Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / KLESTER CAVALCANTI

O lado humano da guerra síria

Por Paulo Lima em 08/01/2013 na edição 728

Em maio de 2012, o jornalista Klester Cavalcanti partiu de São Paulo para cobrir a guerra civil na Síria. Voou até Beirute, no Líbano, e de lá viajou de ônibus até a fronteira entre esses dois países. O plano era chegar à cidade de Homs, no lado sírio, um dos epicentros sangrentos do conflito, e lá acompanhar a ação do Exército Livre da Síria contra as forças do governo e o cotidiano da população civil vivendo as difíceis condições da guerra. Na prática, ele estava driblando as orientações do governo sírio, pois fora orientado a se apresentar diretamente ao Ministério da Informação, em Damasco. Antes da viagem, Klester havia obtido no Consulado da Síria, em São Paulo, visto de imprensa válido por uma semana. Havia, portanto, entrado no país legalmente. Em Homs, ele deveria encontrar dois contatos: um ativista de Direitos Humanos e dois membros do exército rebelde. O plano, porém, deu errado. Klester foi detido numa barreira militar e despachado para uma penitenciária naquela cidade, onde ficou encarcerado durante seis dias na companhia de 23 prisioneiros vítimas do regime de Bashar al-Assad. Começavam ali os piores dias de sua vida, retratados no livro Dias de inferno na Síria (Ed. Benvirá, 285 pp.).

[Veja também: Booktrailer do livro, com imagens que o repórter fez na Síria.]

Na Síria, Klester não perdeu um só minuto. Antes de ser preso em Homs, fez o máximo de registros que as circunstâncias permitiam, fotografando e tentando conversar com pessoas que sabiam falar inglês. Dessa forma, pôde ver pela primeira vez os impactos da guerra: prédios em chamas, carros destruídos, tanques prontos para o ataque. Na situação kafkiana em que se viu enredado, já que não lhe foi atribuída acusação formal de culpa, logo aprendeu a palavra com a qual passaria a ser identificado. Ele era um sahafi, um jornalista, sinônimo de problemas naquele contexto.

Detido inicialmente num prédio público, antes de ser encaminhado à penitenciária em Homs, Klester é escoltado por um jovem que lhe aponta uma arma. Descendo um corredor escuro, imagina que está seguindo para uma execução e tem certeza de que irá morrer. Essa angústia provocada pela falta de informações sobre seu destino o perseguirá durante toda sua temporada no inferno. O fim lhe parecerá próximo inúmeras vezes. Durante um interrogatório, um policial hostil o ameaça. Queimará seu olho com um cigarro se não assinar uma declaração escrita em árabe. No final, queima-lhe o rosto sinalizando que pretendia cumprir a ameaça.

Emoção e entusiasmo

Na prisão, vivendo enjaulado e compartilhando condições subumanas com seus companheiros de cela, sem noção de quando será libertado, ele escreve sobre o que presencia. A forte amizade que desenvolve com três presos, Ammar Ali, Adnan al-Saad e Walid Ali, ajudam-no a suportar a provação. Por falar inglês, Ammar será não somente o amigo, mas também a pessoa que franqueará o acesso de Klester às histórias de outros presos. Graças ao acesso a esses perfis, ele poderá mostrar uma visão pungente e humanizada da guerra. São pessoas de várias origens e com trajetórias distintas, porém niveladas pelo mesmo destino. Ao longo de sua jornada síria, nada parece escapar ao olhar treinado do repórter. Klester observa e descreve o algoz que lhe queimou o rosto: “Era tão miúdo que seus pés não tocavam o chão. Parecia uma criança numa cadeira de adulto.” Num posto de fronteira sírio, registra a figura onipresente do ditador: “Havia 11 fotos de Bashar al-Assad, em situações e estilos para todos os gostos: sorrindo, sério, de óculos escuros, de uniforme militar, acenando.” Consegue captar com voltagem poética a paisagem adulterada pela guerra: “Helicópteros rasgavam o céu, como besouros sedentos por sangue.”

