Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > DIÁRIO CARIOCA

Um jornal para ser lembrado

Por Matías M. Molina em 10/07/2012 na edição 702
Reproduzido do suplemento “Eu & Fim de Semana” do Valor Econômico, 6/7/2012

Há jornais inesquecíveis, que imprimem sua marca, disse um antigo redator do Diário Carioca. Fechado há quase meio século, o Diário Carioca despertava, e ainda desperta, fortes emoções. Poucos jornais no Brasil foram lembrados com tanto afeto e nostalgia pelos jornalistas que nele trabalharam.

Mas ninguém sentiu saudades da empresa que o editava. O proprietário, Horácio de Carvalho Junior, era rico mas não investia seu dinheiro no jornal. Pelo contrário, havia ocasiões em que limpava o caixa e viajava a Paris. Num país em que salários baixos e atrasos no pagamento na imprensa eram comuns, o Diário Carioca fazia disso uma arte. Era uma tradição da casa. Estava no DNA do jornal desde o seu lançamento. Com apenas um ano de vida, em dezembro de 1929, houve um “pequeno atraso” no pagamento e quase toda a redação saiu para trabalhar num novo diário de esquerda que estava sendo lançado, A Batalha, financiado por um bicheiro.

Quando cronista Paulo Mendes Campos queixou-se ao gerente de atrasos do salário e da falta de dinheiro para comprar o leite dos filhos, mas nunca faltava uísque na mesa do patrão, ele respondeu: “Ora, Paulinho, o uísque para o doutor Horácio é como o leite para as criancinhas”.

Rubem Braga fazia crônicas para o Diário Carioca. Seu biógrafo escreveu: “À noite, muitas vezes, encontravam-se na boate Vogue patrão e cronistas, onde Carvalho abraçava um por um, efusivamente, pagava uma ou outra dose, e prometia generosos aumentos e pagamentos em dia – promessas das quais não se lembrava nunca, no dia seguinte, quando sóbrio”.

Paulo Francis, crítico de teatro, disse que levava meses para receber o salário. “Não peguei o tempo em que os redatores eram pagos em espécie (ventiladores, roupa etc.), mas é célebre.” Evandro Carlos de Andrade – que depois seria diretor do jornal O Globo e da TV Globo – disse que ganhava salário mínimo, distribuído em vales semanais, que não eram pagos semanalmente. Alguns jornalistas só conseguiam receber vales, desde que viessem disputá-los cada manhã, quando entrava o dinheiro da venda diária. Outros recebiam do governo, em empregos conseguidos pela direção do jornal.

Linguagem simplificada

Apesar desses atrasos, o Diário Carioca foi lembrado pelo excelente ambiente de trabalho. A redação era uma alegria. “Risonha, franca e barulhenta”, segundo Otto Lara Resende. Prudente de Morais, neto, que assinava como Pedro Dantas e foi diretor do jornal, reconhecia: “É verdade que o Diário Carioca não paga. Mas não paga com uma simpatia…” Pompeu de Sousa, que também seria diretor, dizia que o salário atrasava. “Mas quando você chegava na redação tinha a impressão de que o salário era pago adiantado, tamanho o entusiasmo da rapaziada, e que o espírito lá dentro era ameno, irreverente e bem-humorado, o que só poderia nascer da atmosfera em que se vivia. Não creio que esta atmosfera possa um dia se reconstituir em qualquer jornal, em qualquer parte.”

Para Ferreira Gullar, a redação do Diário Carioca era o lugar mais divertido em que trabalhou. Segundo Luís Edgar de Andrade, “tudo marcava. O grupo, o estilo, o clima de molecagem”.

Milton Coelho da Graça, que só conseguira o dinheiro para tirar a mulher e a filha da maternidade depois de quebrar algumas máquinas de escrever e jogar outras pela janela, reconheceu: “Em nenhuma outra redação viveu-se tal clima de bom humor, dedicação e total carioquismo. Uma instituição única no jornalismo de nossa cidade”. E quando o jornal fechou ele sentiu uma serena saudade de tudo que viu e aprendeu nele. Evandro Carlos de Andrade o considerou “o mais charmoso, o mais irreverente, o mais irresponsável, o mais politiqueiro” dos jornais.

