Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > CRÔNICA E REPORTAGEM

Em busca de um jornalismo para o século 21

Por Tomás Eloy Martínez em 09/02/2010 na edição 576



Como pôde a Argentina, que no início do século passado era uma força emergente, que produz alimentos e combustíveis, que há tantos anos enfrentou com êxito o analfabetismo, chegar aonde está hoje? Como é que os argentinos, sofisticados, lidos, bem-alimentados, globalizados avant-la-lettre, subordinam sua política atual a um dirigente que morreu há quase 30 anos, e continua tão forte que os principais atores políticos de hoje disputam ainda sua herança? Como é que se explica o episódio macabro de Evita Perón, morta mas não enterrada, e cujo corpo foi o principal troféu levado pelos comandantes do movimento militar que derrubou seu marido ditador?


Santa Evita, de Tomás Eloy Martinez, explica boa parte dessas coisas. E explica numa narrativa densa, fascinante, num livro que pede para continuar a ser lido madrugada adentro, para acompanhar sua trama.


Martinez morreu no último dia de janeiro deste ano e deixou um texto magnífico para jornalistas, tratando de um problema atualíssimo: como publicar na imprensa escrita um acontecimento que já apareceu na TV, na internet, na tela do celular, no rádio, e que além de antecipar a notícia ainda tem mecanismos como imagem e som. O texto foi enviado por Moisés Rabinovici, que a par do excelente jornal que dirige, o tradicional mas moderníssimo Diário do Comércio de São Paulo, continua pesquisando tudo o que é publicado sobre jornalismo. O texto – de palestra proferida na conferência da Sociedade Interamericana de Imprensa, em 1999 – é longo, mas ótimo; e o tempo que investimos nele não é gasto, nem perdido. Foi (bem) traduzido por José Meirelles Passos para o livro Profissão: Repórter. (Carlos Brickmann)


Nós, seres humanos, perdemos a vida buscando coisas que já encontramos. Todas as manhãs, em qualquer latitude, os editores de jornais chegam à redação perguntando-se como vão contar a história que seus leitores já viram e ouviram dezenas de vezes na televisão ou no rádio, nesse mesmo dia. Com que palavras narrar, por exemplo, o desespero de uma mãe que todos viram chorar ao vivo, diante das câmeras? Como seduzir, usando uma arma tão insuficiente como a linguagem, pessoas que experimentaram com a vista e com o ouvido todas as complexidades de um fato real?


Esse duelo entre a inteligência e os sentidos tem sido resolvido há vários séculos pelas novelas (romances), que ainda estão vendendo milhões de exemplares apesar de alguns teóricos terem decretado, há duas ou três décadas, que a novela (o romance) tinha morrido para sempre. O jornalismo também resolveu esse problema através da narração, mas aos editores custa aceitar que essa seja a resposta para o que estão buscando há muito tempo.


No New York Times de domingo, dia 28 de setembro de 1997, quatro dos seis artigos da primeira página compartilhavam um traço chamativo: quando davam uma notícia, os quatro a contavam através da experiência de um indivíduo em particular, um personagem paradigmático que refletia, por si só, todas as facetas dessa notícia. O que aqueles artigos buscavam era que o leitor identificasse um destino alheio com o seu próprio destino. Que o leitor dissesse: isso pode acontecer também comigo. Quando lemos que houve cem mil vítimas num maremoto em Bangladesh, o dado nos assombra mas não nos comove. Se, em vez disso, lêssemos a tragédia de uma mulher que ficou só no mundo depois do maremoto, e seguíssemos passo a passo a história de suas perdas, saberíamos tudo o que é preciso saber sobre esse maremoto e tudo o que há que saber sobre o azar e sobre as desgraças involuntárias e repentinas. Hegel primeiro, e Borges depois, escreveram que a sorte de um homem resume, em certos momentos essenciais, a sorte de todos os homens. Essa é a grande lição que estão aprendendo os jornais neste fim de século.


Voltemos agora à essa primeira página do New York Times, do domingo, 28 de setembro de 1997. Um dos artigos a que me referi era sobre a situação do Congo depois da queda e da morte de Mobutu. Começava desta maneira: ‘Quando Frank Kumbu se levanta a cada manhã e observa o mundo desde o modesto degrau de cimento que existe à entrada de sua casa, as imagens dos meninos brincando nas ruas cheias de lodo, do trânsito com suas nuvens de fumaça, e o ruidoso desfile de soldados, mendigos e vagabundos fazem com que ele se lembre como as coisas foram durante, mais ou menos, os últimos vinte anos’.


