Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > GOLPE DE 1964

O que celebrar?

Por Túlio Muniz em 03/04/2012 na edição 688

Matérias de sábado (31 de março) nos dois jornais de Fortaleza – O Povoe o Diário do Nordeste– evidenciam o quanto a identidade autocelebratória tende, na mídia, a se sobrepor à História.

Em ambas as matérias, há um quase lamento pelo abandono dos monumentos ligados à vida do cearense Humberto Castello Branco. Entretanto, em momento algum Castello Branco é tratado como ditador que de fato foi, e sim como “ex-presidente” ou “presidente”. No máximo, a matéria de O Povo, numa última notinha, grafa que “o marechal foi o primeiro presidente da ditadura militar”.

As matérias lamentam algo real, o abandono e esquecimento de um casarão do século 19 no centro de Fortaleza, onde o ditador nasceu. Mas nenhuma delas traz o histórico do prédio e sequer arriscam a remeter ao problema sério que é a preservação de patrimônio histórico-arquitetônico na cidade das obras “modernas”. O “esquecimento” relevado pelas matérias é por conta de quase ninguém lembrar ou celebrar os locais nos quais o ditador nasceu (a tal casa), morreu (o avião bimotor “preservado” num quartel local do Exército) e onde está enterrado (o mausoléu ao lado da sede do governo do estado).

Risco de desprezo

Para além do aspecto patrimonial, os jornais perderam a oportunidade de tratar de algo que pulula Brasil afora, inclusive aqui em Fortaleza: os protestos de jovens estudantes, os “escrachos” ao longo da última semana. As manifestações deixam claro que a ferida da ditadura continua aberta e que se todos os ditadores foram brindados com uma boa morte, os torturadores ainda vivos podem não ter tanta sorte. Portanto, o que deve ser colocado em questão não é “o que” celebrar, mas o “por que”.

Talvez assim se compreenda o desinteresse da população acerca dos monumentos dedicados ao ditador, celebrados tão somente pela memória oficial de um poder institucional que ainda estende tapetes aos próceres da ditadura, seja em seus palácios, seja em colunas “sociais”.

Promover a celebração à ditadura e aos seus percursores é arriscar, talvez, ser relegado ao desprezo dispensado aos ditadores oriundos do golpe militar de 1964.

***

[Túlio Muniz é jornalista profissional, historiador e doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra, Portugal]

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