Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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Educação, economia e política. Assuntos separados?

Por Rolf Kuntz em 09/10/2007 na edição 454

Talvez não seja preciso estudar para presidir a República, mas nenhuma economia moderna funciona direito sem trabalhadores educados. Isso não é novidade, mas a educação ainda não ganhou cobertura regular nas páginas de economia. Matérias sobre o assunto podem até render manchete, como a da Folha de S.Paulo na edição de 1º de outubro (‘Aluno acaba 2º grau, mas sabe como o da 8ª série’). Nas escolas paulistas, segundo a notícia, 43% dos alunos termina o curso médio, antigo colegial, com conhecimentos de escrita e leitura esperados para estudantes do oitavo ano do ensino fundamental, antiga quarta série do ginásio.

No mesmo dia, o Valor publicou, na página 7 do primeiro caderno, duas matérias sobre educação. No Nordeste, o baixo crescimento do emprego formal é associado por alguns analistas à escolaridade inferior à média nacional, de acordo com a primeira das duas histórias. A segunda, mais ampla, era um resumo de um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Falta de mão-de-obra qualificada – segundo 69% das 1.714 empresas consultadas – para os programas de aumento de eficiência.

Acompanhamento cuidadoso

Os setores com maiores problemas de mão-de-obra, de acordo com o levantamento, são os do álcool (76%), vestuário (75%), ‘outros equipamentos de transporte’ (71%), extrativos (71%), máquinas e equipamentos (70%) e veículos automotores (67%).

O treinamento na empresa resolve apenas parcialmente o problema, pois o processo é dificultado pela insuficiente educação fundamental, de acordo com os entrevistados. Este detalhe é particularmente importante, porque mostra com a máxima clareza a conexão entre as histórias contadas pela Folha e pelo Valor. O Estado de S.Paulo juntou e analisou todos esses dados num editorial da página 3.

Editoriais e artigos podem ter um papel informativo, articulando e pondo em perspectiva informações dispersas em páginas e em publicações diferentes. Isso tem ocorrido com freqüência. Mas esse trabalho poderia realizar-se muito bem, e com maior amplitude, nas seções de notícias e reportagens, se houvesse no dia-a-dia um acompanhamento mais cuidadoso do assunto.

Rotina empobrece trabalho

Nessa área, como em muitas outras, a cobertura dos jornais é prejudicada pela divisão burocrática de funções. Pauteiros, editores e repórteres de economia só se interessam ocasionalmente por problemas educacionais. Em contrapartida, o pessoal encarregado de cobrir a educação – em geral vinculado a editorias de ‘geral’ ou de reportagens locais – nem sempre parece perceber a importância econômica do assunto. O Valor é uma exceção facilmente compreensível.

Decidir se o material será publicado nas páginas de economia ou em quaisquer outras é um problema de organização de cada jornal. É a questão menos importante. Relevante, mesmo, é avaliar as implicações de cada história e explorá-las com maior eficiência. Mas para isso seria necessária maior articulação entre editorias e menor burocracia na divisão de tarefas.

Temas como orçamento, CPMF e programas de ensino são ao mesmo tempo econômicos, políticos e educacionais, mas a combinação de todos esses aspectos é raramente realizada de forma satisfatória. Em muitos casos, a mera troca de figurinhas entre repórteres de áreas diferentes poderia enriquecer o produto final.

Não há nisso nenhum mistério, mas a rotina acaba engessando o talento e empobrecendo o trabalho.

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Jornalista

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