O outro artigo, sobre chamadas telefônicas grátis na Europa, vinha de Viareggio, na Itália, e estas eram suas primeiras linhas: ‘Filippo Simonelli levanta o fone, pressiona algumas teclas e uma voz grita a seu ouvido: `Pizza fresquinha? Restaurante Buon Amico. Via dei Campi 24´. Não, não se trata de uma chamada a uma pizzaria. É parte de uma curiosa experiência oferecida a certos europeus – chamadas telefônicas grátis em troca de que aceitem ouvir propagandas comerciais’.


Um terceiro, sobre as tensões raciais nos Estados Unidos, tinha sua origem em Durham, Carolina do Norte, e este era o seu começo: ‘Para John Hope Franklin o problema era enlouquecedor: as orquídeas que estava cultivando há 37 anos na janela de seu apartamento no Brooklyn morriam ou se negavam a florescer. Sua solução ao problema foi típica de sua aproximação ao estudo sobre as relações raciais na América, à que ele havia dedicado toda a sua vida: leu tudo o que podia sobre o tema’.


Um punhado de histórias


Quatro dos seis artigos que o New York Times publicou na sua primeira página nesse domingo começavam – como disse – com a história de um indivíduo; o quinto artigo narrava a história de uma família; o sexto dava conta de certos acordos sobre impostos entre os líderes republicanos do Congresso dos Estados Unidos. Se me detenho nessa característica do jornalismo é porque não se trata de algo fora do comum. Quase todos os dias, os melhores jornais do mundo estão se liberando do velho espartilho que obriga a dar uma notícia obedecendo ao mandato de responder nas primeiras linhas as seis perguntas clássicas ou – em inglês – aos cinco W: o que, quem, onde, quando, como e por que.


Esse velho mandato estava associado a um respeito sacramental pela pirâmide invertida, que foi imposta pelas agências informativas há um século, quando os jornais eram compostos com chumbo e antimônio e havia que cortar a informação em qualquer parágrafo para dar lugar à publicidade de última hora. Ainda que em todas as velhas regras haja uma certa sabedoria, não há nada melhor que a liberdade com que agora podemos desobedecê-las. A única ditadura técnica das últimas décadas é a que impõem os diagramadores, e estes, quando são bons jornalistas, entendem muito bem que uma história contada com inteligência tem direito a ocupar todo o espaço que necessita, por maior que seja: nem mais, mas tampouco menos.


De todas as vocações do homem, o jornalismo é aquela em que há menos lugar para as verdades absolutas. A chama sagrada do jornalismo é a dúvida, a verificação dos dados, a interrogação constante. Ali onde os documentos parecem instalar uma certeza, o jornalista instala sempre uma pergunta. Perguntar, indagar, conhecer, duvidar, confirmar cem vezes antes de informar: estes são os verbos capitais da profissão mais arriscada e mais apaixonante do mundo.


A grande resposta do jornalismo escrito contemporâneo ao desafio dos meios audiovisuais é descobrir, onde antes havia apenas um fato, o ser humano que está atrás desse fato, a pessoa de carne e osso afetada pelos ventos da realidade. A notícia deixou de ser objetiva para tornar-se individual. Melhor dizendo: as notícias mais bem contadas são aquelas que revelam, através da experiência de uma só pessoa, tudo o que é preciso saber. Isso não se pode fazer sempre, é claro. É preciso primeiro investigar qual é o personagem paradigmático que poderia refletir, como um prisma, as luzes cambiantes da realidade. Não se trata de narrar por narrar.


Alguns jovens jornalistas crêem, às vezes, que narrar é imaginar ou inventar, sem perceber que o jornalismo é um ofício extremamente sensível, onde a mais ligeira falsidade, o mais ligeiro desvio, pode fazer pedaços na confiança que se foi criando no leitor durante anos. Nem todos os repórteres sabem narrar, e o que é mais importante ainda, nem todas as notícias se prestam a ser narradas. Mas antes de rechaçar esse desafio, um jornalista de raça deve-se perguntar primeiro se é possível fazer isso e, em seguida, se é conveniente ou não fazê-lo.


