Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA FRANCESA

Telejornal em crise de identidade

Por Leneide Duarte-Plon em 12/06/2012 na edição 698

O jornal das 20h não é mais o mesmo. Na França, o jornal televisivo das oito da noite, que reunia diante da TV todos que queriam se informar sobre o país e o mundo, está seriamente ameaçado pela internet e pelas redes de informação 24 horas. Os tempos mudaram. Sem ser obrigado a se informar com hora marcada, o telespectador se volatiliza. A audiência do jornal das 20h, sobretudo o mais visto, o do canal TF1, é prova disso.

Na semana retrasada, em Paris, a apresentadora do jornal das oito de TF1, Laurence Ferrari, foi o assunto que excitou o debate midiático. Os comentaristas na televisão, no rádio, nas revistas e na internet não se cansaram de analisar a saída da loura e jovem jornalista-apresentadora do jornal de maior audiência da TV francesa, que se chama apenas Journal de 20h.

TF1 é o mais antigo canal público francês, privatizado em 1986. A própria Laurence Ferrari foi ao Grand Journal de Canal Plus para discutir e explicar sua saída, depois de quatro anos apresentando a grand-messe, nome dado pelos franceses ao jornal das oito. Esse apelido tem sua razão de ser. Nesse horário, metade dos franceses adultos está diante da televisão para essa grand-messe. E desses 22 milhões, 6,2 milhões veem o telejornal de TF1 e 5 milhões veem o segundo telejornal de maior audiência, o de France2.

As marionetes

O problema é que na mesma hora do jornal das oito, o canal público France3 tem uma telenovela chamada Plus belle la vie, ambientada em Marselha, e que vem roubando jovens telespectadores de TF1. E um outro canal privado, o M6, que atrai um público mais popular, tem um programa, Scènes de ménages, que também caiu no gosto do público jovem.

Os debates políticos durante a campanha presidencial também ajudaram a consolidar a audiência do canal público France2, que faz o jornal concorrente de TF1. O resultado foi uma crise na redação do jornal da TF1, que levou Ferrari, provavelmente pressionada com as cobranças sobre a queda de audiência, a pedir demissão. Sua carreira continuará no canal Direct8 – onde trabalhava Valérie Trierweiler, atual primeira-dama – que está sendo comprado por Canal Plus.

A chegada de Laurence Ferrari ao jornal das oito tinha sido anunciada com o mesmo estardalhaço que merece agora a sua partida. Em 2008, quando foi indicada para substituir Patrick Poivre-d’Arvor, o apresentador que ficou mais de 20 anos no posto, Laurence Ferrari era vista como a jovem e bela loura, competente mas ainda pouco conhecida, que desbancava o experiente e famoso rosto, marca registrada do jornal das oito de TF1. Poivre d’Arvor era o próprio jornal.

Conhecido por suas iniciais, PPDA, o jornalista tornou-se depois um personagem de ficção, uma marionete que apresenta o programa Les guignols de l’info, uma das invenções mais geniais da televisão francesa. Apresentado como parte do Grand Journal do Canal Plus, Les guignols de l’info é um programa satírico de uma causticidade a toda prova, que critica e debocha de todo mundo, sem censura.

Sem risco

De Nicolas Sarkozy a Jacques Chirac, passando por François Hollande, Carla Bruni, Martine Aubry, Dominique Strauss-Kahn, Marine Le Pen, Bernard-Henri Lévy e Valérie Trierweiler, todo mundo pode ser ridicularizado pelos guignols. Tornar-se um personagem dos guignols é prova de entrada para o clube restrito das pessoas que contam na vida política e cultural francesa.

Na maioria das vezes o “homenageado” não dá pulos de alegria, pois o viés é sempre o ridículo ou algum traço bizarro de personalidade. Dominique Strauss-Kahn, por exemplo, tornou-se uma das marionetes mais assíduas na programação, sempre em situações que o mostram como um verdadeiro maníaco sexual.

Há também a sátira leve e o riso ingênuo. Mas a loura Ferrari, fria e lisa, estilo Grace Kelly, não é áspera o suficiente para fazer rir como personagem satírico dos guignols. Seguramente, o lugar de PPDA, eterno apresentador de Les guignols de l’info, não está ameaçado. No mundo da ficção ele não corre risco algum.

***

[Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris]

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