Angenor de Oliveira, o “Cartola”, um dos maiores compositores da música popular brasileira e um dos criadores da escola de samba Mangueira, foi contínuo do jornal.

A balbúrdia no Diário era completa. Quando chegava uma visita em hora pouco apropriada, os dois secretários da redação simulavam uma briga, trocavam insultos e palavrões, e um deles sacava uma faca, sendo contido por alguns redatores e pelo contínuo, cúmplices de toda a encenação, que só terminava depois que os visitantes inconvenientes tinham ido embora.

O bom humor e a irreverência transpareciam nas páginas do jornal. Num dia em que não havia conseguido nenhuma notícia, o repórter Mauro de Almeida, para não voltar à redação com as mãos abanando, escreveu a história do mineiro que comprou um bonde.

O jornal tomava liberdades com os fatos. Ruth Collins foi a última pessoa condenada à pena de morte na Inglaterra. O Diário publicou na primeira página, de alto a baixo, a foto de uma bela jovem, de maiô e salto alto, como se fosse ela. Pompeu justificou-se: “Em jornalismo, não se pode ser acadêmico”. O jornal publicou durante vários dias a história do hipopótamo que engoliu um chapéu e passou mal – quase morreu, assegurou o Diário aos seus leitores.

Talvez a história mais famosa seja a do “gavião da Gávea”, a ave de rapina que estaria devorando as pombas perto da igreja da Candelária. Luiz Paulistano, o chefe de reportagem, decidiu investir no rumor. O jornal assegurou que o gavião morava no alto do campanário da igreja e atacava todos os dias. Criou uma Milícia de Proteção aos Pombos da Candelária – a MPPC. O assunto atiçou a imaginação popular. Em torno do meio-dia, centenas de pessoas se aglomeravam nas proximidades da igreja na esperança de ver a ave e suas evoluções no ar. Muita gente jurava ter visto o gavião em pleno voo e contava suas façanhas.

O Diário falava do lar, dos hábitos e das aventuras e desventuras do bicho que, dizia-se, era casado e pai de vários filhos. A população dividiu-se em duas facções: os que queriam acabar com o gavião e os que defendiam o seu direito de comer os pombos. Caçadores chegaram ao Rio na tentativa de acabar com ele. Jornais concorrentes reclamavam das dificuldades do trânsito na avenida Presidente Vargas e insinuavam que o Diário pretendia aumentar a venda de jornais à custa da tranquilidade de uma velha ave, desamparada e só. Realmente, a circulação do jornal subia sustentada nas asas do gavião.

Mas o que garante ao Diário Carioca um lugar de destaque na história da imprensa foi a reforma que implantou em meados do século passado. Danton Jobim, que também seria diretor, e Pompeu de Sousa estiveram nos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial e voltaram dispostos a introduzir algumas das técnicas da imprensa americana, de jornalismo mais direto.

Um título em duas colunas, em 1945, foi considerado o primeiro evento dessa renovação. Para registrar a substituição do marechal Eurico Gaspar no Ministério da Guerra pelo general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, dizia: “Hoje: Sai Dutra e entra Góis”. A irreverência e falta de formalismo no tratamento de autoridades gerou um escândalo.

Também foi renovada a maneira de escrever. A notícia, escrita em forma de pirâmide invertida, deveria dizer o que aconteceu, onde, quando, quem, como e por quê. A linguagem do jornal seria mudada e simplificada, para livrá-la do pesado arcabouço que sufocava o texto. Suprimiram-se os chavões e lugares comuns, os adjetivos grandiloquentes e desnecessários.

Mudança de orientação

Pompeu escreveu um manual. Pegou meia dúzia de livros de estilo de agências e jornais americanos e, no carnaval de 1950, preparou, em 16 páginas, as “Regras de Redação do Diário Carioca”. Foi escrito de forma direta, sem circunlóquios, como queria que fosse o estilo do jornal. Introduziu também o copy desk, a mesa ou seção que recebia as matérias a publicar para serem lidas e eventualmente reescritas dentro de um padrão – no Brasil, a expressão, aportuguesada para “copidesque”, passou a denominar não a seção, mas o jornalista que tinha essa função; criou-se também o verbo “copidescar”.

