Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > FIM DOS JORNAIS?

A alternativa iPhone dos classificados

Por Francisco Sérgio Morais Falcão em 31/07/2012 na edição 705

Nos últimos anos, lê-se uma infinidade de pesquisas e matérias sobre o fim dos jornais. Recentemente somou-se a essas profecias que a TV também findará com o crescimento da internet. Se tais profecias vão realmente acontecer, só o futuro responderá. No século 19, Machado de Assis refletia sobre outra extinção, o fim do livro, com o crescimento dos jornais no hábito de leitura da sociedade imperial brasileira. É preciso analisar a realidade com maior profundidade. Devagar com o andor. A realidade e o futuro são elementos por demais complexos para previsões tão exatas; existe o imponderável que a cada momento move o tabuleiro do destino.

O século 20 foi pródigo em mudanças tecnológicas que impactaram os meios de comunicação. Faz parte da História esse processo dinâmico, evolutivo, dialético, substitutivo e de permanências. O transformar faz parte da humanidade, as mudanças sociais, culturais, econômicas, geopolíticas e científicas afetam o surgimento e o declínio de negócios e empresas, além da boa administração, evidentemente. O século 21 chega com a seguinte pergunta aos meios de comunicação: com as novas tecnologias, o que o meio jornal deve fazer para continuar a ser relevante?

Antes, uma análise dos dados do meio jornal na primeira década do século 21. Acessando as informações do site da Associação Nacional de Jornais (ANJ), temos um panorama do meio jornal brasileiro com seus gráficos financeiros e leitura de jornais.

A estabilidade do número de assinaturas

O Brasil ostenta o posto de 6ª economia mundial e o sucesso na economia gradativamente refletiu no maior poder aquisitivo da população, com a ascensão das classes C e D, o aumento do poder de compra de bens como habitação, viagens, automóveis, eletroeletrônicos, dentre tantos outros. Perceptivas também suas mudanças no hábito de consumo, com destaque para o crescente acesso a computadores e elevada quantidade de celulares. Segundo a Anatel, em 2005 eram 86, 21 mi de celulares; em 2010 esse número foi de 202,90 mi de aparelhos no Brasil.

Analisando a pesquisa de leitura de jornais no mundo (Circulação Média/ População adulta – Cópias por mil habitantes), com dados de 2006 disponível no site ANJ, sobre as economias mundiais, o Brasil ocupava a 101ª posição com 53,4, enquanto seus colegas de Bric estavam na seguinte classificação: Índia (69ª/117,2), China (77ª/105,3), Rússia (não consta na pesquisa). Não cabe aqui uma comparação com as maiores economias. O abismo é ainda maior.

É desastroso? Não. Mas certamente é preocupante. De positivo, tem-se a estabilidade do número de assinaturas na primeira década deste século em relação ao declínio da circulação dos anos 1990. Os números de circulação dos jornais no Brasil vêm constantemente na última década atingindo sensíveis aumentos.

Tendência desanimadora

Sobre o investimento por meio, segundo a ANJ, uma comparação de 2001 a 2010 em porcentagem:

 

Ano Jornal Revista TV TV por
assinatura
Rádio Internet Mídia
exterior
Outros
2010 12,36 7,5 62,93 4,18 4,64 8,03
2009 14,08 7,69 60,92 4,43 4,43 4,27 2,96 5,29
2008  15,91 8,51 58,78  3,74 4,21 3,54 2,74 2,57
2007 16,38 8,47 59,21 3,36 4,04 2,77 2,82 5,95
2006 14,7 8,61 59,37 3,5 4,17 2,07 3,5 2,5
2005 16,3 8,8 59,57 2,34 4,19 1,66 4,7 2,8
2004 16,65 8,33 59,19 2,18 4,32 1,6 2,7 2,9
2003 18,14 9,4 59,03 1,7 4,53 1,49 5,7
2002 20,46 10,0 60,32 1,95 4,67 4,8
2001 21,73 10,84 57,76 1,57 4,86 4,3
Fonte: Projeto Inter-meios

 

Paradoxalmente, enquanto a circulação de jornais estabiliza, a fatia no bolo publicitário vem diminuindo. No meio jornal, a maior fonte da receita financeira vem da publicidade. Quando analisamos os dados do Projeto Inter-meios entre anúncios no noticiário x classificados, percebe-se o decréscimo da seção classificados. Vejamos:

 

Ano Noticiário (%) Classificados (%)
2010 69,1 30,9
2009 69,1 30,9
2008 66,85 33,15
2007 65,21 34,79
2006 70,88 29,12
2005 63,85 36,15
2004 64,53 35,47
2003 60,77 39,23
2002 60,47 39,53
2001 62,58 37,42
2000 65,54 34,46
1999 65,24 34,76
1998 62,75 37,25
1997 59,44 40,56
Fonte: Projeto Inter-meios (Editora Meio&Mensagem)

 

O cenário do meio jornal indica uma tendência novamente desanimadora, com índice de leitura baixa no Brasil, investimento publicitário menor e descendente importância dos classificados.

