Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Volta ao mundo com Martin Wolf

Por Moisés Naím em 03/07/2012 na edição 701
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 29/6/2012; tradução de Clara Allain; intertítulos do OI

A crise transformou alguns comentaristas econômicos em personagens de fama mundial. Um deles é Martin Wolf, o principal editorialista econômico do Financial Times e certamente um dos colunistas mais influentes do momento. Conversei com ele alguns dias atrás em Istambul. “Que aspectos da crise o surpreenderam?”, perguntei.

Martin Wolf – O pouco capital próprio que possuíam os bancos e outras instituições financeiras, para os riscos que assumiam. Captavam dinheiro a curto prazo e o colocavam no longo prazo. Eu tinha voltado toda minha atenção à macroeconomia e não vi o que estava acontecendo com a microeconomia. Esse é o maior erro que cometi em minha carreira. Meu outro erro foi não ter me dado conta de quão fracos e inadequados eram os controles e regulamentos dos bancos.

Que responsabilidade têm os jornalistas nesta crise?

M.W. – Eles cometeram muitos erros de omissão. Deveriam ter sido muito mais agressivos e rigorosos na fiscalização dos bancos, os reguladores etc. O problema é que, em geral, os jornalistas sabem pouco de economia e finanças.

“Economia americana é a que mais se recuperou”

Mas os economistas mais renomados tampouco se cobriram de glória. Nem previram a crise nem entraram em acordo quanto a como administrá-la. Quais foram as exceções?

M.W. – Nouriel Roubini alertou desde cedo sobre as bolhas nos preços de certos ativos financeiros e sua relação com o endividamento e percebeu que essa mistura era explosiva. Robert Shiller analisou melhor que ninguém o que estava acontecendo no setor imobiliário. E Raghuram Rajan soou o primeiro alarme sobre a fragilidade do setor financeiro e explicou como ele estava se convertendo em ameaça à estabilidade global. Na realidade, porém, houve muitos outros. E a verdade é que a economia ortodoxa mostrou não ter utilidade para explicar o que acontece.

Mas os chefes de Estado precisam administrar a situação, mesmo que as recomendações que os economistas lhes dão sejam de qualidade duvidosa. Como o sr. qualifica a administração da crise feita por George W. Bush, Barack Obama, Wen Jiabao e Angela Merkel?

M.W. – Bush, reprovado. Obama e Wen Jiabao, aprovados. Merkel, aprovada como líder da Alemanha e reprovada como líder europeia.

Mas Obama está sendo criticado ferozmente pelo modo como administra a economia.

M.W. – De fato. Seus críticos argumentam que a recessão dos EUA deveria ter sido mais curta e a recuperação mais veloz e vigorosa. Mas, com base na experiência histórica e na análise objetiva, a crise que Obama herdou deveria ter causado uma recessão ainda mais profunda que a que houve, e provavelmente até uma forte depressão. Obama conseguiu evitar essa catástrofe e, desde que a crise começou até agora, a economia americana é a que mais se recuperou, em comparação com as dos outros cinco países mais avançados.

“É preciso criar postos de trabalho”

Nesta crise, os chefes dos bancos centrais se transformaram em atores fundamentais. Quem são os melhores banqueiros centrais do mundo?

M.W. – Ben Bernanke, o diretor do Federal Reserve dos EUA.

Quem mais?

M.W. – Os outros estão em outra categoria. Bernanke vem fazendo um trabalho excepcional.

Paul Krugman argumenta que uma política monetária e fiscal mais expansiva reduziria o nível de desemprego nos Estados Unidos. Raghuram Rajan pensa que muitos dos empregos que desapareceram na crise não poderão mais ser recuperados – que são produtos de mudanças estruturais e tecnológicas. Quem tem razão?

M.W. – Os dois. Krugman, ao afirmar que os EUA podem e devem fazer mais através de gastos públicos e da política monetária para aumentar o emprego. E Rajan ao dizer que a economia dos EUA se transformou de tal maneira que muitos empregos de antes não vão mais existir e que, a longo prazo, é preciso criar postos de trabalho em outros setores.

“A Turquia sofre de desequilíbrios econômicos”

Dentro de dez anos, que país vai ter uma economia com mais crescimento, Espanha ou Itália?

M.W. – Espanha.

E entre China e Índia?

M.W. – Índia.

Estados Unidos ou Alemanha?

M.W. – Estados Unidos.

E, já que estamos na Turquia, um país que vem tendo um desempenho econômico espetacular, como o sr. vê a situação aqui?

M.W. – Insustentável. A Turquia sofre de desequilíbrios econômicos profundos, e seu enorme déficit de conta corrente é um sintoma desse fato.

“O status quo e algo mais”

E a Europa?

M.W. – Vejo três cenários: mais Europa, mais do mesmo ou reformas limitadas. O primeiro é uma Europa mais federal, o segundo é a Europa das contínuas cúpulas de líderes em que não se decide nada de fundamental ou “grande” e o terceiro supõe que os países vão acordando reformas parciais que permitam ir resolvendo os problemas mais graves; é o que chamo de “o status quo e algo mais”. É este o cenário que vejo como o mais provável.

***

[Moisés Naím, do Carnegie Endowment for International Peace, foi editor-chefe da revista Foreign Policy]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem