Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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IMPRENSA EM QUESTãO > 2008: FIM DE SÉCULO

Doze desejos do ouvidor,
doze trabalhos de Hércules

Por Alberto Dines em 29/12/2008 na edição 518

O século 20 só começou em 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial, e o século 21 dá os seus primeiros vagidos comparativamente mais cedo, menos de uma década depois do início formal – nesta passagem de 2008 para 2009. O parto não aconteceu na data redonda nem em 11 de Setembro de 2001, quando entramos na era da guerra permanente, além-fronteiras, global.


O mundo está em escombros, a destruição felizmente não é física, mas tudo terá que ser refeito a partir do zero. E o pior, sem ajuda de roteiros ou paradigmas, na base experimental; tentativa, intuição. Todas as fórmulas e tradições ideológicas estão esgotadas – da religiosa à comunista, da democrática e meio-democrática à totalitária – todas as cores foram drasticamente borradas: do vermelho ao verde.


Tanto a numerologia cuspida pelos computadores como a verborréia dos filósofos de esquina estão desacreditadas. Os donos da verdade estão emudecidos, ocupados em lamber as feridas produzidas pelas escaramuças que acionaram. Cego pelos reflexos, o arauto da atualidade – a imprensa – não enxerga as luzes que produz. A mídia não viu as bolhas assassinas porque ela própria foi obrigada a transformar-se em bolha. Denunciá-las equivaleria a denunciar-se.


Blague inevitável


Acreditar que a crise mundial é apenas um terremoto financeiro é desconhecer a energia subterrânea produzida pela colisão das placas tectônicas. Não adianta subir para Petrópolis nem descer para o Guarujá (metáforas dos anos 1950 no Rio e São Paulo quando surgia alguma ameaça): desta vez não haverá abrigos e santuários. Apenas bunkers fortificados pelas convicções dos seguidores de Jeremias e Isaías.


No último domingo (28/12) de 2008, os jornalões brasileiros exibiram o seu potencial de banalidade, rodaram burocraticamente, por obrigação, desprovidos de qualquer transcendência. Exceção habitual: a Folha de S.Paulo, que sentiu alguma coisa no ar, tentou alguma cerimônia e contentou-se em recorrer à embromação.


‘O que será manchete em 2009’, no caderno ‘Mais!’, é uma engabelação. Entre os seis brilhantes intelectuais convocados não há nenhum jornalista, jornalista-pensador ou pensador-jornalista como se o exercício da observação, reflexão e prospecção estivesse proibido nas redações pós-tudo. Esta melancólica e derradeira edição do ‘Mais!’ é um convite para a blague inevitável – ‘Menos!’. Constatação escancarada de que o fim do jornal impresso está sendo tramado e preparado por aqueles que têm condições e, principalmente, a obrigação de evitá-lo.


Administradores de resultados


Na santa Página Seis (A6), aquela da coluna do ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva, está a única lufada de solenidade e relevância. ‘Ave Jano! 12 desejos para 2009‘ é um bem-sucedido esforço para combinar mitologia e atualidade, introduzir inteligência no debate sobre mídia e, ao mesmo tempo, denunciar a deterioração deste veiculador de conhecimentos que nos últimos 150 anos esteve na vanguarda das transformações.


Evidentemente não mereceu destaque na primeira página. Destacar ou não destacar tornou-se irrelevante em uma imprensa que ostensivamente optou por ignorar o seu próprio bicentenário.


Embora todos os doze desejos do ouvidor da Folha estejam devidamente amparados nos manuais de redação, códigos deontológicos, literatura acadêmica e jurisprudência intestina, a verdade é que fazem parte do ferramental desativado pela ‘modernidade’.


Os porteiros daqueles salões chamados ‘Redação’, onde no passado recente produziam-se faíscas, hoje foram convertidos em administradores de resultados e aqueles ambientes carregados de tradições e história são um conjunto de baias.


Pauta da hora


A diabólica pressa no preparo das edições expulsou aquele mínimo de discernimento que aflorava diante da folha em branco. A decantada tecnologia capaz de produzir tantos milagres não conseguiu introduzir no processo de reproduzir a realidade o comezinho ingrediente da consciência. Como se a tela vazia dos monitores fosse incapaz de provocar aquela comichão nos espíritos, indispensável aos grandes sacolejos.


Alguns sonhos/queixas de Carlos Eduardo Lins da Silva são específicos, pertinentes à Folha e sua família de produtos. A maioria absoluta é extensiva, irrestrita. Vale para todos os jornalões, revistões, tele e radiojornalões.


A recessão econômica pode ou não contaminar o país. Mas o retrocesso diagnosticado na Página Seis do último domingão jornalístico de 2008 parece irreparável.


Os 12 desejos do ouvidor, aparentemente irrisórios, são, na realidade, os 12 trabalhos de Hércules, pauta de um incontornável desafio, convocação para a tarefa de recolocar a imprensa no papel de oxigenador de ambientes.

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/01/2009 Ibsen Marques

    Vou bater na mesma tecla de outros comentários meus, mas o prognóstico pessimista do Dines é absolutamente confirmado pela, aparentemente, única preocupação que movimenta os estudantes de jornalismo no momento que é a questão do diploma. Como podemos observar no mau desempenho da imprensa vemos que não há qualquer relação entre qualidade da produção jornalística e o respectivo diploma. Talvez ele até seja importante, mas não definitivo. Outro dia ouvi comentário de uma atriz global fazendo apologia ao diploma e elogiando o exame de ordem da OAB. Absolutamente ridículo. Ela não se deu conta de que a existência desses exames ‘a posteriori’ só faz corroborar a tese de que a qualidade do nosso ensino (em todos os níveis) é pouco mais ou menos que medíocre, mas para além da péssima qualidade do ensino observo também uma total falta de interesse do estudante que pode ser encontrado às dezenas bebendo e se drogando em bares e praças nos arredores das universidades. Às vezes até no interior de hospitais que frequentam como ‘pseudo’ médicos residentes.

  2. Comentou em 05/01/2009 Marco Vitis

    Sr. Alberto Dines
    Passaram-se muitos meses. E a mesma violência retornou, com dramaticidade ainda maior.
    A realidade atroz veio para confirmar que José Saramago tinha completa razão na questão Palestina.
    O sr. já alterou a sua avaliação ?

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