Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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IMPRENSA EM QUESTãO > ANOREXIA & AMNÉSIA

Ela conseguiu ser capa de revista: quando morreu

Por Alberto Dines em 21/11/2006 na edição 408

A linda modelo Ana Carolina Reston está nas capas das revistas Veja, IstoÉ e Época. Antes, durante três dias, freqüentou as primeiras páginas dos jornais e as escaladas dos telejornais.

Estilistas e agências de modelos foram escolhidos pela mídia como culpados pela tragédia. E são mesmo culpados: impuseram um padrão de beleza perverso, antinatural e macabro, apenas para atender ao espírito novidadeiro e fútil da indústria da moda. Mas quem multiplicou este estúpido paradigma em sonho coletivo? Quem transforma essas adolescentes em zumbis fixadas apenas em alcançar os 15 minutos de fama, cachês fabulosos e filas de namorados?

Amélia Artes, a leitora da Folha, mora em São Paulo, não é militante política, não está a serviço de facções, não recebeu a tarefa de linchar um jornalista. Estava exercendo o seu dever de sofrer. Tocada pela tragédia, percebeu que estava faltando aquele elo do círculo vicioso que converte a obsessão pela fama num ideal de vida – a mídia.

A anorexia de Ana Carolina mostrou a amnésia da nossa mídia. Não foram os jornais e revistas que inventaram a balela do glamour do mundo fashion. Mas quem martela continuamente esta balela nas capas, reportagens, colunas sociais, empresariais, telejornais e telenovelas é a mídia. Na ânsia de faturar anúncios das coleções da próxima estação e abiscoitar algumas assinaturas no segmento feminino, jornais responsáveis ultimamente aderiram de forma pouco crítica e leviana à febre das fashion weeks, eventos puramente comerciais disfarçados em fatos jornalísticos.

Pagam-se altos cachês às celebridades para se deixarem fotografar nestes eventos, mas o que se oferece àquelas raparigas tontas e magricelas é a promessa de sucesso. Desde que não comam, não tenham prazeres e vivam como robôs fingindo uma felicidade que jamais experimentaram e dificilmente experimentarão.

Estilistas em geral estão se lixando pelas preocupações morais, também as agências de manequins, mas a imprensa noticiosa não tem o direito de esquecer o ‘contrato social’ com seus leitores. Revistas especializadas em Moda & Beleza têm compromissos diferenciados, operam em faixa própria, meio caminho entre o jornalismo e a promoção comercial. Mas instituições jornalísticas comprometidas com a missão de proteger a sociedade por meio da informação correta não podem adotar ares de doidivanas.

O sonho de Ana Carolina Reston era ser cover-girl, garota da capa. Conseguiu: três na mesma semana! A mídia, desta vez, até que foi generosa. Mas esqueceu sua parte nesta forma charmosa de suicídio.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/11/2006 wagner lemos lemos

    A MIDIA SE RENDEU A PARADIGMAS DO MUNDO DA ‘MODA’? FOI A MODA E A SOCIEDADE QUE SE RENDERAM AOS PARADIGMAS IMPOSTOS PELA MIDIA. CORPOPS ESCULTURAIS E MAGERRIMOS SAO EXIBIDOS EM NOVELAS, COMERCIAIS DE TV, REVISTAS E JORNAIS E ISSO INCENTIVA A SOCIEDADE DE QUE ESSE E O PADRAO DE BELEZA. NAO DEVEMOS MISTURAR A BOA FORMA COM MAGREZA. ONDE FICA A RESPONSABILIDADE ETICA DO PROFISSIONAL NAO APENAS DA MIDIA, MAS DAS AGENCIAS DE MODA? CABE A MIDIA BOICOTAR MODELOS ABAIXO DA MAGREZA PERMITIDA, A DIVULGACAO DESSE MODELO DITADOR. A ESPANHA JA DEU A IDEIA, BASTA NAO APENAS A MODA SEGUI-LA, MAS A MIDIA TAMBEM, POIS SE NAO HA QUEM DIVULGUE, NAO HAVERA QUEM VEJA, LEIA OU SIGA ESSE PARADIGMA. A MIDIA NAO PODE CAIR NO CONTO DO VIGARIO, JA QUE ELA TEM UM PAPEL DISTINTO DA INDUSTRIA DE MODAS.

