Domingo, 19 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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IMPRENSA EM QUESTãO >

“O jornalista de hoje não vai poder ir às ruas”

Por Ariane Alves em 16/04/2013 na edição 742

Referência das mais fortes para qualquer jornalista que admire boas reportagens, o alagoano Audálio Dantas vê atualmente um espaço cada vez mais reduzido às matérias com maior qualidade e aprofundamento. “O jornalista é um ser que pergunta.” Esta é a máxima que deve ecoar em cada profissional que deseje contar boas histórias nas páginas de jornais e revistas, nas tela de TV ou em qualquer meio. Porém, a forma de perguntar vem mudando para estratégias que distanciam cada vez mais o jornalista dos outros seres humanos. “Quem é a fonte? O Google é a fonte?”, questiona Audálio. Fazer tudo por telefone e internet economiza tempo e dinheiro. “Mas ninguém pergunta cara a cara, ninguém vê o olho do outro.”

Aos 80 anos, Audálio é um pensador ativo e grande visionário da profissão, assim como José Hamilton Ribeiro, Alberto Dines, Ricardo Kotscho e muitos outros. Foi um dos que passaram pela maior referência brasileira de “jornalismo literário” (expressão que Audálio rejeita), a revista Realidade. O jornalista define, ainda, que o período do governo militar no Brasil foi um dos mais férteis para o jornalismo. “Os anos 60 foram anos de ouro. Os grandes jornais vinham de uma reformulação editorial e gráfica que tinha começado no final dos anos 50. E aí se tem como grande referência o Jornal do Brasil.” Empreendida por Alberto Dines, a reforma incluiu as reuniões de pauta e o Departamento de Pesquisa, vistos por Audálio como estratégias fundamentais.

Hoje, Audálio enxerga nos jornalistas uma “acomodação absurda” em decorrência do uso das tecnologias. Há reportagens que começam e terminam numa simples busca na Wikipédia, site reconhecidamente de caráter não confiável. Além disso, há um desvio ético entre alguns profissionais que incomoda bastante Audálio: a falta de compromisso com a verdade da informação. Relembra, então, uma frase de Antônio Bruega, sobrevivente da Guerra de Canudos que entrevistou em 1964 para O Cruzeiro: “A verdade eu falo; gosto da verdade e não piso nela, senão escorrego e caio.” Essa “obrigação de consciência” é, para Audálio, fundamental ao bom profissional de jornalismo.

A grande reportagem morreu?

A postura despretensiosa do repórter é outra característica que Audálio ressalta para que se construa uma boa matéria. A famosa pergunta “Doutor, o que é o dente?” feita por José Hamilton Ribeiro a um dentista quando realizava uma pauta sobre a saúde bucal do brasileiro é emblemática. Revela a técnica de descobrir e enriquecer o conteúdo reportado partindo de uma postura de aprendiz. “É a técnica de chegar pra fazer a matéria como quem não sabe nada. Ele sabe, mas finge que não sabe pra saber mais”, comenta Audálio.

Matérias que exigem longo tempo de dedicação e ampla pesquisa têm cada vez menos espaço nas redações, mas ainda existem. Em tempos de um imediatismo cibernético crescente, alguns repórteres insistem em contar uma boa história seguindo os moldes tradicionais. Exemplo disso é a reportagem Filho da Rua (jornal Zero Hora), de Letícia Duarte, vencedora dos prêmios Esso e Vladimir Herzog do ano passado e que contou com a análise de mais de 300 documentos, além de ter levado três anos para se concretizar. Audálio reconhece a importância desses casos que têm ficado mais raros frente ao mero “jornalismo de curiosidade” e, comparando Letícia a Eliane Brum, sentencia: “Esse é o trabalho do repórter que acredita ter algo importante pra dizer e insiste nisso.”

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Ariane Alves é estudante de Jornalismo, São Paulo, SP

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