Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > O FUTURO DO JORNAL

Impressos dos EUA demoram para reagir à crise

Por David Carr em 17/07/2012 na edição 703
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 10/7/12; tradução de Augusto Calil; intertítulos do OI

Enquanto a maioria dos americanos fazia churrasco e aproveitava o verão na semana passada, a indústria dos jornais parecia colocar a si mesma na brasa. Operações editoriais enfrentam percalços que são ao mesmo tempo hilários e aterrorizantes. O U-T, um diário de San Diego, por exemplo, publicou – na primeira página – um texto postado num blog duas semanas antes. Já o programa de rádio This American Life revelou que a produtora de conteúdo Journatic usava manchetes falsas. Alguns dos artigos de interesse estritamente local, publicados em jornais como o Chicago Tribune, Chicago Sun-Times, Houston Chronicle e San Francisco Chronicle, foram escritos nas Filipinas.

Com o Times-Picayune, de Nova Orleans, a confusão foi maior. A empresa criou uma operação digital de baixo custo e reduziu a circulação de seu jornal impresso para apenas três dias na semana. Pouco antes de colocar o serviço de notícias de baixo custo no ar, propôs a vários jornalistas antigos da casa que assumissem posições na nova empreitada. Deram uma olhada no plano de negócios da nova operação e responderam: “Não, obrigado.”

Entre fiascos operacionais e as fracassadas tentativas de reduzir custos de uma hora para a outra, está claro que o negócio dos jornais impressos, que teme há 15 anos uma crise cada vez mais próxima, luta para se manter na superfície. Há pessoas inteligentes tentando inovar e uma grande quantidade de bom jornalismo é publicada todos os dias. Mas o desgaste financeiro se torna mais visível a cada semana.

Planos de aposentadoria sem recursos e dívidas

“A maioria dos jornais tem feito grandes cortes em parte de suas operações. Cicatrizes devem começar a surgir em algum momento”, disse Rick Edmonds, analista do setor do Instituto Poynter. Algumas das maiores fissuras não podem ser disfarçadas pela engenharia financeira. Os fundos de hedge, que imaginaram ter comprado essas empresas no seu momento de maior desvalorização, procuram agora saídas que não existem. Muitas empresas jornalísticas sofrem com o imenso peso de dívidas acumuladas por compras inoportunas. E, por mais que o problema receba menos atenção, os jornais são castigados pelo retorno insignificante de planos de pensão com recursos insuficientes.

Como destacou Mike Simonton, da Fitch Ratings, pouquíssimos investidores estão dispostos a oferecer empréstimos aos jornais. Ele disse que as obrigações para com os pensionistas “representam uma demanda de capital num momento em que os jornais precisam desesperadamente investir esse capital na evolução de seus modelos de negócios e na sua adaptação ao mundo digital”.

As pessoas parecem se animar ao verem que Warren Buffett tem comprado jornais, mas vale dizer que, quando comprou os jornais da Media General, ele deixou as obrigações dos planos de pensão com o antigo dono. Aqueles que trabalham no ramo gostam de pensar que se trata de uma atividade única. Mas, com planos de aposentadoria carentes de recursos e dívidas impossíveis de se pagar, a indústria dos jornais se mostra cada vez mais parecida com a siderúrgica, a automobilística e a têxtil.

Jornalismo de qualidade é a única proteção

Houve época em que a família Newhouse (grande grupo editorial dos Estados Unidos, dono da Condé Nast Publications e do Times-Picayune) mantinha os sindicatos sob controle com a promessa do emprego vitalício. Mas agora a empresa quer se livrar de alguns funcionários – e custos acumulados – tão rápido quanto o possível. O plano tem como base a contabilidade, e não a estratégia, motivo pelo qual alguns dos principais nomes do jornal recusaram ofertas de emprego no empreendimento recém reconfigurado.

Grandes jornalistas, como David Hammer, Stephanie Grace e Bill Barrow, deixaram o Times-Picayune para trabalhar em emissoras de TV e agências de notícias. “Se analisarmos bem, eles estavam nos pedindo que aceitássemos empregos numa empresa cuja receita ainda depende muito do produto impresso”, disse Barrow. “Mas aquele jornal não é mais uma prioridade e ninguém sabe qual será sua aparência nem que tipo de notícia ele trará quando for publicado. São muitos os fatores desconhecidos.” A redução do Times-Picayune é uma grande perda e também uma aposta bastante incerta. Ainda assim, quem será capaz de dizer que a família Newhouse está mais equivocada do que o restante da indústria na sua busca por uma posição mais segura? Afinal, a matemática é desafiadora e há uma escassez de soluções mágicas.

Mas, conforme avançam, os Newhouse devem se lembrar que a tentativa de cortar gastos e buscar atalhos ignora um fato fundamental: o jornalismo de qualidade, independentemente da plataforma, é a única proteção garantida contra a irrelevância.

***

[David Carr, jornalista, é colunista de mídia e cultura do New York Times]

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