E a tortura virou motivo de piada | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DO ESTADÃO

E a tortura virou motivo de piada

Por Renato Rovai em 21/05/2008 na edição 486

No embalo da mais do que infeliz pergunta do senador José Agripino Maia (DEM-RN) à ministra Dilma Rousseff, quando  onde ele insinuou que Dilma poderia mentir à CPI por já ter feito o mesmo sob tortura na época da ditadura, o jornal O Estado de S. Paulo publicou, no dia 12 deste mês, a carta de um leitor fazendo graça com o tema:



‘A gente já sabia, mas ao depor na comissão do Senado a ministra Dilma confirmou: nem sob tortura ela fala a verdade. Foi uma grande verdade’.


Indignado, encaminhei ao responsável pelo Fórum dos Leitores do jornal o seguinte e-mail:



‘Tenho inúmeras restrições ao jornalismo de O Estado de S. Paulo, mas assino-o em nome da minha empresa e por conta da minha atividade profissional, sou jornalista e editor. Hoje, porém, tive engulhos ao ver publicada a carta do leitor Mauro Miler. A publicação desse tipo de ‘piada’ grotesca atenta contra os direitos humanos e os valores mais caros da democracia. A prática da tortura é crime hediondo. Um jornal que se preze deve tratá-la sempre assim.’


A resposta do editor de Fórum dos Leitores de O Estado de S. Paulo chegou-me na noite daquele mesmo dia.



‘Caro senhor, claro que a prática de tortura é crime hediondo, ninguém pode discordar. E mordaça o que seria? Liberdade de expressão, sempre. E viva a democracia! Gratos pela atenção, Fórum dos Leitores’.


Apesar de a resposta ser de um simplismo tosco e de uma pequenez insuportável, decidi abordar o assunto neste espaço exatamente porque quem respondeu pelo jornal utilizou o discurso da ‘liberdade de expressão’ como manto para justificar um erro, no mínimo, ético do veículo.


O jornal tem garantido o direito de publicar tudo o que lhe pareça conveniente. Aliás, direito conquistado pela luta de pessoas como Vladimir Herzog, Rubens Paiva e Luiz Eduardo Merlino. Gente que foi torturada e assassinada durante a ditadura por ter cometido o bárbaro ‘crime de opinião’.


O buraco é mais embaixo


Mas o caso não é esse e não pretendo me alongar nisso. O jornal tem garantido o direito de publicar o que lhe pareça correto, mas, se for sério, deve fazê-lo com base no respeito aos direitos humanos, à ética do seu tempo e aos limites da legislação do seu país. Tem garantido o direito de questionar a lei vigente, evidente, mas não deve confrontar aquelas cláusulas pétreas constitucionais do seu território, principalmente quando diz atuar em defesa do Estado democrático e de direito.


Por isso mesmo, não é aceitável que um veículo de comunicação que se diz sério ainda tenha dúvida em relação ao que significa fazer graça com o tema da tortura. Também por esse motivo não pode ser considerado sério e respeitável um jornalista ou um jornal que utiliza a bandeira da ‘liberdade de expressão’ como justificativa para publicar uma carta onde a tortura é tratada de forma torpe e sem nenhum contraponto.


Mas se esses dois argumentos não bastam, vou recorrer ao exemplo do Estado de S. Paulo para ver se faço o jornal e o seu editor do Painel do Leitor entenderem do que estamos tratando. Esse e-mail que enviei e que foi respondido não foi publicado pelo jornal. Também não foram publicados e-mails enviados pelos leitores do meu blog. Por que o jornal fez isso? Censura, mordaça ou critério de edição?


Sem esquizofrenia, fico com a última opção. Acho que o editor do espaço preferiu divulgar aquilo que lhe parecia mais conveniente. No caso da carta que fazia ‘piada’ com a tortura é isso que também parece ter acontecido. O editor do espaço quis publicar o lhe parecia uma crítica a uma ministra, a uma integrante do governo, quis mostrar que o jornal é de oposição.


Mas o buraco era e continua sendo mais embaixo. Tortura não é assunto que diga respeito a governo ou oposição. E felizmente muitos opositores do atual governo têm certeza disso. Como também defenestrar a tortura e não ceder espaço a quem a defende — ou a quem acha engraçado fazer piada com tema — não tem nada a ver com mordaça.


Fazendo graça


Essa carta publicada pelo O Estado de S. Paulo demonstra que estamos muito longe de ter um entendimento mínimo sobre quais devem os procedimentos éticos de um veículo de comunicação. Até porque, depois que tratei do assunto no meu blog recebi comentários dando conta de que cartas semelhantes foram publicadas em outros veículos impressos, inclusive de grandes centros como o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul.


