Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > NOVOS TEMPOS

Pensar o jornalismo sem jornais

Por Beatriz Borges em 30/10/2012 na edição 718

Um jovem espanhol começou a pensar, em 2007, como seria o mundo se os jornais já não existissem e como as pessoas se informariam sem a presença dos grandes meios de comunicação de referência. Pau Llop, de 31 anos, respondeu a essas questões criando uma ferramenta online para receber notícias, revisá-las e finalmente publicá-las. O altruísmo é o motor de Bottup (link ainda em versão Beta), onde qualquer um pode escrever notícias, mas a credibilidade depende do trabalho desenvolvido dentro da comunidade.

“Conforme o jornalista vai contribuindo com conteúdo de qualidade, damos-lhe a possibilidade de ser editor e assim ter sua carreira independente, sem necessidade de trabalhar em um meio tradicional para ganhar nome”, explica Llop. A tecnologia do Bottup permite trackear as ações do usuário e qualificá-lo pelos acertos, críticas construtivas a outros membros, temas relevantes propostos e número de acessos às reportagens que escreve.

Para colocar o projeto em prática, Llop contou com a ajuda de Ashoka, uma fundação que financia empreendedores sociais. Com três anos de patrocínio pôde criar a versão final da página web (ainda por estrear) e desenvolver outras aplicações para que Bottup funcionasse bem. Um desses braços da página é Fixmedia, criada sob inspiração de um site norte-americano onde as notícias são colocadas à prova pelos leitores. “Você pode entrar e dizer se o que o jornalista escreveu é verdade, se os dados são corretos, se manipulou a informação e até mesmo complementá-la”, explica Llop. A ideia é que Fixmedia ajude a identificar reportagens plagiadas, informações falsas e má interpretação dos fatos.

A aplicação contou com a ajuda de cidadãos através da rede social Goteo, uma página de financiamento coletivo. Enquanto os meios espanhóis lutam pela sobrevivência (o jornal Público já não se imprime, La información está quase perdendo as forças, El País e El Mundo estão passando por demissões em massa, reduzindo a quantidade de páginas e fechando redações dentro e fora do país), jornalistas independentes tentam continuar publicando suas histórias em plataformas como essa, para manter seus nomes presentes na memória do leitor.

Código aberto

Depois do movimento 15-M, quando milhares de pessoas saíram às ruas em maio de 2011 para protestar contra o desemprego crescente, redução de orçamento para a educação, privatização da saúde pública, e questionar o tipo de democracia que existe no país, a atuação filantrópica se popularizou e muitos meios de comunicação voluntários surgiram.

As alternativas à atual dicotomia entre jornais que apoiam partidos de esquerda ou de direita são epidêmicas, mas não rentáveis. “Nosso projeto é nonprofit, não tem fins lucrativos, simplesmente gostaríamos que funcionasse e fosse sustentável, caminhasse com os próprios pés”, diz Llop. Trata-se de um site híbrido que mistura funções de GoogleDocs e Linkedin e tenta diferenciar-se de outros meios comerciais que têm uma proposta similar, como o HuffingtonPost, que vive de blogueiros que escrevem gratuitamente e que, em troca, ganham notoriedade. E se dão por satisfeitos.

“A diferença de Bottup para outros meios comerciais é que não pensamos no posicionamento, na linha editorial, nem escolhemos as pautas. Somos e queremos continuar sendo uma plataforma aberta e neutra, para que o jornalista independente tenha um lugar onde trabalhar em seu próprio benefício, e não de uma marca”, afirma Llop.

Com a participação ativa, o jornalista pode chegar a ser um reconhecido como especialista em determinadas matérias, e uma referência em nichos que ajudam a construir a sua carreira na rede. Por editorias, localização geográfica ou tipo de produto (vídeo, texto, áudio, entrevista), o colaborador será catalogado de acordo com as tarefas que realiza no site.

Para aqueles profissionais que já trabalham em outros meios, a plataforma serve para conseguir fontes e construir a notícia antes de publicá-la, como se passasse por um filtro de aprovação e de legitimidade antes de ser impressa. Uma interação honesta entre quem escreve e quem lê e, como parte da filosofia, o código da página também é aberto, para que qualquer meio possa criar seu próprio Fixmedia. E dessa vez o plágio está autorizado: é só copiar e colar.

***

[Beatriz Borges é jornalista, em Madri]

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