  2. Comentou em 22/11/2006 Bruno Nascimento

    Da Anorexia ao Espetaculo – http://www.comenntador.blogspot.com

    Como as idéias são superficiais e como a mídia se alimenta de factoides com o objetivo de discutir coisa séria. Geralmente, inspirada nas tragédias das elites que morre de fome com comida na mesa. Estampada nos jornais da semana passada, a anorexia, voltou a ser assunto de destaque depois da morte da modelo Ana Carolina Reston de 21 anos. A doença é séria, mas é explorada na mídia como forma de espetáculo. Tem que morrer alguém, para se tratar seriamente o assunto. Tem que aparecer uma pessoa com bulimia no Big Bother Brasil, para que a imprensa discuta a doença. A modelo morreu por infecção generalizada decorrente de complicações renais, provocadas pelo baixo peso. Com 1,74 metros, Ana Carolina pesava 40 quilos. O assunto é sério e tem que ser discutido. Mas não me comovo com a onda de espetáculo criado pela mídia. Tudo é bem feito e planejado para causar emoção: Fotos da modelo em sua plenitude, o close do rosto da mãe chorando e os jornais estampam a noticia como o mal do século. O que mostra somente que, dentro do sistema capitalista, apenas os barões da beleza, da modernidade e do sexo, tem vez.
    O Brasil se voltou para a notícia de uma modelo que morreu de desnutrição, o que demonstra que a doença do rico parece ser mais chique de se noticiar do que a doença do pobre, que por não ser chique… (continua)

  3. Comentou em 22/11/2006 Teresa Silva

    Quando publicam histórias de sucesso de super modelos elas contam que sofreram com dietas, saudades de casa nas viagens e trabalhos sem pagamento antes de alcançar o sucesso. Isso faz com que outras garotas pensem que tem que suportar o mesmo ou pior para ter a mesma fama da tal modelo. Além da anorexia, a morte dessa mulher mostrou que esse mundo tem muito pouco de glamouroso: agências vigaristas, penúria nas viagens, salários irrisórios.

  4. Comentou em 21/11/2006 Marcio Batista Martins

    Estão deletando agora quem comenta aqui?

    Amélia Artes, a leitora da Folha, mora em São Paulo, não é militante política, não está a serviço de facções, não recebeu a tarefa de linchar um jornalista.

    Mania de perseguição acabou por contaminar o espaço de comentários. Aposto que esse também vai ser ‘censurado’

  5. Comentou em 21/11/2006 Ruy Acquaviva

    É engraçado ler o que a imprensa publica hoje sobre a moda e comparar com o que foi poblicado durante a última ‘São Paulo Fashion Week’… As palavras hipocrisia, oportunismo e leviandade tornam-se insuficientemente enfáticas para expressar a situação.

  6. Comentou em 21/11/2006 Mariana -

    Faz uma semana que se fala na morte da modelo. Foi capa de três revistas ‘de notícias’.
    Nesse tempo, quantos crianças miseráveis morreram, ou tiveram seu desenvolvimento irreversivelmente prejudicado pela fome? Qual é o percentual de mortes por anorexia entre as jovens?
    Sim claro que o fato é notícia, mas é principalmente, mais uma vez, notícia que vende.

  7. Comentou em 21/11/2006 Mariana -

    Faz uma semana que se fala na morte da modelo. Foi capa de três revistas ‘de notícias’.
    Nesse tempo, quantos crianças miseráveis morreram, ou tiveram seu desenvolvimento irreversivelmente prejudicado pela fome? Qual é o percentual de mortes por anorexia entre as jovens?
    Sim claro que o fato é notícia, mas é principalmente, mais uma vez, notícia que vende.

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