Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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Que revista, Senhor

Por Marcos Caldeira Mendonça em 05/03/2013 na edição 736

Entro para clubes que me aceitam como sócio, diferentemente de Groucho Marx, e solicito minha filiação na Associação dos Admiradores da Revista Senhor. Nunca folheei um exemplar da cuja, mas há tempos leio e ouço gente, de confiança merecedora, a derramar loas e boas sobre a tal. Não é que era danadinha mesmo, soliloquiei após ler os livros O Melhor da Senhor e Uma Senhora Revista, que contam a trajetória da publicação, com depoimentos de protagonistas e antologia de capas, textos e cartuns. Editados via Imprensa Oficial paulista, têm a assinatura de Ruy Castro e Maria Amélia Mello.

Ainda não tive a alegria de segurar uma Senhor, mas a esse respeito trago ótima notícia para Itabira, que darei no final deste texto, não sei se no último parágrafo ou no penúltimo – estou decidindo ainda. Inspirada em graúdas como Esquire e The New Yorker, durou 59 exemplares, de 1959 a 1964. Especialistas em visual dizem que o da Senhor era, para usar palavra ao gosto da época, supimpa. Esmero gráfico em elevada potência, mas prefiro ir pelo caminho do texto, que é, suponho, o mais relevante em um órgão impresso.

Citarei 25 dos muitos nomes que escreveram na Senhor e o leitor me diga se há como não amá-la: Darcy Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Paulo Mendes Campos, Lúcio Cardoso, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Millôr Fernandes, Antônio Maria, Ivan Lessa, Antonio Callado, Otto Maria Carpeaux, Armando Nogueira, Sérgio Porto, Rubem Braga, José Guilherme Merquior, Lúcio Rangel, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, Graciliano Ramos, Glauber Rocha, Jorge Amado e os vivos José Ramos Tinhorão, Ferreira Gullar e Zuenir Ventura.

Portanto, a quem tem idade para ter sido senhor leitor, mas não foi, convém não contar a ninguém tal descuido, pois será um arranhão daqueles na biografia. Talvez valha a pena até tascar uma mentirinha, dizendo que foi assinante fiel ou que ficava ansioso para buscar os exemplares nas bancas.

Logo no primeiro número, Itabira. No texto “A ira do senhor”, sobre a modelo Ira Etz, escreve o autor, que não assinou a obra: “Na lista dos pecados capitais, a IRA é um deles e um padre lá de Itabira do Mato Dentro costumava dizer que no time dos pecados capitais a IRA era o capitão”. Que padre foi esse? Ou se trata do cometimento de um pecado pior que a ira: citar em vão, por mera gaiatice, o nome de nossa sacrossanta cidadezinha?

Vivas e banda

Um dos melhores textos de O Melhor da Senhor é assinado pelo austríaco Otto Maria Carpeaux, “Whodunit – os prazeres do crime”, em que analisa, com clareza de água intocada, a trama de romances policiais, revelando manhas, clichês, equívocos. Otto Maria Carpeaux é um dos benefícios que o Brasil teve com a Segunda Guerra Mundial. Para escapar da fúria nazista, aqui se radicou em 1939.

Em outro artigo, ele conta este diálogo que teve com um amigo ao sair de um apartamento no qual esteve um escritor: “Quem é aquele rapaz magro com a voz rouca?” Resposta: “É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem importância”. Referiam-se a Franz Kafka. Até parece a confusão de um despertar após tumultuados sonhos…

Mudando de Otto, para Lara Resende, a edição de novembro de 1961 traz um conto do mineiro de São João del Rei que tem por título “Gato gato gato”, daqueles de desmoralizar antologias que não o incluam. Quem não leu, convém largar já o que tiver fazendo…

Outra cidade do Mato Dentro citada é Conceição, em texto de Odylo Costa, filho, sobre preconceito contra negros. Em 1727, em visita pastoral de Antônio de Guadalupe, “os negros forros e mamelucos pisaram, talvez propositadamente, nas elegantes alcatifas das matronas conceicionenses”. Houve tiro, facada e chicotada, e o visitante proibiu, por escrito, a entrada de negros “por dentro da cerca da igreja, principalmente nas ocasiões de missas e festejos, para que não haja desarmonia e tumultos na casa de Deus”.

De Lily Wynton à senhora Murdock no conto “Glória à luz do dia”, de Doroty Parker, traduzido por Millôr Fernandes: “Sim, eu quando tinha a sua idade também costumava me casar. Oh, proteja seu amor como um tesouro, minha filha, defenda-o, viva-o. Ria e dance no amor de seu homem. Até você descobrir o que ele realmente é”.

Duas ferroadas deliciosas do colunista Ibrahim Sued na Senhor de novembro de 1960: “Paulista quando quer brilhar vem pro Rio” e “Ricardinho Fasanelo tentou ser playboy, mas seu dinheiro não deu”. Como entrar na sociedade é o título do texto, cujo conselho-chave para resolver tão aflitiva questão é simples: “Tenha muito dinheiro”.

O homem bebe para empatar com o mundo, sentenciou Paulo Mendes Campos em “Por que bebemos tanto assim”. Cinco são para ele as qualidades de um bar ideal: boa circulação de ar, bom dono, bons garçons, bons fregueses e boa bebida. “Todo frequentador de bar tem o direito eventual de embriagar-se inconvenientemente uma vez por outra. Quem vende bebida deve ser linchado quando exige de seus fregueses um comportamento de casa de chá.”

Em menino, Didi (Waldir Pereira) tomou no joelho um pontapé tão grave que um médico decidiu cortar-lhe uma perna, mas foi salvo pelo remédio Creusolina, nome de uma preta que prometeu curar o futuro craque do Botafogo e seleção com massagens de sebo de rim de carneiro. Está em “O Homem que passa”, de Armando Nogueira, que escreveu para a Senhor perfis de craques do futebol.

Nelson Rodrigues, ao ouvir do jornalista Francisco Barbosa que “Perdoa por me traíres” era obra comparável ao melhor de William Shakespeare e Sófocles, enfiou papel numa máquina de escrever e pressionou o interlocutor: “Você é capaz de escrever o que disse, e assinar?” Está em “Impressões de Nelson Rodrigues e Guarnieri”, de Paulo Francis.

Divertida constatação de Clarice Lispector sobre Brasília: “Foi construída sem lugar para ratos”. De Millôr Fernandes: “Assim quando me dizem que a mulher infiel sempre se arrepende, é-me também lógico perguntar: e a fiel?” De Antônio Maria, sobre a feijoada: “Faz-me todos os males e todos os bens”.

Mais e mais poderia ser escrito em favor dessa revista que sonhou com um Brasil culto, mas o tempo urge e ruge e é preciso dar a prometida boa notícia: Itabira poderá ter uma coleção completa. O TREM negocia com um sebo, cujo nome a prudência manda omitir, a compra dos 59 senhores exemplares. A se confirmar, será um evento cultural para a cidade: quero foguetório, vivas e banda Euterpe.

Ruy Castro escreveu que no Brasil nunca se fez outra revista igual à Senhor, donde concluo: a boa piauí até que tenta…

***

[Marcos Caldeira Mendonça é editor d’O TREM Itabirano)

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