Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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IMPRENSA EM QUESTãO > ANOREXIA & AMNÉSIA

Ela conseguiu ser capa
de revista: quando morreu

Por Alberto Dines em 20/11/2006 na edição 407

Toda a mídia tem falado da morte da modelo por anorexia. Tirando a lamentável perda de alguém tão jovem, vejo muita hipocrisia na cobertura. Até que ponto a imprensa não ajuda na produção dessas pessoas? Vou explicar: às vezes recebo junto com o meu jornal, um encarte de moda. No último, alguns meses atrás, as modelos eram tão magras que mais pareciam estar na sala de espera de uma clínica para atendimento de anorexia. Vocês valorizam esses “modelos de beleza”, “vendem” estes produtos e depois se dizem chocados !Por que não boicotar este tipo de exploração da magreza humana? Amélia Artes, leitora, para o Ombusdman Marcelo Beraba, Folha de S.Paulo, 19/11, pág. A-6


A linda modelo Ana Carolina Reston está nas capas das revistas Veja, IstoÉ e Época. Antes, durante três dias, freqüentou as primeiras páginas dos jornais e as escaladas dos telejornais.


Estilistas e agências de modelos foram escolhidos pela mídia como culpados pela tragédia. E são mesmo culpados: impuseram um padrão de beleza perverso, antinatural e macabro, apenas para atender ao espírito novidadeiro e fútil da indústria da moda. Mas quem multiplicou este estúpido paradigma em sonho coletivo? Quem transforma essas adolescentes em zumbis fixadas apenas em alcançar os 15 minutos de fama, cachês fabulosos e filas de namorados?


Amélia Artes, a leitora da Folha, mora em São Paulo, não é militante política, não está a serviço de facções, não recebeu a tarefa de linchar um jornalista. Estava exercendo o seu dever de sofrer. Tocada pela tragédia, percebeu que estava faltando aquele elo do círculo vicioso que converte a obsessão pela fama num ideal de vida – a mídia.


A anorexia de Ana Carolina mostrou a amnésia da nossa mídia. Não foram os jornais e revistas que inventaram a balela do glamour do mundo fashion. Mas quem martela continuamente esta balela nas capas, reportagens, colunas sociais, empresariais, telejornais e telenovelas é a mídia. Na ânsia de faturar anúncios das coleções da próxima estação e abiscoitar algumas assinaturas no segmento feminino, jornais responsáveis ultimamente aderiram de forma pouco crítica e leviana à febre das fashion weeks, eventos puramente comerciais disfarçados em fatos jornalísticos.


Pagam-se altos cachês às celebridades para se deixarem fotografar nestes eventos, mas o que se oferece àquelas raparigas tontas e magricelas é a promessa de sucesso. Desde que não comam, não tenham prazeres e vivam como robôs fingindo uma felicidade que jamais experimentaram  e dificilmente experimentarão.


Estilistas em geral estão se lixando pelas preocupações morais, também as agências de manequins, mas a imprensa noticiosa não tem o direito de esquecer o “contrato social” com seus leitores. Revistas especializadas em Moda & Beleza têm compromissos diferenciados, operam em faixa própria, meio caminho entre o jornalismo e a promoção comercial. Mas instituições jornalísticas comprometidas com a missão de proteger a sociedade por meio da informação correta não podem adotar ares de doidivanas.


O sonho de Ana Carolina Reston era ser cover-girl, garota da capa. Conseguiu: três na mesma semana! A mídia, desta vez, até que foi generosa. Mas esqueceu sua parte nesta forma charmosa de suicídio.

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Todos os comentários

  1. Comentou em 25/08/2007 Leonardo Corrêa

    Olá! Me formei em jornalismo e gostaria de saber o que é preciso fazer para exercer legalmente a atividade de repórter e assessoria de imprensa? Basta o registro profissional no MTB??? Já estou com o diploma em mãos. Moro no Rio de Janeiro

    Obrigado,
    Leonardo

  2. Comentou em 21/11/2006 nelson perez de oliveira junior

    Há muito a promiscuidade entre a mídia, o marketing e a propaganda de produtos de duvidosa qualidade e verdadeira eficácia passa impunemente diante de nossos olhos entre telejornais, novelas ou entre os artigos de nossos respeitados e ‘respeitosos’ empregados da mídia. Linchar para mim é bater em cachorro morto ou investir encoberto por uma turba ou em meio a uma confusão total contra alguém ou algo indefeso. Neste ponto, Alberto Dines investiu ou linchou um cachorro morto, atacou apenas um lado da verdade, ao atribuir às agências de modelos a culpa solitária para o auto flagelo que a ditadura da beleza impõe a todas as mulheres do planeta. Os meios de comunicação de massa, cinema, jornais, revistas e novelas , todos os dias divulgam e incensam as mulheres com as últimas da moda, como remédios, cirurgias, produtos cosméticos e regimes milagrosos. Mas, uma crônica, um texto ou um ensaio, talvez do Dines, que em um jornal esteja ao lado de uma foto anorexa, seja
    somente um cúmplice involuntário. Quando A ANOREXIA , ou A FALTA DE APETITE DE CRITICAR A IMPRENSA SE INSTALA, perde-se o senso do todo e fica mais fácil jogar para a galera e CHUTAR CACHORRO MORTO. BOM APETITE!!

  3. Comentou em 20/11/2006 José da Silva

    Ninguém é inocente.
    Pais ‘vendem’ seus filhos para que possam ser explorados pelas revistas e tvs e assim obterem seus 15 minutos de fama.
    Ter é melhor do que ser.

  4. Comentou em 20/11/2006 Eduardo Guimarães

    Sr. Dines, lamento muito que o sr. persista no ataque. Sua insinuação foi sutil demais, talvez, e não chamou atenção. Mas eu captei logo. ‘(…) Amélia Artes, a leitora da Folha, mora em São Paulo, não é militante política, não está a serviço de facções, não recebeu a tarefa de linchar um jornalista. Estava exercendo o seu dever de sofrer. (…)’. Que pena que o sr. insista nisso, sr. Dines. É tolice. Ninguém acredita nessa história de que as pessoas que o têm criticado sejam todos militantes políticos a serviços de facções e que receberam a tarefa de linchar um jornalista. Esse tipo de conduta só serve para acirrar os ânimos. Até o PSDB e o PT estão se entendendo, mas a imprensa parece não aceitar que se coloque fim na campanha eleitoral. É doloroso, sr. Dines. O sr. não dá trégua. Será medo de debater com serenidade? Para quem não tem argumentos, debater serenamente é um perigo. Melhor provocar briga para não ter que debater.

  5. Comentou em 20/11/2006 Filipe Faleiro Machado Faleiro Machado

    Os veículos de comunicação, os de grande porte, são responsáveis pela situação de cegueira coletiva.
    O contrato social, citado pelo autor, acho que nunca existiu. O que importa neste mundo individualista é o meu!
    Atores – que poderiam ser chamados de à toa – aparecem com ar de intelectuais em entrevistas e programas de auditório.
    Falam sobre terminar com as desigualdades, em manter a saúde. Mas assim que começam os comerciais, os mesmo, que falam em saúde, aparecem em propaganda de bebida.
    Na sociedade do ter, mais importa um corpo do que um cérebro.
    Abraço a todos que ainda pensam… Os outros não conseguem mais ler, só ver novela e sonhar com o estrelato num culto cotidiano às falsas imagens.

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