Com 18 anos de profissão, Klester Cavalcanti é veterano de outras guerras – estas travadas em pleno solo brasileiro e presentes nas reportagens que escreveu retratando matadores de aluguel, mulheres vítimas da violência no campo e a vastidão rica e conflituosa da Amazônia, temas de seus livros anteriores Direto da Selva (2002), Viúvas da Terra (2004) e O nome da morte (2006).

Pouco mais de seis meses depois de ter deixado a Síria, Klester Cavalcanti, recifense de 43 anos que hoje vive em São Paulo, ainda revela emoção e entusiasmo ao falar de sua experiência, como mostra a entrevista a seguir, concedida por telefone.

Clareza e serenidade em situação de risco

Quando você saiu do Brasil, já tinha noção do quanto estava perigoso em Homs?

Klester Cavalcanti – Sim, já tinha feito muitas pesquisas. Como escrevi no livro, eu tinha muitos contatos em Homs. Então, sabia que estava muito complicado lá, sabia, sim.

Como jornalista, como você conseguiu lidar com a adrenalina anterior à viagem, com a perspectiva de cobrir uma guerra?

K.C. – Eu já tenho 18 anos de carreira. Já passei por situações inóspitas, mais complicadas e perigosas várias vezes. É claro que existia a questão de estar indo para uma guerra pela primeira vez, e uma guerra no Oriente Médio, na Síria, com todos aqueles elementos que tornavam a reportagem ainda mais perigosa e também instigante. Mas nunca permiti que esse tipo de situação me deixasse ou empolgado demais ou preocupado demais, a ponto de interferir no trabalho. Sempre consigo manter a cabeça no lugar e certa serenidade até para ter clareza para trabalhar. Sempre que você fica tenso demais ou empolgado demais, a coisa não evolui direito.

No livro, você menciona os contatos e o encontro que marcou com um ativista dos Direitos Humanos em Homs. Além disso, você fez algum tipo de preparação, conversou com outros jornalistas que já passaram pela experiência de guerra?

K.C. – Não, isso eu nunca faço para nenhum trabalho meu. A minha experiência mostra que isso não adianta. Eu sei que tem algumas agências de notícias estrangeiras que fazem curso para cobertura de guerra. Para mim, isso não adianta. Imaginemos que existisse algo como um mestrado em cobertura de guerra. Não adianta você ficar dois anos lendo livros, relatórios, vendo vídeos e conversando com pessoas que foram lá. Se você não tiver a cabeça no lugar, frieza e discernimento, tudo que passou estudando na teoria vai por água abaixo quando chegar lá e vir uma bomba explodindo ou uma pessoa passando com um corpo sendo arrastado pelo chão. Nessas situações de conflito, de risco e de perigo o que vai contar é o seu preparo pessoal, principalmente mental, para conseguir manter clareza e serenidade mesmo numa situação de risco, de complicação, de ver alguém morto na sua frente e não perder o tino do trabalho.

“Esperei o tiro na minha cabeça”

E as próprias intuições de repórter…

K.C. – Mais ainda de pessoa do que de repórter, porque todo mundo é ser humano, não existe isso de separar o repórter da pessoa. Está todo mundo lá, dentro de você: o repórter, a pessoa, o filho, o pai, o namorado, o marido. É tudo um só. Então, o que conta nessas situações é você conseguir manter o discernimento, saber o que está vendo. Já ouvi colegas contando que estavam fazendo uma cobertura qualquer e, de repente, uma pessoa cai morta no chão. O cara não conseguiu fazer mais nada.

Travou…

K.C. – Sim. Às vezes a pessoa pode entrar em pânico, ter um choque emocional, estar tão preocupada com o outro que está ferido que esquece o trabalho. Cada um reage de um jeito.

Não faltaram momentos de tensão em sua experiência, o livro descreve vários. Qual desses momentos foi o mais perigoso?