Dar vivas à liberdade de expressão por conta da publicação de cartas do tipo da que tratei é apostar na barbárie jornalística.


Ainda bem que, por conta da luta do povo judeu, hoje é considerado crime fazer piadas com o Holocausto. O mesmo se pode dizer em relação ao racismo no Brasil. Mas, infelizmente, parece que as vítimas e os parentes dos que sofreram violências na luta contra a ditadura ainda terão de lutar para que alguns jornalistas e seus veículos aprendam como tratar do tema. E como não tratar.

******

Jornalista; www.revistaforum.com.
br/blogdorovai

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/05/2008 Caetano Greco Junior

    Estudante João Carlos, você precisa ler mais e prestar atenção no que está lendo! Quem fez a ‘piada’, e vai com aspas mesmo porque não a considero como tal, foi o EDITOR do Fórum dos Leitores, e não um leitor como seu comentário sugere. Que tal uma piadinha: Já pensou se todos os estudantes interpretassem os textos como você, hahahaha… Não tem graça nenhuma, né?

  2. Comentou em 28/05/2008 José Carlos

    Há muito tempo eu ouço a expressão ‘fazer uma tempestade num copo d água’. É justamente do que se trata o artigo do Renato Rovai. O que o leitor do jornal fez foi simplesmente isso: uma piada. Há quem considere uma piada de mau-gosto, outros não. Mas nada além disso, Vamos reduzir a frase do leitor à sua real dimensão. Ele não fez em nenhum momento apologia ou defesa da tortura, foi simplesmente uma piada de caráter político. Me admira um jornalista como o Renato Rovai não entender isso. E, claro, a resposta do jornal não poderia ser maia apropriada.

  3. Comentou em 26/05/2008 Carlos N Mendes

    A resposta do editor do Fórum dos Leitores pode e deveria defender a liberdade de expressão, mas o que ocorreu foi uma torção na idéia de liberalismo. Renato Rovai não pediu ‘mordaça’, ele solicitou que o jornal assumisse uma posição CLARA e firme a um crime que, Bushes e similiares fora, grande parte da Humanidade considera hediondo. Isso poderia ser feito através de adendo ou apartes junto à carta do leitor, ou mesmo publicando-se a opinião do editor em um artigo na segunda ou terceira páginas. Mas depois deste incidente, vou ficar alguns anos achando que o jornalismo do OESP acha que tortura é ruim, mas justificável, principalmente se for possível usá-la para queimar o filme do Governo Lula.

  4. Comentou em 26/05/2008 Clovis Eduardo

    Concordo com o Sr Nelson Perez de Oliveira jr
    O jornalista aí abaixo só reforça o conceito de que na mídia carniceira vale tudo na guerra ideológica, desde perder a classe e o refino na crítica a afirmar posições hediondas, como o apoio a tortura (claro, desde que seja com alguém da esquerda e comunista). Isso é pq TALVEZ o jornalista nunca teve trauma por seu pai ter de sumir da família por anos, sem dizer onde foi nem se está vivo para não pôr em risco a vida dos filhos. Jornalista, seu comentário foi o mínimo vergonhoso para um profissional do seu porte.

  5. Comentou em 23/05/2008 antonio carvalho

    A carta publicada foi certamente de extremo mau gosto. No entanto o diabo da democracia é assim mesmo, temos que ler e ouvir coisas que não gostamos e não concordamos. Não sendo assim vamos censurar e justificar tudo aquilo que nos dizemos contra. Ou vamos parodiar o grande Millor dizendo que democracia é quando expomos nossas idéias e ditadira é quando os outros expõem idéias com as quais não concordamos ?

  6. Comentou em 22/05/2008 beroaldo borges

    ‘Caro senhor, claro que a prática de tortura é crime hediondo, ninguém pode discordar. E mordaça o que seria? Liberdade de expressão, sempre. E viva a democracia! Gratos pela atenção, Fórum dos Leitores’.
    A resposta é bem simples. Basta deixar este senhor 1 dia amordaçado e meia hora no ‘pau de arara’. Ele nunca mais vai esquecer a diferença.
    Cada uma que esses meninos do estadão escrevem.
    🙂

  7. Comentou em 22/05/2008 ANTÓNIO CARLOS RODRIGUES

    Eu já acho que realmente não devemos, nem podemos, defender qualquer tipo de censura à Imprensa, pois quando um veículo de comunicação PUBLICA O QUE QUER e O QUE DEVE SER PUBLICADO, ele se constitui numa arma à serviço da sociedade e dos cidadãos, INCLUSIVE desvendando a índole de seus profissionais e deixando claro seus objetivos, para sujeitar-se às correspondentes manifestações da opinião pública.

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