daquele noticiário. O documento traz elementos que ajudam a definir a situação do Brasil no quadro da competição internacional. Mas ficou claro, mais uma vez, que a maior parte do material publicado morre em 24 horas, ou menos, não só para o leitor menos atento, mas também para editores e repórteres. Continuidade, mesmo, só a do noticiário financeiro.

Segundo o levantamento da Unctad, em 2002 cinco empresas transnacionais investiram em P&D mais do que o Brasil. A maior delas, a americana Ford, aplicou 7,2 bilhões de dólares, enquanto o investimento brasileiro na produção de tecnologia ficou em 4,6 bilhões de dólares. Taiwan, no mesmo ano, gastou 6,8 bilhões de dólares. Em 2003, os Estados Unidos tinham 296 das 700 companhias com maior dispêndio em P&D. O Brasil, em 21º lugar na lista, apenas duas.

Segundo o relatório, tem aumentado a transferência do trabalho de pesquisa para o exterior. Em 2003, 72,1% dos gastos em P&D na Irlanda, um dos países de maior crescimento econômico na última década, foram realizados por filiais de empresas estrangeiras. No Brasil, essa parcela chegou a 47,9%.

Brasil e México absorveram cerca de 80% dos investimentos em pesquisa de grupos americanos na América Latina e no Caribe desde 1994. Mas a importância relativa da região para esse tipo de investimento tem diminuído. As empresas têm dado atenção crescente à China, à Índia e a economias em transição do Leste da Europa.

Um parágrafo

No Brasil, segundo o relatório, as transnacionais investem principalmente em P&D adaptativa, embora algumas empresas venham elevando a qualidade de suas atividades tecnológicas no país e atribuindo responsabilidades maiores a suas filiais.

O quadro para os próximos anos é inteiramente favorável às novas estrelas do mundo emergente. Os pesquisadores da Unctad perguntaram às empresas com maiores gastos em P&D onde planejavam investir entre 2005 e 2009. As empresas podiam indicar mais de um país e por isso a soma das indicações supera 100%.

A China ficou em 1º lugar, aparecendo em 61,8% das respostas. Os Estados Unidos, em 2º, citados por 41,2% das transnacionais. A Índia ficou em 3º, apontada por 29,4%. O Japão, em quarto, indicado por 14,7%. O Brasil ficou com apenas 1,5% das intenções declaradas, juntamente com outros 15 países.

Neste último grupo há tanto economias emergentes e em transição – como Turquia, México e Polônia – quanto economias desenvolvidas, como Austrália, Espanha e Suécia. Mas países desenvolvidos, como esses três, são investidores tradicionais em P&D, com recursos próprios, e dependem menos de recursos de grupos estrangeiros.

O Globo e Valor Econômico foram os jornais que deram tratamento melhor e mais extenso a essa parte do relatório da Unctad. O Globo foi um pouco mais longe, entrevistando um economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre a pesquisa tecnológica no Brasil. A Folha de S.Paulo publicou uma curta retranca de uma coluna no pé da página. A Gazeta Mercantil mencionou em apenas um parágrafo o tema da tecnologia. O Estado de S.Paulo deu meia página ao relatório, com gráfico e tabelas, mas desprezou as informações sobre P&D.

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