Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Edwy Plenel aposta no jornalismo online

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 25/03/2008 na edição 478

A internet é o futuro da imprensa? A imprensa online deve ser paga? O jornalista Edwy Plenel, ex-diretor do jornal Le Monde, responde de forma afirmativa a essas duas indagações que se fazem os jornalistas no mundo inteiro.

Plenel começou a preparar sua volta ao jornalismo logo que deixou a imprensa escrita diária depois de uma brilhante carreira no jornal francês mais lido e mais respeitado. Depois de ver sua proposta para dirigir o jornal Libération recusada em 2006 como ‘não realista’ pelo acionista principal, Edouard de Rothschild, ele se entregou de corpo e alma à criação de um jornal online.

O grupo reunido por ele para formar uma redação de 25 jornalistas entre 25 e 55 anos, saídos de diversos órgãos da imprensa escrita, acaba de lançar Mediapart.fr, ‘um jornal online, independente e participativo’. Transformado em realidade, o novo jornal pôde ser lido gratuitamente por três dias, desde domingo, dia 16 de março. Mas a redação de Mediapart aposta na conquista de um leitor fiel, disposto a pagar por uma informação de qualidade: o jornal pretende ter em três anos 65 mil assinantes. O site foi inaugurado com 3.200 assinaturas e quer terminar o ano com 25 mil.

Sistema de assinatura

‘Sua independência o distingue no cenário dominante da informação na França: jornal de jornalistas, Mediapart é controlado por sua equipe fundadora, ela mesma composta essencialmente de jornalistas. Nenhuma dependência no seu capital, nem em relação a um grupo industrial, nem em relação a um partido político’, escreveu Edwy Plenel no editorial do dia do lançamento.

Os franceses não têm uma tradição de jornais na internet. Mediapart é apenas a quarta mídia francesa criada exclusivamente na internet. Os outros três jornais são: Backhich (lançado em maio de 2006, por assinatura), Rue89 (criado em maio de 2007, gratuito) e Arrêt sur images (um jornal que faz a crítica da mídia, lançado em janeiro de 2008, por assinatura). Na realidade, de todos esses apenas Rue 89 pretende ser um jornal diário de informação e análise, como Mediapart, que terá três edições diárias, às 9, às 13 e às 19 horas.

Apostando na nova relação que se criou com o leitor a partir da instantaneidade da internet, Mediapart pretende dar aos leitores a possibilidade de se expressarem livremente, lançar debates, levantar discussões e provocar reflexões.

Para pôr no ar um site que se lança empregando 26 jornalistas, que quer ser independente e não ter compromisso senão com o seu leitor, a redação decidiu financiar o projeto apenas pelo sistema de assinatura. Essa é a única forma de funcionar com total independência. As assinaturas custam 5 euros (estudantes e desempregados), 9 euros (tarifa normal) e 15 euros (assinatura de apoio).

‘Tudo se esquece’

A empresa foi fundada com um capital de 3 milhões de euros, oriundos dos fundadores e alguns investidores independentes, além de 504 mil euros de aporte da Sociedade dos Amigos de MediaPart.

Em seu artigo sobre o papel do jornalismo sob o novo governo, Plenel fez uma profissão de fé na responsabilidade do jornalista:

‘Diante do sarkozysmo, que não conhece limites, o jornalismo francês tem uma responsabilidade particular, para além de sensibilidades partidárias, políticas ou filosóficas. Se esses discursos do poder nos submergem, se a agenda que o poder impõe nos cega, se seu imaginário nos invade, os que nos lêem, nos olham e nos escutam ficarão literalmente perdidos, diante desse espetáculo onde tudo se esfumaça, tudo se esquece, tudo se vale.’

A primeira grande entrevista do site é uma longa conversa com o filósofo Jacques Bouveresse, professor do Collège de France, especialista de Wittgenstein e atento observador das questões que envolvem o jornalismo.

***

‘A imprensa deve resistir à submissão’

Trechos da entrevista de Jacques Bouveresse ao Mediapart:

Por que a imprensa tem pouca credibilidade hoje na França?

Jacques Bouveresse – As respostas a esse tipo de pergunta são, penso, conhecidas há muito tempo e aparecem claramente nas pesquisas publicadas. Os leitores criticam a mídia por não ser suficientemente independente em relação ao poder político e econômico, não ser suficientemente rigorosa na apuração da informação, não ser imparcial e objetiva no tratamento da informação e invadir exageradamente a vida privada dos indivíduos, ter um poder excessivo que não é limitado por contrapoderes suficientes, ter uma enorme dificuldade em aceitar a crítica e praticar uma autocrítica real e igualmente reconhecer claramente os abusos e as faltas que comete, inclusive quando essas faltas têm conseqüências destruidoras para a vida dos indivíduos que são vítimas dela. (…)

A imprensa teria passado, como foi o caso na Áustria no tempo de Karl Kraus que o senhor cita, de uma relação de conivência a uma relação de submissão ao poder?

J.B. – Kraus disse quase tudo que devia ser dito e com uma força que nunca mais se repetiu. Ele compreendeu que a imprensa, que ele via como uma auxiliar dedicada no sistema do mercado universal, era levada de maneira mais ou menos inelutável num processo de queda progressiva e de uniformização final ao mais baixo nível. Isso não me agrada nada, mas sou obrigado a constatar que o que se passa no momento dá razão a Kraus. A imprensa que se vende hoje bem e que não tem problemas econômicos sérios é a imprensa de celebridades (press people), isto é, aquela que vive principalmente da satisfação da curiosidade malsã do público por coisas que não lhe dizem respeito e que ele não tem necessidade de saber para resolver nada. O problema é que, como confirmam acontecimentos recentes, a imprensa considerada ‘séria’ ficará cada vez mais tentada a imitar esse exemplo. (…)

O novo presidente da República se comporta como uma verdadeira agência de comunicação, dominando totalmente a agenda. Qual é a responsabilidade da mídia?

J.B. – Kraus disse de uma forma que pode chocar, mesmo levando-se em conta o exagero satírico, que o estado natural da imprensa era a prostituição. Talvez fosse melhor dizer a ‘submissão’, o que já é bastante preocupante. Isso infelizmente foi confirmado há pouco de maneira evidente. Confesso que fiquei completamente abismado – ainda que poucas coisas possam me surpreender nesse campo – com a docilidade e benevolência com que a imprensa se entregou em sua maior parte, para não dizer em sua quase totalidade, aos desejos e exigências do novo presidente [Nicolas Sarkozy]. Antes da Primeira Guerra Mundial, um ministro austríaco que Kraus cita disse que era impossível na Áustria governar sem a imprensa. Já estava se tornando impossível em quase todo o mundo. Mas temos agora na França um presidente da República que decidiu governar não somente com toda a mídia, mas, de maneira mais ou menos literal, se deixar governar por ela. E isso somente foi possível com o apoio explícito dela. (…)

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Jornalista; http://bilhetesdeparis.blogspot.com/

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