Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > KARL MARX, JORNALISTA

Um arqui-inimigo da censura

Por Flávio Henrique Lino em 31/07/2012 na edição 705
Reproduzido do Globo.com, 24/7/2012; intertítulos do OI

O turbulento século 20 colou a imagem de Karl Marx a alguns dos sistemas políticos mais autoritários e violentos já conhecidos pelo homem. Em nome de seu legado intelectual, as ditaduras comunistas implantaram ferozes perseguições a todo tipo de liberdade, transformando o Estado numa eficiente e onipresente máquina de repressão. No entanto, se tivessem seguido na íntegra o pensamento do filósofo alemão, os regimes que se espalharam nas décadas seguintes à Revolução Russa, em 1917, teriam respeitado ao menos um tipo de liberdade – a de imprensa. Surpreendentemente para muitos – em razão da impressão que se cristalizou por causa dos governos marxistas estabelecidos de Pyongyang a Havana, de Moscou a Maputo –, Marx foi ferrenho crítico da censura. E deixou isso mais do que claro em vários escritos, antes e depois do famoso Manifesto Comunista, que o catapultou para a História em 1848.

Pensador livre e jornalista numa Alemanha então dividida em monarquias absolutas, Marx cedo estabeleceu de que lado estava. “A imprensa em geral é a consumação da liberdade humana”, pontificou em 1842, aos 24 anos, num dos artigos de uma série publicada no jornal Rheinische Zeitung. “Uma imprensa censurada é ruim mesmo se produzir bons produtos”, escreveu, atacando de frente as práticas da monarquia prussiana.

O inquestionável e relevante papel do jornal impresso como multiplicador de ideias – que desde seu surgimento até hoje sempre esteve sob ameaça da censura – selou o destino do pequeno Rheinische Zeitung, fechado em março de 1843 pelas baionetas do rei da Prússia. A força das armas, no entanto, só reforçou Marx em sua convicções de que a censura jamais deve estar a serviço de ideologias.

“O governo ouve somente sua própria voz”

Anos após seu vigoroso posicionamento, ele sofreu o destino muitas vezes reservado aos que se levantam em defesa da liberdade em regimes autoritários. No início de 1849, de novo editor do renascido Neue Rheinische Zeitung, foi processado no Tribunal de Colônia sob a acusação de difamar funcionários do governo. Ao se defender na corte, sedimentou sua visão do papel do jornalista numa sociedade livre: “A função da imprensa é ser o cão de guarda público, o denunciador incansável dos dirigentes, o olho onipresente, a boca onipresente do espírito do povo que guarda com ciúme sua liberdade”. Ele, seu coeditor Friedrich Engels e o administrador Hermann Korff, também acusados, acabaram inocentados pelo júri.

No século seguinte, porém, a implantação de uma severa censura esteve sempre entre as primeiras providências de regimes comunistas avessos à vigilância de cão de guarda do público. Todos, de uma forma ou de outra, reivindicando o legado do filósofo alemão. Erroneamente, a julgar por seus escritos, no que diz respeito à liberdade de imprensa. Seria um contrassenso cobrarmos de Marx linha política comprometida com a justificação da censura usada pelos “regimes marxistas” – disse ao Globo o filósofo e escritor Leandro Konder. Se tivesse conhecido esses regimes, nada indica que o pensador insistisse nesse acumpliciamento.

Na verdade, os regimes marxistas que amordaçaram a imprensa sob tortuosas justificativas – de estarem, assim, defendendo a própria liberdade de informação – tinham outro guru nessa seara. Para Vladimir Lenin, líder da Revolução Russa, a imprensa nas sociedades ocidentais, “incluindo as mais livres”, era apenas um instrumento nas mãos da burguesia. Daí a necessidade de colocá-la, em sua visão, a serviço direto do povo, sob controle do Estado. “A liberdade de imprensa na prática se tornaria muito mais democrática, se tornaria incomparavelmente mais completa como resultado”, justificou no início de 1917, às vésperas de os bolcheviques tomarem o poder. Décadas antes, porém, Marx já previra o efeito de pôr a imprensa sob a tutela do Estado: “O governo ouve somente sua própria voz; sabe que ouve somente a sua voz; entretanto, tenta convencer-se de que ouve a voz do povo”, denunciou o jovem filósofo.

Mudança cultural

Passados aqueles primeiros anos (da tomada de poder pelos comunistas), à medida que o conteúdo da imprensa e sua apresentação cada vez mais se distanciavam da realidade experimentada pelos leitores, o abismo entre os dois se tornou intransponível. Em suma, ela perdeu credibilidade, assim como os regimes comunistas e sua ideologia – avalia o professor Peter Gross, diretor da Escola de Jornalismo e Mídia Eletrônica da Universidade do Tennessee.

Especialista na imprensa da antiga Cortina de Ferro e autor de vários livros sobre o assunto, Gross ajudou a organizar o curso de Jornalismo na Universidade de Timisoara, na Romênia, em 1992, logo após a queda do ditador Nicolae Ceausescu.

Os jornalistas romenos não tinham experiência com uma imprensa livre. Foram feitas mudanças da noite para o dia, mas o sistema e as instituições ainda funcionam de maneira que indica que a mudança cultural não foi completada – diz ele, apontando a tendência como recorrente em ex-países comunistas da região.

***

[Flávio Henrique Lino, de O Globo]

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