Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > ESCÂNDALO MURDOCH

É preciso fazer mais do que pedir desculpas

Por Dewayne Wickham em 22/08/2011 na edição 656
Reproduzido do Estado de S. Paulo, 17/08/2011; tradução de Celso Pacionik; intertítulos do OI

Para salvar seu império de mídia e limpar sua reputação seriamente manchada, Rupert Murdoch devia imitar Henry Luce. Em 1942, o fundador da revista Time pediu ao presidente da Universidade de Chicago, Robert Hutchins, para chefiar uma comissão sobre o papel e os deveres dos meios de comunicação de massa. Isso ocorreu numa época em que o “baixo jornalismo” (reportagens sem base em fatos) parecia em alta.

Cambaleante como anda depois das acusações de que funcionários de seu jornal britânico de maior vendagem, o agora fechado News of the World, grampearam telefones celulares de milhares de pessoas, Murdoch precisa fazer mais do que pedir desculpas. Uma das vítimas foi uma garota de 13 anos cuja caixa de mensagem do celular foi invadida e algumas mensagens foram apagadas depois que ela foi sequestrada, criando a falsa esperança de que ela continuava viva.

Fechar o jornal e dizer repetidamente que lamenta não será suficiente para cicatrizar as feridas abertas por esse ato desprezível de “baixo jornalismo”. Murdoch precisa fazer mais do que aumentar as contribuições políticas a legisladores americanos, como fez no fim de junho, poucos dias antes do escândalo dos grampos vir à tona. O fechamento do News of the World – que ele fez para conter o sangramento daquela parte de seu império após grandes anunciantes terem caído fora – é mais um ato de sobrevivência que de contrição.

Uma mensagem útil

No momento em que os podres do império de mídia de Murdoch cruzam o Atlântico com reportagens dizendo que o FBI abriu investigações sobre as alegações de que seus empregados tentaram grampear telefones de vítimas dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, cresce a necessidade de o magnata da mídia, de 80 anos, fazer um gesto nobre, desinteressado. Ele deveria financiar uma continuação do estudo lançado nos anos 40.

No prefácio de seu relatório de 133 páginas da comissão, Hutchins escreveu: “A comissão sabe que uma maldição terrível da vida contemporânea é a torrente assustadora de palavras com que os meios de comunicação de massa ameaçam inundar o cidadão. Qualquer um, sem nada para dizer, pode dizê-lo por um meio de comunicação de massa se tiver um assessor de imprensa esperto, uma reputação considerável ou um grupo de pressão ativo por trás, enquanto mesmo com essas vantagens alguém com algo a dizer tem dificuldade de fazê-lo se isso contrariar interesses de alguns grupos.” Por importante que seja expulsar do jornalismo os que foram responsáveis pelos abusos do News of the World, é ainda mais importante expurgar da mídia pessoas que pensam em notícias como extensão da direita ou esquerda ideológicas.

Para tornar crível esse esforço, Murdoch deveria conceder a um líder acadêmico proeminente a liberdade de montar um comitê não partidário. Em poucas palavras, sua missão deveria ser perguntar que tipo de autopoliciamento é necessário para cumprir o que Hutchins chamou de “a responsabilidade da imprensa para elevar o nível da cultura americana” e suprir cidadãos “com informações políticas, econômicas e sociais corretas e completas”. Fazer isso enviaria uma mensagem mais útil que a sangria da qual o império de mídia de Murdoch está sofrendo.

***

[Dewayne Wickham é jornalista do USA Today]

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