K.C. – O mais tenso foi aquele que narro no começo do livro. Eu até começo dizendo que pela primeira vez na vida eu tinha certeza de que iria morrer. E foi complicado porque não é que eu suspeitasse que ia morrer. Desde que fui preso, desde que entrei na Síria, sabia que alguma coisa podia dar errado. Desde o momento que fui preso na rua e fiquei cercado por militares gritando em árabe comigo e apontando metralhadoras para minha cabeça, achava que podia morrer. Mas aquela parte com a qual começo o livro, quando o rapaz entrou comigo no corredor, com o fuzil na minha cabeça, atrás de mim, a gente descendo uma escadaria escura. Quando olhei no fim e não tinha saída, ali eu tive certeza de que ia morrer. Foi o momento mais tenso. Cheguei a entregar a alma a Deus, para ele guardar minha família, meus amigos, e esperei o tiro na minha cabeça.

“Eu era um preso como eles”

Você praticamente cobriu a guerra de dentro da prisão. Isso o frustrou? Como imagina que teria sido se tivesse podido circular livremente? Teria sido diferente?

K.C. – Sim, porque teria visto coisas que não vi dentro da prisão. Até hoje sou o único jornalista brasileiro que foi para Homs desde que começou a guerra. Daqui a dois meses, vai fazer dois anos que ela começou. Fui para Homs, que é a cidade onde a guerra é mais intensa, com duas missões. Uma era mostrar os rebeldes em confronto com o exército da Síria. Eu já estava com tudo articulado. Iria passar dois dias acompanhando os caras em ação. Isso eu não consegui fazer porque fui preso assim que cheguei em Homs. Mas, até ser preso, já tinha visto a cidade destruída, já tinha feito fotos do prédio com uma explosão em cima, dos carros carbonizados e das ruas destruídas. Já tinha visto muita coisa. Essa era uma das faces da matéria que eu queria fazer. A outra face era o que eu chamo de o lado humano da guerra. Se você der uma olhada no Google, se sair lendo todas as matérias, sem exceção, que saíram em revistas, jornais e sites brasileiros, vai achar apenas números: “Morreram 100 pessoas”. Recentemente, houve um ataque pesado do exército da Síria em Homs. Aí você vai ver as matérias no Brasil: “Morreram 30 pessoas”. Tem lá uma declaração do governo da Síria, uma declaração do Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma declaração da ONU, e acabou. Ninguém fala das pessoas, ninguém fala da cidade, como ela é. Ninguém sabe nada. E eu queria ver isso. Homs é uma cidade de um milhão e oitocentos mil habitantes. É do tamanho de Curitiba. Homs tem cinema, teatro, estádio de futebol, shoppings. Tem tudo. É considerada uma cidade modelo no Oriente Médio, porque foi muito bem organizada, muito bem estruturada. Isso ninguém fala, ninguém diz: “Como é que as pessoas estão vivendo em Homs?” Não é todo mundo que foi embora. Tem muita gente vivendo lá até hoje. Como é que as pessoas comem? Como é que as pessoas andam nas ruas? Como é que as pessoas se divertem? Pessoas se divertem. Na prisão, eles faziam baralho com embalagens de cigarro e chá. Será que isso não é uma diversão? As pessoas se divertem, as pessoas choram, as pessoas amam. O que me motiva nessas situações é o ser humano. Por incrível que pareça, ter sido preso foi melhor ainda para mostrar isso, esse lado humano da guerra. Se eu tivesse ficado solto, com a cidade em guerra do jeito que está, com certeza ninguém iria receber um jornalista estrangeiro para ficar quatro, cinco, seis horas com esse cara conversando dentro de casa. Se o exército pega um jornalista estrangeiro na casa de alguém conversando, o exército pega o jornalista e as pessoas, porque consideram inimigos, entendeu? Na prisão não, na prisão eu tinha o dia inteiro, eu e mais de 20 homens lá dentro, cada um com uma história, cada um com um drama, um sonho, uma angústia, e graças a Deus tinha o Ammar, que era o cara que falava inglês, que servia de intérprete para mim. Ammar me contou a história dele e depois eu saía conversando com outros presos usando o Ammar como tradutor. Para ter as histórias que coletei na prisão, ter sido preso foi melhor porque, se eu tivesse ficado solto, tenho certeza de que jamais iria conseguir histórias tão ricas e tão diversas como as que consegui. Todo mundo gosta de falar de si, da sua vida, e na prisão os presos não se interessam uns pelos outros porque para eles são todos iguais. Ninguém fica preocupado porque o outro foi preso, porque está ali, se tem filho. Ninguém está preocupado com isso. E eu estava preocupado com a vida deles, com a história deles, e eles se sentiam realmente interessados em conversar comigo.