Para implementar as reformas, Jobim e Pompeu não quiseram jornalistas veteranos, cheios dos vícios do velho estilo. Escolheram alunos promissores do curso de jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia, onde ambos lecionavam, ou jovens com potencial e escassa ou nenhuma experiência. E colocavam esses jornalistas neófitos nas mãos de Luiz Paulistano. Passaram pelo Diário vários dos melhores jornalistas do Rio. José Ramos Tinhorão lembrou que todo aquele trabalho coletivo de reformulação de linguagem jornalística ocorria num clima de autêntica esculhambação; tudo se passava, segundo ele, num clima brasileiro de bagunça organizada, em que as regras eram de fato aplicadas.

A reação inicial nem sempre foi positiva. Para Prudente de Morais, as mudanças eram “as galinhagens do Pompeu”. Osório Borba, um veterano e respeitado jornalista, ficou indignado. Dizia que Pompeu tinha acabado com o artigo no Brasil por causa da contagem dos títulos e que substituiu os verbos pelos dois pontos: “Está criando uma outra língua, não é mais a língua portuguesa, é outra coisa”.

As diatribes de Nelson Rodrigues ficaram famosas: “O idiota da objetividade inunda as mesas da redação e seu autor foi Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o ‘copy desk’ é o idiota da objetividade, são gêmeos e um explica o outro (…). O Diário Carioco nada concedeu à emoção, nem ao espanto. Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente cara a cara, com guerra civil. E o que faz o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais (…) O Diário Carioco não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade”.

Ele também escreveu, e talvez tivesse razão: “Se lá aparecesse Proust, seria reescrito do mesmo jeito” e “se o ‘copy desk’ já existisse naquele tempo, os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco”.

O Diário ficou na vanguarda da imprensa do Rio. Inicialmente, teve pouco impacto. Apenas quando o Jornal do Brasil contratou uma parte da equipe do Diário, que aplicou lá os ensinamentos recebidos, é que as modernas técnicas passaram a ser adotadas por outros jornais: O DC influenciou a imprensa diária através do JB.

O Diário Carioca foi lançado em julho de 1928, para fazer oposição ao governo de Washington Luís, por José Eduardo de Macedo Soares, de uma tradicional família fluminense de Saquarema, que deixou a Marinha como primeiro-tenente para dedicar-se ao jornalismo. Antes, ele fundara O Imparcial, com o qual atacou o presidente Hermes da Fonseca. Macedo Soares se caracterizou pela pena brilhante e incisiva, que sabia onde e como ferir com um humor seco. Era, como diz Cecília Costa, um “apaixonado esgrimista das palavras”. Alguns de seus editoriais ficaram famosos. Jornal personalista, de baixa circulação, mas influente na vida política, o Diário Carioca não se caracterizaria pela coerência de suas posições, que mudavam acompanhando as idiossincrasias e os interesses de seus proprietários. Macedo Soares foi exilado e preso várias vezes, alvejado a tiros e agredido na rua.

Ele, depois de apoiar a ascensão de Getúlio ao poder, passou a combatê-lo. O jornal foi proibido de circular por causa do editorial “Balaio de caranguejos”. As críticas aos “tenentes” da Revolução de 1930 provocaram invasão da sede e a destruição dos equipamentos. Em 1932, Macedo Soares passou a propriedade do Diário Carioca e de diversas fazendas no Estado do Rio a Horácio Carvalho Júnior, de 21 anos, mas se reservou a direção política do jornal. Macedo Soares era homossexual e a imprensa da época escreveu que se apaixonara pelo belo Horácio, membro de uma família da antiga e empobrecida aristocracia rural fluminense, de Vassouras. Contrariando a maioria dos depoimentos, Cecília Costa escreve que o jovem proprietário “acabaria por ser cativado por gráficas e rotativas”.

