Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > ASSEMBLEIA DA SIP

Para discutir os desafios da imprensa

Por Gilberto Scofield Jr. em 16/10/2012 na edição 716
Reproduzido de O Globo, 11/10/2012; título original “SIP vai discutir os desafios da imprensa”

Os mais influentes profissionais de imprensa das Américas se reúnem de amanhã até terça-feira [12-16/10] nos salões do Hotel Renaissance, em São Paulo, para discutir os grandes desafios encarados pelo jornalismo hoje. Os temas vão do cerceamento da liberdade de expressão por governos e tribunais ao assassinato de jornalistas, dos novos modelos de empresas jornalísticas às múltiplas plataformas de distribuição de notícias. A 68ª Assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, da sigla em espanhol) vai reunir 65 palestrantes e 40 painéis para os quais está inscrito um público de cerca de 500 delegados de quase todos os países das Américas, além de 500 estudantes de comunicação.

Nomes como Arthur Sulzberger Jr., presidente do jornal The New York Times; José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas da ONG de direitos humanos Human Rights Watch; Milton Coleman, editor sênior do jornal The Washington Post; os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, e Alan García, do Peru; Jorge Castañeda, escritor, acadêmico e ex-ministro das Relações Exteriores do México; Ricardo Kirschbaum, editor-geral do jornal argentino Clarín; todos os diretores de redação dos principais jornais brasileiros, entre outros, vão discutir os maiores desafios do jornalismo hoje.

– O maior problema que enfrentamos em todo o continente é a violência crescente contra jornalistas. Entre 1967 e 2012, 397 profissionais de imprensa foram assassinados e 21 estão desaparecidos, o que totaliza 418 profissionais vítimas de violências variadas contra o jornalismo. Esses assassinatos se espalham de Colômbia, com 126 vítimas e Brasil, com 43 vítimas, até os EUA, com sete vítimas, e América Central – diz Julio Muñoz, diretor-executivo da SIP.

O assunto será discutido no encontro, e uma das saídas a serem debatidas é a federalização dos crimes contra jornalistas, geralmente cometidos em províncias e estados longe do alcance da Justiça mais eficaz das capitais. Nesses lugares, diz, a investigação e o julgamento desses crimes ou ocorrem de forma precária ou simplesmente demoram anos para acontecer, com policiais e juízes sob pressão de grupos contrários ao esclarecimento dos crimes, que acabam impunes.

Jornais sofrem pressão de governos

Outros problemas incluem as tentativas de governos da região para limitar o trabalho jornalístico de empresas privadas, seja por meio de leis que coíbem simplesmente o trabalho da imprensa até uso de mecanismos legais ou tributários para sufocar as organizações.

– Alguns países, como Venezuela, Equador e Argentina, contrariam a Declaração de Chapultepec, da qual somos todos signatários, e que define a liberdade de expressão e o acesso à informação como um direito individual inalienável do ser humano, não um direito constitucional ou uma concessão do Estado. Os governos têm que garantir o livre fluxo de informações às suas populações. E o que vemos são interpretações legais arbitrárias ou leis criadas por governos para restringir esse fluxo – diz Muñoz.

Por fim, a SIP vai discutir os ataques à estrutura da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA). Muitos governos estão tentando impor limites ou restrições operacionais à CIDH, alegando que a instituição estaria afetando a soberania de países como Venezuela e Equador.

Uma das grandes novidades da assembleia, diz Paulo de Tarso, membro do comitê executivo da SIP e do comitê anfitrião que cuida do encontro (formado por representantes de jornais e editoras do país), é a divulgação de um estudo inédito sobre a liberdade de imprensa no continente, realizada com 140 profissionais de imprensa, do Alasca à Patagônia.

– É um trabalho interessantíssimo, que a SIP deve transformar em uma pesquisa regular, onde os editores e repórteres falam sobre quais as maiores ameaças que veem à liberdade de imprensa em seus países e sobre a relação dos veículos com os governos – diz Paulo de Tarso. – Estudos sobre o estado da liberdade de imprensa nos vários países também serão divulgados, com um alcance que não se restringe aos profissionais da imprensa, mas à sociedade como um todo, por isso a importância desse encontro.

O encontro começa amanhã à tarde com o seminário “Liberdade de Imprensa e Direito à Privacidade – a voz de quem informa, de quem defende a liberdade, de quem é o foco”, com a participação da atriz Regina Duarte; do editor-superintendente da revista Caras, Edgardo Martolio; e da professora de legislação ligada à mídia, redes sociais e jornalismo digital do Instituto Poynter Ellyn Angelotti. O debate será mediado pela jornalista do Globo Patrícia Kogut.

A SIP começou a ser surgir em 1926 na capital americana, Washington, quando os profissionais no 1º Congresso Panamericano de Jornalismo pensaram em criar um organismo permanente para reunir jornalistas das Américas. Mas a primeira comissão permanente só aconteceu em 1942. Hoje, a instituição reúne 1.300 membros. Juntos, os veículos vendem 45 milhões de exemplares por dia.

***

“Com imprensa livre, todos ganham”

Num momento em que a liberdade de expressão e de imprensa é maculada em vários países das Américas, seja por meio da arbitrariedade de governos, seja pela violência contra jornalistas, a realização no Brasil da 68ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) ajuda na mobilização a favor da livre expressão, diz o diretor-presidente do Grupo Estado, Francisco Mesquita Neto. Para ele, São Paulo se transforma, a partir de amanhã, na capital mundial da imprensa.

O que acontecerá na SIP a partir de amanhã?

Francisco Mesquita Neto – Não é exagero afirmar que São Paulo será a capital mundial da imprensa durante esses dias. Executivos e editores de periódicos das três Américas, empresários do setor, líderes políticos e personalidades de vários segmentos da sociedade se encontrarão para analisar a situação da liberdade de imprensa e debater desafios e propostas para a atividade.

Qual a importância de um encontro desses num momento em que a liberdade de imprensa está ameaçada na região?

F.M.N. – Exatamente, e infelizmente, o Brasil não tem ficado fora disso, nem nas medidas judiciais que tentam impedir publicações, nem nas ameaças a jornalistas. O encontro, além de atualizar a discussão, repercute perante os poderes e a sociedade, de forma a manter a mobilização em prol da livre expressão.

É possível ter ideia mais clara sobre o jornalismo do futuro, aquele distribuído em múltiplas plataformas e tecnologias?

F.M.N. – A SIP vem incorporando, nos últimos tempos, aspectos mais estratégicos e mesmo mercadológicos a suas conferências, até por entender que a independência e a liberdade editorial estão ligadas à eficácia empresarial que sustenta o jornalismo. Nesse sentido, teremos painéis que, eu diria, serão de primeira linha em termos mundiais, em torno dos novos modelos de negócios.

De que forma um encontro de jornalistas desse porte ganha importância para a sociedade como um todo?

F.M.N. – À medida que a sociedade compreenda que a conquista da democracia passou pela atuação de uma imprensa livre e independente, que a economia de mercado só se consolida diante da liberdade de empreender e de informar. (Gilberto Scofield Jr.)

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[Gilberto Scofield Jr., de O Globo]

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