E valorizados também…

K.C. – Exatamente. E como eu estava preso, como eu era um deles ali, não tinha outro obstáculo que acontece com os jornalistas, que é o fato de a fonte se achar inferior a você. Se você for numa comunidade muito pobre entrevistar algumas pessoas, muitas vezes as pessoas travam porque olham você como se você fosse superior a elas, e a ideia de igualdade é fundamental para a relação entre jornalista e fonte, para que a conversa flua naturalmente, sem barreiras. E na prisão eu era um deles, estava preso como eles, eu era companheiro de cela, eu comia no chão com eles, eu dormia no chão como muitos deles, passava aquele tormento na prisão com eles. Eu não era melhor que ninguém.

“Passava o dia inteiro escrevendo minhas loucuras”

Na Síria já morreram alguns jornalistas, inclusive em Homs. Até onde vai o limite por uma boa matéria?

K.C. – O limite quem impõe é o próprio repórter. Quem sabe se está disposto a colocar a vida em risco não é o editor, não é o dono da revista. É o repórter. Eu fui para a Síria sabendo que podia acontecer de eu morrer lá. Claro que eu tinha noção disso. Não sou louco. Estava indo cobrir uma guerra, numa cidade em que nenhum brasileiro tinha ido até agora fazer matéria. Eu sabia que já tinham ocorrido aquelas mortes da Marie Colvin (jornalista americana) e do Rémi Ochlik (fotógrafo francês). Eu sabia que poderia acontecer comigo, mas eu estava disposto a correr o risco para fazer esse trabalho.

Em algum momento você chegou a se arrepender de ter driblado o roteiro estabelecido pelo governo sírio?

K.C. – Não, nunca me arrependi, porque se eu tivesse feito o que eles me recomendaram, não teria nunca ido para Homs. Se eu tivesse ido ao ministério, eles iriam fazer o que já fizeram com outros jornalistas, que sei que aceitaram isso. Eles iriam colocar um grupo deles para me acompanhar, e eu só iria aos lugares em que eles quisessem que eu fosse. Eu iria virar assessor de imprensa, iria mostrar o que o governo quisesse mostrar. Se eu tivesse feito o que eles queriam que eu fizesse, nunca teria ouvido histórias como a do Ammar, como a do Adnan, como a do Ali. Nunca teria ouvido e visto o que eu vi, como a história do comerciante de armas que tinha uma cela só para ele. Essas coisas só vê quem está lá.

Comparando os livros que você escreveu, em que nível você situa essa experiência síria? Foi a mais desafiadora de todas?