Narrar a votação de uma lei no Senado a partir do que opina ou faz um senador pode resultar inútil, além de patético. Mas contar o acidente da princesa Diana através do que viu ou sentiu uma testemunha – supondo que existisse essa testemunha privilegiada – seria algo que só poderia ser bem feito com a linguagem, e não com o despojamento das imagens ou com os sobressaltos da voz.


Apesar disso, não há nada pior do que uma notícia em que o repórter finge ser um romancista e o faz mal. Os jornais do século 21 prevalecerão com igual ou maior força que agora se encontram esse difícil equilíbrio entre oferecer a seus leitores informações que respondam às seis perguntas básicas e incluam, além disso, todos os antecedentes e o contexto que essas informações precisam para serem entendidas sem problemas, mas também – e sobretudo – um punhado de histórias, seis, sete ou dez histórias na edição de cada dia, contadas por repórteres que também sejam narradores eficazes.


Compromisso vital


A maioria dos habitantes desta infinita aldeia em que se converteu o mundo vê primeiro as notícias pela televisão ou pela internet, ou a escuta pelo rádio, antes de lê-la nos jornais, se é que acaso as lê. Quando um jornal vende menos não é porque a televisão ou a internet o venceram, mas sim porque o modo como os jornais dão a notícia é menos atraente. E não tem por que ser assim. A imprensa escrita, que investe fortunas em estar atualizada com as aceleradas mudanças da cibernética e da técnica, presta muito menos atenção – me parece – às mais sutis e igualmente aceleradas mudanças das linguagens que o seu leitor prefere. Quase todos os jornalistas estão mais bem formados do que antes, mas têm – e seria preciso averiguar por que – menos paixão; conhecem melhor os teóricos da comunicação mas lêem muito menos os grandes novelistas de sua época.


Antes, os jornalistas de alma sonhavam em escrever um romance em sua vida, ainda que fosse apenas um; agora, os novelistas de alma sonham em escrever uma reportagem ou uma crônica tão inesquecíveis como um belo romance. O problema está em que os romancistas o fazem e os jornalistas ficam apenas na vontade. Seria preciso incitá-los, portanto, a que realizem essa frustração nas páginas de seus próprios jornais, contando as histórias da vida real com assombro e plena entrega do ser, com a obsessão pelo dado preciso e a paciência de investigadores que caracteriza os melhores novelistas.


Não estou preconizando que se escrevam novelas nos jornais. Nada disso, e menos ainda que se use a linguagem florida e adjetivada a que recorrem os jornalistas que se improvisam como novelistas da noite para o dia. Tampouco estou deslizando a idéia de que o mediador de uma notícia se converta no protagonista. Claro que não. Um jornalista que conhece o seu leitor jamais se exibe. Estabelece com ele, desde o princípio, o que eu chamaria de um pacto de fidelidades: fidelidade à própria consciência e fidelidade à verdade.


A avidez de conhecimento do leitor não se sacia com o escândalo, mas com a investigação honesta; ela não é aplacada com golpes de feito, mas com a narração de cada fato dentro de seu contexto e de seus antecedentes. Ao leitor não se distrai com fogos de artifício ou com denúncias estrepitosas que se desvanecem no dia seguinte, mas sim se respeita com a informação precisa. Cada vez que um jornalista atira lenha ao fogo fátuo do escândalo, está apagando com cinzas o fogo genuíno da informação. O jornalismo não é um circo para se exibir, mas um instrumento para pensar, para criar, para ajudar o homem em seu eterno combate por uma vida mais digna e menos injusta.


Um dos ensaístas norte-americanos mais agudos, Hayden White, estabeleceu que a única coisa que o homem realmente entende, a única coisa que ele de fato conserva em sua memória, são os relatos. White diz isso de uma forma muito eloquente: ‘Podemos não compreender plenamente os sistemas de pensamento de outra cultura, mas temos muito menos dificuldade para entender um relato que procede de outra cultura, por mais exótica que ela nos pareça’. Um relato, segundo White, sempre se pode traduzir ‘sem menoscabo essencial’, à diferença do que acontece com um poema lírico ou com um texto filosófico. ‘Narrar’ tem a mesma raiz que ‘conhecer’. Ambos os verbos têm sua remota origem numa palavra do sânscrito, ‘gnâ’, conhecimento.