O que os classificados vêm fazendo?

Plagiando Nizan Guanaes, o momento é de fabricar lenços no meio jornal. Os livros não acabaram com o crescimento dos jornais, como Machado de Assis já refletia, o movimento que se impõe é antropofágico. O que muda é a forma de fazer e oferecer a informação. Qual, como e quando o usuário deseja informar-se é uma das respostas tanto debatidas no meio jornalístico. Se o jornalismo está reinventando seus profissionais de redação a partir da multiplataforma tecnológica, a visão do negócio também requer novo posicionamento no mercado.

Tecnologia e serviços marcam as características desta geração. O jornal papel não será extinto, mas a aliança e o acréscimo com outras mídias é fator diferencial no aumento de leitores e relevância nos dias atuais e futuros. Basicamente, jornal é análise, serviço e informação. Não apenas jornalístico, mas também de venda/compra/troca com seus anúncios destacados e classificados. É a junção do sacro e do profano. Demócrito Rocha Dummar, ex-presidente do jornal O Povo/CE e ex-vice-presidente da ANJ, costumava se referir ao jornal como um grande shopping de vendas, produzido todo dia. Desde o pequeno anunciante de linhas dos classificados até grandes anúncios de sobrecapa, tornando o jornal um espaço de visibilidade circulante e democrático.

A dinamicidade do mercado anunciante vem buscando formas de exposição das marcas além do meio jornal, quer fortalecendo seus sites, panfletagem nas ruas, anunciando em outras e novas mídias, e-mail marketing, telemarketing, enfim, criando facilidades que minimizem a necessidade de exposição no jornal. E o que os classificados vêm fazendo de diferente?

A Apple reinventou o mercado da música com o iPod, em seguida, as inovações do iPhone e iPad alteraram as referências de celular e computador, respectivamente. Mais que ícone dessas mudanças, essa nova tecnologia aponta caminhos para novos negócios.

Aplicativo para tablets e smartphones

O pensar diferente está em aliar um meio que pouco inovou nos últimos 200 anos, a seção classificados, com aquele que está disponibilizando desde 2007 através de seus aplicativos uma multifuncionalidade de serviços, quer de forma gratuita ou paga. O sucesso da Apple fez com que outras empresas desenvolvessem a plataforma Android e também abocanhassem uma fatia desse mercado. Elencar quais serviços são mais atraentes aos usuários torna-se irrelevante no momento, mas vamos exercitar nesse texto uma plataforma de negócios que alie tecnologia e anúncios classificados.

O modelo padrão de classificados é o sistema de anúncios oferecendo serviços ou produtos por x dias em x linhas, alguns jornais também desenvolveram seus sites para receber ou visualizar os anúncios. Muito pouco, a indústria jornalística é lenta na proposta de novas plataformas de negócios, comparativamente com a indústria tecnológica enquanto uma está em movimento aritmético, a outra está no geométrico.

Uma das alternativas de maximizar o negócio classificados é torná-lo um aplicativo para tablets e smartphones, aliando possibilidades de geolocalização dos anúncios com uma rede de serviços disponibilizados na comunidade. Serviços como indicar a melhor rota para visitar um imóvel disponibilizado no anúncio; fotos; vídeos; comentários de clientes; avaliação de especialistas; indicação de rede de supermercados, farmácias, hospitais, restaurantes, locadoras de vídeo, escolas, creches, consultórios, oficinas, rotas de ônibus.

Momento de acordar

Dentre os jornais brasileiros, O Globo e O Estado de S. Paulo são aqueles que iniciaram projetos diferenciados aliando as novas mídias dentro dessa proposta. Essas ações de dois dos maiores jornais no país demonstram que tal reflexão é uma tendência analisada pelas empresas.

As empresas jornalísticas são referências de credibilidade em suas comunidades, suas ações possuem um público qualificado e com poder aquisitivo, um movimento nesse sentido extrapola a básica funcionalidade dos classificados, torna-se também elemento simbólico de serviços para o restante da sociedade. Símbolo de sintonia com a contemporaneidade e suporte às necessidades do público.

As possibilidades são infinitas e lucrativas de serviços associados, trata-se de novo nicho de mercado disponível ao setor comercial dos jornais desenvolverem. Ultrapassa a venda de linhas, anúncios e destaques podem surgir como as especialidades médicas e serviços de consultórios, clínicas e hospitais; melhor apresentação de restaurantes com cardápios, receitas, reservas, opiniões; produtos e preços de supermercados comparativamente com os concorrentes.

Estar perceptivo as oportunidades sempre foi a tônica dos negócios, é o momento dos jornais acordarem para as novas formas de disponibilizar e ampliar os seus produtos.

***

[Francisco Sérgio Morais Falcão é historiador]

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