Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > UMA SENHORA REVISTA

Memórias curtas de Senhor

Por Nahum Sirotsky em 10/07/2012 na edição 702

Em tempos recentes, depois de cerca de 50 anos, decidiu-se que a revista Senhor – por mim imaginada e seu primeiro diretor – era assunto de pauta. A Folha de S.Paulo lançou uma promoção submetendo cinco nomes de pessoas que muito haviam contribuído para o desenvolvimento cultural, quatro há muito falecidos. No meu caso, escreveram 1925, ano de meu nascimento, seguido de pontinhos. Fiquei com a impressão de que não sabiam se eu estava vivo… Estou vivendo em Tel Aviv, Israel. A Folha publicou brilhantes textos sobre a revista. Agradeço.

O texto de Ruy Castro, colunista do jornal, fazia apanhado histórico. Até agora não li o livro que escreveu com o título de Uma senhora revista. Sei que fala de mim, de Paulo Francis, que era meu editor para a seleção de literatura e ensaios críticos. Não há limites do que se pode destacar dele na época. Sei que se escreve sobre Carlos Scliar e Glauco Rodrigues, dois pintores e artistas gráficos de excepcional talento e já falecidos; sobre Jaguar, cujo desenho de cartoons chamou atenção da revista suiça Graphis, que lhe dedicou um inédito espaço. Ignoro se Bea Feitler foi lembrada. Consola-me saber que seu sobrinho, o historiador e professor universitario Bruno Feitler, publicou memórias carinhosas sobre ela.

Garota da zona sul do Rio, apareceu na redação, mostrou uns poucos trabalhos e foiFoi contratada no mesmo momento. Suas sugestões e criações foram de grande influência na beleza de Senhor. Em pouco tempo, porém, juntou uns trabalhos publicados e partiu para conquistar Nova York. Logo chegava a diretora de arte de uma das mais influentes revistas femininas da epoca. Adoeceu e voltou para falecer em casa no Rio. Meninona inesquecível, por seu talento e beleza. Sedutora.

Guimarães, Jorge, Hemingway

Ignoro se Ruy destacou as contribuiçoes do jornalista Luiz Lobo e de Ivan Meira, diretor de publicidade. Luiz Lobo, dono de um texto de refinada ironia, inimitável, sintetizava a ideia inspiradora da revista. Editor de serviços, ensinava a selecionar as melhores bebidas, os melhores pratos, a se vestir bem e com o apreciar a beleza das jovens bem vestidas. Senhor, cujo preço de capa equivalia ao de um livro, fora criada para comunicar o melhor de todas as artes ao empresário que promovia o desenvolvimento sem tempo de se refinar.

Ivan Meira que viria a morrer num desastre de aviação na Baía de Guanabara, impôs às agencias de publicidade a valorização de seus elementos de criação e arte. Teve a coragem de criar uma peça publicitária impressa no próprio tecido promovido. E uma história promovendo um grande magazine numa fotonovela estrelada por dois atores inesquecíveis, Jardel Jercolis [Filho] e Odete Lara. Tudo inédito.

Consegui convencer Guimarães Rosa a escrever um conto pagando o alfaiate dele. Guimaraes servia como embaixador na Divisão de Fronteiras do Itamaraty. Fiz tudo para comvencê-lo, mas ele dizia que nada mais tinha a dizer. Certa manhã, encontrei-o conversando com o seu alfaiate, a quem não pagava havia meses. Ele dizia não ter dinheiro. Perguntei de quanto era a dívida, puxei o talão de cheques e saldei a conta. Pagávamos muito bem. O dinheiro do alfaiate equivalia a dois meses de salário. Então ele escreveu o conto, e foi tamanho o sucesso que passou a querer um por edição. Tive trabalho para explicar qee a revista mudava de autor a cada mês. E assim aconteceu com outros. O escritor brasileiro ganhava quase nada por seus livro. Estimulamos Jorge Amado a escrever “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” e Roberto Campos a fazer humor com a economia. Foi mesmo uma grande aventura.

E houve o sofrimento do primeiro número. Queríamos publicar uma obra de Ernest Hemingway, cujos direitos em português dependiam de autorização de uma editora portuguesa. Depois de prolongada troca de cartas chegou a hora de decidir. Lembro do telegrama que mandei: “Peço vênia de vossências pagando resposta. Podemos usar a obra?” Horas depois chegou a resposta por telegrama: “A resposta que vossência espera seguiu hoje em carta expressa”. Arriscamos e publicamos a novela. Foi um sucesso.

***

[Nahum Sirotsky é jornalista, em Tel Aviv]

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