O jornalismo nasceu para contar histórias, e parte desse impulso inicial que era a sua razão de ser e o seu fundamento se perdeu agora. Dar uma notícia e contar uma história não são sentenças tão contraditórias como poderia parecer à primeira vista. Pelo contrário: na maioria dos casos são dois movimentos de uma mesma sinfonia. Os primeiros grandes narradores foram também grandes jornalistas. Entendemos muito melhor como foi a peste que assolou Florença em 1347 através do Decameron de Boccaccio do que por todas as histórias que se escreveram depois, ainda que entre essas histórias haja algumas que admiro como A Distant Mirror, de Barbara Tuchman. E, ao mesmo tempo, não existe melhor informe sobre a educação na Inglaterra durante a primeira metade do século 19 que a magistral e caudalosa Nicholas Nickleby, de Charles Dickens.


A lição de Boccaccio e a de Dickens, como a de Daniel Defoe, Balzac e Proust, pretende algo muito simples: demonstrar que a realidade não nos passa diante dos olhos como uma natureza morta, se não como um relato, no qual há diálogos, enfermidades, amores, além de estatísticas e discursos.


Não é por acaso que, na América Latina, todos, absolutamente todos os grandes escritores alguma vez foram jornalistas: Borges, García Márquez, Fuentes, Onetti, Vargas Llosa, Asturias, Neruda, Paz, Cortázar, todos, ainda mesmo aqueles cujos nomes não menciono. Esse trânsito de uma profissão a outra foi possível porque, para os verdadeiros escritores, o jornalismo nunca é uma mera maneira de ganhar a vida e sim um recurso providencial para ganhar a vida. Em cada uma de suas crônicas, ainda naquelas que nasceram sob a pressão das horas do fechamento, os mestres da literatura latino-americana comprometeram o próprio ser tão a fundo como em seus livros decisivos. Sabiam que se traíssem a palavra até na mais anônima das publicações de imprensa, estariam traindo o melhor de si mesmos.


Um homem não pode dividir-se entre o poeta que busca a expressão justa das nove da manhã às doze da noite, e o repórter indolente que deixar cair as palavras sobre as mesas de redação como se fossem grãos de milho. O compromisso com a palavra é de tempo completo, a vida toda. Pode ser que um jornalista convencional não pense assim. Mas um jornalista de raça não tem outra saída que não a de pensar assim. O jornalista não é uma camisa que a gente veste na hora de ir para o trabalho. É algo que dorme conosco, que respira e ama, com nossas mesmas vísceras e nossos mesmos sentimentos.


Profissão nobre


As sementes do que hoje entendemos por novo jornalismo foram atiradas aqui, na América Latina, há exatamente um século. A partir das lições aprendidas no The Sun, o jornal que Charles Danah tinha em Nova York e que se propunha a apresentar, com a melhor linguagem possível, ‘uma fotografia diária das coisas do mundo’, mestres do idioma castelhano como José Martí, Manuel Gutiérrez Nájera e Rubén Darío se lançaram à tarefa de retratar a realidade. Darío escrevia no La Nación de Buenos Aires, Gutiérrez Nájera no El Nacional do México, Martí no La Nación e no La Opinión Nacional, de Caracas. Todos obedeciam, em maior ou menor grau, às consignas de Danah e as que, na mesma época, estabelecia Joseph Pulitzer: sabiam quando um gato nas escadas de qualquer palácio municipal era mais importante que uma crise nos Bálcãs, e usavam suas assombrosas penas pensando no leitor antes do que em qualquer outra pessoa.


Dessa maneira, pela primeira vez, fundiram à perfeição a força verbal da linguagem literária com a necessidade matemática de oferecer investigações agudas, colocadas a serviço de tudo o que os seus leitores queriam saber. Foi Martí o primeiro a se dar conta de que escrever bem e emocionar o público não era algo alheio à qualidade da informação mas, sim, pelo contrário, atributos consubstanciais à informação. Tal como Pulitzer pedia, Martí e Darío – mas sobretudo Martí – usaram todos os recursos narrativos para chamar a atenção e tornar mais viva a notícia. Não importava quão longa fosse a informação. Se o homem da rua estava interessado nela, a leria completamente.


Se há um século as leis do jornalismo estavam tão claras, por que ou como foram mudando? O que fez supor a muitos empresários inteligentes que, para enfrentar o avanço da televisão e da internet, era preciso dar notícia em forma de pílulas, porque as pessoas não tinham tempo para ler? Por que se mutilam notícias que segundo os chefes de redação, interessam apenas a uma minoria, esquecendo-se de que essas minorias são, com frequência, as melhores difusoras da qualidade de um jornal? Que um jornal inteiro esteja concebido em forma de pílulas informativas é não só aceitável como também admirável, porque põe em jogo, do princípio ao fim, um valor muito claro: é um jornal feito para leitores de passagem, para gente que não tem tempo de sequer ver televisão.


