Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > CASO MURDOCH

Ministro da Cultura britânico tenta salvar seu pescoço

Por Marcelo Justo em 05/06/2012 na edição 697
Reproduzido da Agência Carta Maior, 31/5/2012; tradução de Katarina Peixoto; intertítulo do OI

O ministro da Cultura britânico, Jeremy Hunt, salvou seu pescoço, mas não o de seu governo. Em seu testemunho na Comissão Leveson, ele reconheceu que havia felicitado James Murdoch quando a Comissão Europeia deu o sinal verde para a oferta de News Corporation pelo resto do controle acionário da cadeia via satélite BskyB. A data é chave: neste dia 21 de dezembro de 2010 nomearam Hunt como avaliador da polêmica oferta em substituição a Vince Cable, considerado um anti-Murdoch. “Agora só falta a Ofcom”, completou Hunt em sua mensagem de texto, referindo-se à agência reguladora dos meios de comunicação britânicos. “Simpatizava com a oferta, mas isso não afetou em nada meu desempenho como avaliador que foi rigorosamente imparcial”, disse Hunt à Comissão.

O atribulado primeiro ministro conservador David Cameron declarou que não iniciaria uma investigação para averiguar se o código de conduta dos ministros teria sido violado porque, ao seu juízo, Hunt havia agido corretamente. Como era previsto, a oposição trabalhista voltou a exigir a renúncia do ministro a quem acusa de enganar o parlamento. O mais grave para o governo é que a defesa de Hunt não parece convencer ninguém além de Cameron. “É um absurdo pretender que podia ser imparcial”, escreveu em sua conta de Twitter Jenni Russell, comentarista do vespertino de centro-direita Evening Standard.

Algumas horas depois de enviar-lhe uma mensagem de texto, Hunt falou por celular com James Murdoch e pouco depois trocou mais mensagens com o ministro de Finanças, George Osborne, e o então chefe de imprensa de Cameron, Andy Coulson, tudo sobre o mesmo tema. “Podemos falar sobre a oferta de Murdoch?” Temo que estamos complicando a mesma”, escreveu a Osborne. O ministro de Finanças respondeu um pouco depois: “Espero que a solução te agrade”. A “solução” era a indicação do próprio Hunt como responsável pela avaliação da oferta, em substituição ao liberal democrata Vince Cable, que havia sido gravado por jornalistas dizendo que estava “em guerra com os Murdoch”.

Imagem negativa

Em seu testemunho na Comissão, Hunt admitiu que considerou renunciar em função do caso. A realidade é que não o fez. Quem perdeu seu posto foi seu assessor especial, Adam Smith, que pediu demissão quando a Comissão revelou centenas de e-mails e mensagens de texto que havia trocado com o lobista dos Murdoch, Frederic Michel. A número dois do trabalhismo, Harriet Harman, assinalou que Hunt era responsável pela conduta de seu assessor. “O código ministerial estipula que um ministro deve se responsabilizar pelas ações de seus assessores especiais. É deplorável que o governo mantenha Hunt no gabinete. David Cameron não deveria tê-lo nomeado como avaliador do caso”, assinalou Harman.

O critério do primeiro-ministro é cada vez mais questionado. Na quarta-feira (30/5), seu ex-chefe de imprensa, Andy Coulson, foi acusado de perjúrio. Outros dois acusados no escândalo das escutas telefônicas são seu íntimo amigo e vizinho Charlie Brooks e sua esposa Rebbekah, ex-diretora executiva da News International, a quem o primeiro-ministro saudava em suas mensagens de texto com um “LOL”, acreditando que queria dizer lots of love (na verdade, quer dizer laugh out loud, morra de rir). Com a economia em recessão e um orçamento apresentado em março e qualificado como “medidas para os ricos”, suas ações vêm caindo em descrédito. No início do ano, tinha um considerável nível de apoio, apesar dos problemas econômicos. Em meados deste mês, uma pesquisa mostrava que cerca de 60% dos britânicos têm uma imagem negativa de sua figura.

***

[Marcelo Justo, da agência Carta Maior em de Londres]

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