Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > A IMPRENSA PELAS ARTES

Os jornais nos livros

Por Cynthia Crossen em 17/07/2012 na edição 703
Reproduzido do Wall Street Journal, 10/7; intertítulos do OI; tradução de Jô Amado

Minha saga preferida sobre jornais é um livro de não-ficção de Lucius Beebe, Comstock Commotion: The Story of the Territorial Enterprise. É a história de um jornal do Velho Oeste, que começou a ser penosamente produzido numa prensa manual em uma cabana, perto de Virginia City, no estado de Nevada, em 1858. Tinham descoberto prata numa mina no condado de Comstock, próximo à cidade, e os negócios estavam em franca expansão. “Numa névoa de blasfêmias e álcool, profética das coisas que iriam acontecer, nasceu o jornal que logo seria o padrão… do jornalismo de fronteiras por toda parte”, escreveu Beebe, um aristocrata de Boston que comprou o jornal em 1952.

Mark Twain trabalhou como repórter para o Territorial Enterprise. Mais tarde, escreveria sobre seu primeiro dia de trabalho, quando cobriu uma matéria sobre um trem que fora atacado por índios. “Senti que, se não estivesse confinado por limites rígidos, devido à presença dos repórteres de outros jornais, poderia acrescentar detalhes que tornariam o artigo muito mais interessante”, relembrava.

Acredito que tanto Mark Twain quanto Lucius Beebe apreciariam o romance recente The Spoiler, de Annalena McAfee, sobre duas jornalistas. Uma delas, das antigas, e a outra que escreve besteiras, como “Os 10 piores cabelos da TV”, para um tabloide de Londres, o Monitor. Tal como o Territorial Enterprise, o Monitor transita por uma falsa interpretação de dados reais, por um relativismo moral despreocupado e uma retórica intensa. Diante da mais nova das jornalistas, a veterana mais velha conclui: “A verdade foi reduzida ao subjetivo. Esta é a minha verdade; qual é a sua?”

Escritores caricaturam os jornalistas

No século 19, os escritores vilipendiavam os jornalistas – Glencora Palliser, de Troloppe, chamava-os “difamadores de esgoto”. John Stuart Mill dizia que o jornalismo era “a mais torpe e degradante das profissões” e os jornalistas não eram mais que “leões de chácara de bordel”. No início do século 20, os repórteres tornaram-se, por algum tempo, heróis românticos de filmes (His Girl Friday). Porém, com algumas exceções, os repórteres e editores criados pela ficção são figuras cômicas, das quais William Boot, do livro Scoop, de Evelyn Waugh, é o protótipo. Boot escuta uma história inspiradora: a de “como Wenlock Jakes, o jornalista mais bem pago dos Estados Unidos, deu um furo mundial com a matéria sobre uma testemunha do naufrágio do Lusitânia quatro horas antes do navio ser atingido”.

Ronald Eustace Psmith (o P não se pronuncia), personagem de P.G. Wodehouse em Psmith, Journalist, também é um palhaço. Ele trabalha para um jornal de Nova York chamado Cosy Moments cujo índice de rubricas inclui uma página “Moments in the Nursery” (Momentos na creche), “na qual os pais são convidados a contribuir com os brilhantes discursos de seus filhos”, e também uma “Moments Among the Masters” (Momentos entre os mestres), que é dedicada a “pedaços de trechos pinçados da literatura do passado, quando as testas eram salientes e os pensamentos, profundos”.

Os jornalistas contemporâneos representam um desafio de criatividade para os escritores porque passam a maior parte do tempo olhando para um monitor e esperando que alguma coisa aconteça. Em seu romance Floater, cujo herói, Fred Becker, discorre sobre os perigos da ginástica rítmica durante os três últimos meses da gravidez e sobre a nova onda das debutantes dançarem montadas a cavalo, Calvin Trillin também caricatura os jornalistas.

O livro de memórias de Russell Baker

No livro Towards the End of the Morning, Michael Frayn também faz uma sátira dos negócios da mídia. Sua principal personagem, John Dyson, lê um jornal para Bob, seu colega: “Escuta isto”, diz ele, de repente. “Escuridão ao meio-dia para os londrinos. Condições climáticas trouxeram escuridão às ruas do centro de Londres nesta manhã. Lojas e escritórios acenderam as luzes nas regiões da City e West End quando o céu se tornou negro. Na metade da manhã, parecia que era noite.” E olhou para Bob, esperando um comentário. “Sei disso”, disse Bob. “Eu olhei pela janela.”

Livros sobre jornais, assim como sobre notícias, são facilmente localizados no tempo, mas para mim parte do charme é ler sobre repórteres batucando em suas máquinas datilográficas e procurando palavras no dicionário. Adoro o livro I Shouldn’t Be Telling You This, de Mary Breasted, de 1984, sobre uma jovem repórter que se transfere de um semanário alternativo para um jornalão diário. Rumor Has It, o livro de Charles Dickinson de 1990, sobre a falência de um tabloide de Chicago, também é divertido, assim como Dwarf Rapes Nun, Flees in UFO, de Arnold Sawislak, de 1986.

Três novos livros sobre jornalismo que não li, mas parecem interessantes, são Everyone’s Gone to the Moon, de Philip Normal, Russell Wiley Is Out to Lunch, de Richard Hine, e Bilton, de Andrew Martin. Uma biografia maravilhosa de um jornalista safado é Winchell: Gossip, Power, and the Culture of Celebrity, de Neal Gabler. E acho que todos os jornalistas deveriam ler o livro de memórias de Russell Baker de seus dias em jornal, The Good Times, quando jornalistas novatos, como era o caso de Baker, podiam ser escalados para sair da Redação, assistir e escrever sobre um enforcamento.

***

[Cynthia Crossen, do Wall Street Journal]

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