Mas o preconceito de que todos os leitores nunca têm tempo não me parece razoável. Os seres humanos nunca têm tempo, ou têm demasiado tempo. Sempre, todavia, têm tempo para inteirar-se do que lhes interessa. Quando alguém é testemunha casual de um acidente na rua, ou quando assiste a um espetáculo esportivo, poucas coisas essa pessoa lê com tanta avidez como o relato disso que ela viu, ouviu, sentiu. As palavras escritas nos jornais não são uma mera prestação de contas do que acontece na realidade. São muito mais. São a confirmação de que tudo quanto vimos realmente aconteceu, e aconteceu com um luxo de detalhes que nossos sentidos foram incapazes de abarcar.


A linguagem do jornalismo futuro não é uma simples questão de ofício ou um desafio estético. É, antes de tudo, uma solução ética. Segundo essa ética, o jornalista não é um agente passivo que observa a realidade e a comunica; não é uma mera polia de transmissão entre as fontes e o leitor mas, antes de tudo, uma voz através da qual se pode pensar a realidade, reconhecer as emoções e as tensões secretas da realidade, entender o porque e o para que e o como das coisas com o deslumbramento de quem as está vendo pela primeira vez.


Cada vez que as sociedades mudaram de pele ou cada vez que a linguagem das sociedades se modifica de maneira radical, os primeiros sintomas dessas mudanças aparecem no jornalismo. Quem ler atentamente a imprensa inglesa dos anos 60 reencontrará nela a essência das canções dos Beatles, assim como a imprensa californiana dessa época refletia a rebeldia e o heroísmo anárquico dos beatniks ou a avidez mística dos hippies. No grande jornalismo se pode sempre descobrir – e se deve descobrir, quando se trata de grande jornalismo – os modelos de realidade que se avizinham e que ainda não foram formulados de maneira consciente.


Mas o jornalismo, ao mesmo tempo – como o sabem muito bem todos os que estão aqui – não é um partido político nem um fiscal da República. Em certas épocas de crise, quando as instituições se corrompem ou se derrubam, os leitores costumam atribuir essas funções à imprensa só para não perder todas as bússolas. Ceder a qualquer tentação paternalista, porém, pode ser fatal. O jornalista não é um policial nem um censor nem um fiscal. O jornalista é, antes de tudo, uma testemunha: cuidadoso, tenaz, incorruptível, apaixonado pela verdade, mas apenas uma testemunha. Seu poder moral reside, justamente, em que se situa ‘distante’ dos fatos – mostrando-os, revelando-os, denunciando-os – sem aceitar ser ‘parte’ dos fatos.


Responder a esse desafio exige uma enorme responsabilidade. Nenhum jornalista poderia cumprir de verdade essa missão se cada vez, diante da tela em branco de seu computador, não repetisse: ‘O que escrevo é o que sou, e se não sou fiel a mim mesmo não posso ser fiel a quem me ler’. Só dessa fidelidade nasce a verdade. E da verdade, como sabemos todos os que estamos aqui, nascem os riscos desta profissão, que é a mais nobre do mundo.


O melhor jornalismo


Um jornalista não é um novelista, ainda que devesse ter, para contar, o mesmo talento e a mesma graça dos melhores romancistas. Uma boa reportagem tampouco é um setor da literatura, ainda que devesse ter a mesma intensidade de linguagem e a mesma capacidade de sedução dos grandes textos literários. E, para ir ainda mais longe e ser mais claro do que acredito ter sido, um bom jornal não deveria estar cheio de grandes reportagens bem escritas, porque isso condenaria seus leitores à saturação. Mas se os leitores não encontram todos os dias, nos jornais que lêem, uma reportagem, uma única reportagem, que os hipnotize tanto como para que cheguem tarde ao seu trabalho, ou para que se queime o seu pão na torradeira no café da manhã, então não terão por que atirar a culpa à televisão ou à internet de seus eventuais fracassos, senão à sua própria falta de fé na inteligência de seus leitores.