K.C. – Não dá para comparar. É tudo muito diferente. O primeiro livro, Direto da selva, é resultado de um período que morei na Amazônia durante dois anos como correspondente da revista Veja. Passei dois anos vivendo lá, fazendo matérias. Eu morava em Belém, mas fazia matéria em toda a região amazônica. Várias vezes fui para Roraima, Acre, Rondônia, Mato Grosso e Amapá. Rodei todo o interior do Pará. Esse meu primeiro livro é resultado desse trabalho. É uma coisa feita com muito mais tempo, digamos assim, de apuração e tudo. O segundo e terceiro livros são resultado de muito tempo de pesquisa. No Viúvas da terra, fiquei até cinco anos pesquisando, viajando bastante. Entrevistei várias viúvas, policiais, testemunhas de crimes, pistoleiros, mandantes. Em O nome da morte, foram sete anos também de pesquisas. Assim como no Viúvas, consegui documentos, como processos e inquéritos policiais. Passei sete anos entrevistando um pistoleiro, até que ele concordou em se encontrar comigo pessoalmente. Nesse da Síria, não. Fui e não tinha nenhuma pretensão de fazer um livro sobre a viagem. Fui para fazer uma matéria. Um detalhe muito importante: fui para a Síria com um visto de imprensa. Entrei no país legalmente autorizado para fazer jornalismo lá. Eles me deram só uma semana de visto. Uma semana não é um tempo que você leva para fazer nenhum livro. Não consegue nada para o livro. Na minha cabeça sempre foi assim. Tanto é que meu livro não é um livro sobre a Síria, não é um livro sobre a guerra da Síria. É um livro sobre o que vivi e sobre as pessoas que conheci. E mais um detalhe importante: as histórias que coloquei no livro, das pessoas que eu conheci, são histórias que consegui confirmar com outras fontes. Porque eu não podia ouvir uma história na prisão e acreditar naquilo. Tudo que ouvi na prisão eu apurei. Tem um texto da editora, que está no livro, sobre meu trabalho de apuração depois da prisão. Por exemplo, no caso do comerciante de armas, o oficial da prisão confirmou que, de fato, o cara era traficante de armas. Então, só coloquei no livro as várias histórias que ouvi na prisão porque consegui confirmar com outras fontes. Mas comparar os quatros livros não dá. Agora, se eu não tivesse a experiência que tenho hoje, se eu tivesse feito essa viagem, visto e sentido exatamente tudo que vi e senti na Síria há dez anos, com certeza esse livro talvez nem existisse. Não sei se eu teria tanto discernimento e clareza para, mesmo com toda aquela angústia e sofrimento, ter alguma serenidade para poder trabalhar dentro da prisão. Eu estava preso, mas estava trabalhando. Passava o dia inteiro escrevendo minhas loucuras, meus pensamentos e entrevistando meus companheiros de cela.

“As matérias que saem no Brasil são todas iguais”

A seu ver, até quando pode se estender essa guerra?

K.C. – É um ponto totalmente imprevisível. Eu falo quase diariamente com um soldado do exército rebelde lá em Homs. Ele é meu contato. Uma vez a cada dois dias, falo com ele.

De que forma?

K.C. – Pelo Facebook e pelo Skype. Há duas semanas, eles estavam otimistas achando que Bashar al-Assad podia entregar o governo ainda em janeiro. E aí, há quatro dias, Bashar fez um ataque pesadíssimo em Homs. Eles achavam que Bashar estava sem força, já estava prestes a desistir. Aí esse soldado estava me contando que os caras estavam muito desanimados porque acreditavam que poderiam estar perto do fim da guerra, que Bashar ia entregar o cargo, e aí Bashar deu provas de que ainda tem força.

O que você acha da cobertura que a mídia internacional tem feito desse conflito?

K.C. – Sei que tem muitos jornalistas estrangeiros na Síria hoje, e todos entraram no país ilegalmente. Esses caras fazem material bacana para os veículos deles. Eles puxam coisas exclusivas, essas histórias humanas de que eu falo. Mas para as agências internacionais de notícias, eles fazem esse material enlatado. É o que jornais, revistas e sites no Brasil compram. É vergonhoso termos uma imprensa forte no Brasil e não ter um jornalista brasileiro hoje na Síria. Nenhum.

Por que você acha que isso acontece?

K.C. – Eu não sei. Acho que é uma soma de fatores. Falta de interesse, falta de dinheiro, falta de coragem. Tem muita coisa envolvida. Não é só nem falta de dinheiro, nem falta de dinheiro, nem falta de coragem. Acho que é tudo junto, porque na Europa tem vários veículos muito menos poderosos do que alguns veículos brasileiros, e eles têm pessoas na Síria. Jornais da Espanha, da Itália, da Alemanha e revistas da França também estão mandando os caras para lá. O Brasil não tem ninguém, ninguém, e aí é lógico que quando um veículo está gastando dinheiro para colocar alguém dele que está correndo o risco de morrer na Síria e esse cara faz material bacana, exclusivo, esse veículo não vai querer vender para o mundo todo. Ele quer publicar só para ele. Ou, se alguém quiser comprar, vai pagar muito caro. Então, como ninguém quer pagar muito caro, compram essas matérias de agências que saem todas iguais. Você vai ver que as matérias que têm saído nos jornais, sites e revistas do Brasil são todas iguais.

