Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > TERROR EM BOSTON

Perdidos no espaço

Por Maureen Dowd em 30/04/2013 na edição 744
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 26/4/2013, tradução de Terezinha Martino; intertítulos do OI

Quando James Gleick foi meu editor no New York Times, com frequência tinha o olhar perdido no espaço. Quando deixou o jornal, fundou uma das primeiras provedoras de internet. E tornou a teoria do caos tão famosa que inspirou a peça Arcadia, de Tom Stoppard.

Todos estão continuamente conectados a todos no Twitter, Facebook, Instagram e Reddit, bem como em e-mails e mensagens de texto. E sempre mais rápido, com o fluxo de informação colocando em risco o sentido das coisas. Gostei de um artigo dele para a revista New York sobre como os atentados na maratona de Boston inauguraram uma nova fase na nossa experiência do que David Foster Wallace chama de “ruído total”: “O tsunami em termos de fato, contexto e perspectiva.” Aqueles momentos de terror, escreveu Jim, “encontraram o ecossistema da informação num estado estranho e instável”. “Twitter em ascensão, TV a cabo no caos e vigilantes da internet interferindo no complexo programa de análise de vídeos do FBI.”

Jim mostrou exemplos embaraçosos de notícias precipitadas sobre a prisão, na CNN e na Fox News. E as emissoras repletas de bate-papos incessantes e vazios mostraram que “a notícia contínua em tempo real, pelas emissoras de rádio e TV, é um experimento falido”. Pedi a Jim para analisar essa questão durante um café. “A audiência da TV costuma ser isolada e passiva”, afirmou ele. “Todos estão tuitando e trocando mensagens de texto e às vezes espectadores sabem mais do que infelizes repórteres com microfone em punho na TV.”

Olhos e ouvidos por toda parte

“Na perseguição em Boston, jamais me ocorreu ligar a TV. A tela que eu precisava era a do meu iPhone. A internet é desordenada, pontilhista, ruidosa e erra com frequência. Mas se você tem uma necessidade visceral da notícia instantânea, a TV não consegue competir com ela.” “Os repórteres informando em tempo real na TV são um contrassenso: você não consegue coletar a notícia e apresentá-la ao mesmo tempo”, disse.

É preciso lembrar, entretanto, que a informação importante às vezes chega no dia seguinte, ou um mês depois, quando há tempo para digerir e interpretar. A melhor reportagem em Boston não estava no ciberespaço, mas nos dois grandes diários que cobriam o fato, The Boston Globe e The New York Times.

“A linha de combate está sendo traçada entre as multidões e os especialistas. As multidões são rápidas e podem ser inteligentes, mas às vezes estão horrivelmente erradas, como os vigilantes da internet no Reddit, que acharam que podiam trabalhar melhor do que o FBI no exame das fotos e expor os culpados. Mas essa participação coletiva também fez parte da coleta de notícias. De uma maneira muito real, tivemos olhos e ouvidos por toda parte.”

Uma nova metodologia pessoal

Perguntei a Jim o que pensava do episódio quando hackers sírios invadiram a conta da Associated Press no Twitter e reportaram falsamente duas explosões na Casa Branca, com o presidente ferido – embuste que levou a Down Jones à queda por três minutos. “Não existe confiança no espaço cibernético”, afirmou. “Não só existem milhões de vozes, mas milhões de máscaras. Há uma conta real no Twitter em nome de Dzhokhar Tsarnaev, mas instantaneamente surgiu uma falsa em nome dele também.”

“Não existe um algoritmo confiável para separar o joio do trigo num emaranhado de informações. Era costume ler o jornal da manhã a caminho do trabalho e o jornal vespertino na volta para casa. Hoje temos de inventar uma nova metodologia pessoal a cada dia. Se estamos esperando algo que torne as coisas mais estáveis e simples, isso nunca vai ocorrer.”

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Maureen Dowd é colunista do New York Times

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