No início dos anos 60 costumava-se dizer que na América Latina se liam poucas novelas porque havia uma imensa população analfabeta. Ao final dessa mesma década, até os analfabetos sabiam de memória os relatos de novelistas como García Márquez e Cortázar, pelo simples fato de que esses relatos se pareciam com as histórias de seus parentes ou de seus amigos. Contar a vida, como queriam Charles Danah e José Martí, voltar a narrar a realidade com o assombro de quem a observa e a interroga pela primeira vez – essa sempre foi a atitude dos melhores jornalistas e essa será, também, a arma com que os leitores do século 21 continuarão aferrados aos seus jornais de sempre.


Ouço repetir que o jornalismo da América Latina está vivendo tempos difíceis e sofrendo ataques e ameaças à sua liberdade por parte de vários governos democráticos. Nas ditaduras sabíamos muito bem a que nos segurar, porque a força bruta e o absolutismo agridem com fórmulas muito simples. Mas as democracias – quando são autoritárias – empregam recursos mais sutis e mais tenazes, que às vezes tardamos em reconhecer. Os tempos sempre foram difíceis na América Latina. Dessa carência podemos extrair certa riqueza. Os tempos difíceis costumam nos obrigar a dar respostas rápidas e lúcidas a perguntas importantes. Quando Atenas produziu as bases de nossa civilização, enfrentava conflitos políticos e líderes demagógicos semelhantes a muitos dos que hoje se vêem por estas latitudes. E apesar disso, Aristóteles imaginou as premissas da democracia a partir dos traços que então tinha Atenas.


No século 17 ninguém podia tampouco imaginar para onde se encaminhava a Inglaterra. Sucediam-se as guerras religiosas e de conquista, os reis iam e vinham, mas do magma dessas convulsões brotaram as grandes perguntas da modernidade e as geniais respostas de Locke, de Hume, de Francis Bacon, de Newton, de Leibnitz e de Berkeley. Do caos daqueles anos nasceram as luzes dos três séculos seguintes.


Algo semelhante está acontecendo agora na América Latina. Quanto mais pareçamos fora da história, mais metidos estamos no coração mesmo dos grandes processos de mudança. Enquanto jornalistas, enquanto intelectuais, nosso papel, como sempre, é o de testemunhas ativas. Somos testemunhas privilegiadas. Por isso é tão importante conservar a calma e abrir os olhos: porque somos os sismógrafos de um tremor cuja força vem de todos os povos.


É preciso colocar-nos a pensar juntos, é preciso que nos dediquemos a narrar juntos. O que vai ficar de nós são nossas histórias, nossos relatos. É preciso renovar também as utopias que agora se estão apagando no cansado coração dos homens. Uma das piores afrontas à inteligência humana é que continuemos sendo incapazes de construir uma sociedade fundada por igual na liberdade e na justiça. Não me resigno a que se fale de liberdade afirmando que para tê-la devemos sacrificar a justiça, nem que se prometa justiça admitindo que para alcançá-la é preciso amordaçar a liberdade. O homem, que encontrou resposta para os enigmas mais complexos da natureza, não pode fracassar diante desse problema de sentido comum.


Tenho plena certeza de que o jornalismo que faremos no século 21 será ainda melhor do que o que estamos fazendo agora e, é claro, ainda melhor daquele que nossos pais fundadores faziam no início deste século que se desvanece. Indagar, investigar, perguntar e informar são os grandes desafios de sempre. O novo desafio é como fazê-lo através de relatos memoráveis, nos quais o destino de um só homem ou de uns poucos homens permita refletir o destino de muitos ou de todos. Aprendemos a construir um jornalismo que não se parece com nenhum outro.


Neste continente estamos escrevendo, sem a menor dúvida, o melhor jornalismo que jamais foi feito. Agora coloquemos nossa palavra de pé para fortalecê-lo e enriquecê-lo.

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Jornalista e escritor argentino (1934-2010)

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  1. Comentou em 15/02/2010 Maurício Caleiro

    Além de saudar o OI pela publicação dessa bela reflexão de um autor que está na linha de frente do jornalismo e da crítica cultural latino-americana – e que, portanto, merece ser bem mais conhecido no Brasil -, envio o link do último e excelente artigo que escreveu, para o El País, tendo como tema a questão das drogas (em espanhol):
    http://www.elpais.com/articulo/opinion/desafios/cultura/narco/elpepiopi/20100202elpepiopi_4/Tes

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