“Eu voltaria sem pensar duas vezes”

Como você analisa o papel da diplomacia e da ONU? Acha que caberia uma intervenção da comunidade internacional na Síria?

K.C. – Se fizerem isso, vai ser a pior tragédia de todos os tempos, porque só a ideia de ter a intervenção já deixa o povo sírio muito indignado. Eles preferem morrer lutando, mas não querem que ninguém se meta.

É uma guerra deles…

K.C. – Exatamente. Isso foi o que eu vi lá. Todas as pessoas, de todas as áreas, concordam em relação a isso. Não aceitam a intervenção de ninguém. Eles querem resolver a questão por eles mesmos. O país é deles, a cultura é deles, o povo é deles, o problema é deles. Eles não aceitam nenhum tipo de intervenção. Nenhum.

É possível imaginar o que aguarda a Síria depois de uma possível queda de Bashar al-Assad?

K.C. – Se Bashar sair – eu acho que ele vai sair, cedo ou tarde –, antes de melhorar, vai piorar muito ainda. Acho que a situação vai ficar muito pior depois de talvez dois, três meses depois da queda porque Bashar é de uma etnia que é minoria na Síria, os alauitas. Eles são mais ou menos 10% do povo. E a oposição, os sunitas, são quase 90%. Então, eu tenho o receio muito grande de que, quando Bashar cair, os sunitas tomem o poder e massacrem os alauitas. Eu tenho receio de que haja um extermínio dos alauitas como vingança por tudo que Bashar fez ao povo. Dependendo de como seja a saída dele, a Síria pode ficar algum tempo sem governo, sem um comando. A chance de virar um pandemônio pior é muito grande.

Essa experiência síria chegou a mudar sua visão do jornalismo?

K.C. – Mudar minha visão do jornalismo, não, mas me relembrou o que eu já tinha visto antes, pois já faz oito anos que não faço matéria. Eu virei editor, executivo, e não faço matéria. Fui para a Síria porque eu quis. Não era trabalho meu ir. Quando eu ainda fazia matérias, via como em várias situações muitas vezes jornalistas se acomodam com o que parece ser mais fácil. O pessoal não tem muita disposição para suar. Quanto mais fácil chegar a notícia, melhor. Isso sempre me incomodou muito em relação ao jornalismo, porque você tem que ir para o lugar onde está a notícia, e não esperar que alguém venha trazer para você. Eu tenho muito orgulho de ter ido para Homs, ter entrado em Homs e ter visto o que eu vi. Até ser preso, já tinha feito muita coisa, já tinha feito vídeos, já tinha feito fotos, já tinha passado por situações muito interessantes por lá, tinha visto e vivido coisas que nenhum outro jornalista brasileiro viveu, porque até hoje sou o único que foi para Homs. Ao mesmo tempo, é também muito vergonhoso que a gente tenha uma imprensa gigante como tem no Brasil, muito forte, e ninguém foi para lá. Tem jornalista brasileiro que foi pra Damasco, mas ir para Damasco não é cobrir a guerra. Mesmo hoje em dia, com a situação ainda pior, ainda assim em Damasco as pessoas ainda vão a restaurantes. Antes de eu ir, teve gente que foi, mas ficou em Damasco, fazendo o que o governo queria, sem correr risco nenhum, sem ver nenhuma explosão, sem ver a guerra de verdade. O governo pegava uma van, colocava o jornalista dentro e levava para onde eles queriam que os caras fossem.

Se tivesse outra oportunidade, você voltaria a cobrir outra guerra? Voltaria à Síria?

K.C. – Sem pensar duas vezes. Eu iria, sem dúvida alguma.

***

[Paulo Lima é jornalista e editor da revista eletrônica Balaio de Notícias]

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