O Diário apoiou Getúlio quando introduziu a Lei de Segurança Nacional – “a repressão aos maus elementos, aos agitadores, aos terroristas deve ser inflexível e energética”, dizia um editorial – e também durante o Estado Novo. Macedo Soares perdeu a disputa pela hegemonia política no Estado do Rio para Ernani do Amaral Peixoto, casado com Alzira Vargas, filha de Getúlio, que seria alvo de seus mordazes ataques. Amaral Peixoto era almirante e tinha a fama de ter pouca experiência nas lides navais, sendo conhecido como “almirante sem esquadra”. Macedo Soares escreveu: “Falando ontem a bordo do couraçado Minas Gerais, solidamente amarrado ao cais da Ilha das Cobras, o almirante Amaral Peixoto…”. Vez por outra, referia-se ao genro de Getúlio como, “Alzirão”, “Alzirante”, “Almirante da Baía da Guanabara”, “Almirante em seco, acostumado a atravessar de lancha a baía da Guanabara”, “Leão dos Mares Guanabarinos”, e assegurava que era capaz de enjoar na barca da Cantareira.

A hostilidade de Macedo Soares também se estendeu a Getúlio, que ajudara o genro nessa disputa. O jornal, que antes defendera o regime e o presidente, se tornaria veementemente antigetulista. No apagar da ditadura, escreveu um de seus mais famosos editoriais: “Antes do amanhecer, cantam os galos”. Apoiou o governo do presidente Dutra, hostilizou Getúlio como presidente eleito e tentou impedir sua posse. Quando este se suicidou, o jornal e Macedo Soares mudariam completamente de orientação política. Com problemas econômicos, o Diário apoiou todos os presidentes seguintes e mudou de proprietários. Fechou no último dia de 1965, lamentado por quem lembrava de seus tempos de glória.

Sentimentos de afeto

O lançamento do livro de Cecília Costa sobre o Diário Carioca veio enriquecer a escassa bibliografia existente sobre os jornais brasileiros. Ela pesquisou durante vários anos e entrevistou pessoas que trabalharam no Diário, cujos depoimentos ocupam quase a metade do livro. Seu objetivo foi “dar a César o que é de César” e mostrar que muitas das inovações atribuídas ao Jornal do Brasil começaram, na verdade, no Diário Carioca.

É um livro marcado pela emoção e não esconde uma entusiástica admiração pelo jornal e por seu fundador. Não economiza elogios. Na apresentação, Benício Medeiros afirma que o Diário “denunciou desmandos administrativos, produziu crises institucionais, derrubou ministros – tudo em nome de valores como liberdade, probidade, legalidade, em que Macedo Soares, o ‘Príncipe dos Jornalistas’, acreditava acima de tudo”.

Para Cecília Costa, era um jornal de “páginas magistrais” que se posicionou “sempre a favor da democracia”. Mostra seu fundador como um “intrépido personagem”, “um gigante do inconformismo”, autor, com “sua habitual galhardia”, de “incontáveis peripécias” e “atos de bravura”; um “Gofredo romântico”, que “enfrentava não só moinhos de vento, mas também ogros, soldados, capangas e caudilhos”, e “em cujo sangue macediano corriam indômitas palavras”. Macedo Soares era ainda “um audaz cavaleiro andante”, “um inquebrantável Davi” sempre movido por suas crenças e princípios éticos. Iluminado pela chama de seus ideais, nada o abatia, diz Costa. E também, diz a autora, era um homem íntegro, que tinha fé em si mesmo e no poder de suas palavras. Suas palavras impressas vibravam cheias de vida, iluminando as mentes e os corações mais entorpecidos.

Talvez para facilitar a leitura, Cecília Costa carregou na adjetivação e na hipérbole e usa um estilo coloquial. Mas a interessante história do Diário já atrai, por si, a atenção do leitor e dispensaria o uso desses recursos. Um enfoque mais sóbrio e mais crítico teriam dado mais peso à obra.

A editora presta um excelente serviço aos interessados na imprensa ao permitir o acesso gratuito ao livro pela internet; prestaria um serviço adicional se tivesse incluído, no fim da obra, a bibliografia utilizada e um índice onomástico.

Cecília Costa escreveu a obra mais completa até hoje a respeito de um jornal que ainda desperta fortes sentimentos de afeto. Ainda surpreende como, apesar das condições adversas, da falta de recursos e da indiferença dos proprietários, a redação do Diário Carioca fez as reformas que mudaram a cara da imprensa.

***

[Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição, e prepara trabalho sobre jornais brasileiros]

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