Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > RELAÇÕES PROMÍSCUAS

Entre o silêncio e o cinismo

Por Rogério Christofoletti em 24/05/2006 na edição 382

A mídia não cobre a mídia. Parece vigorar uma miopia nas redações quando a pauta envolve veículos de comunicação, jornalistas ou os dois. Ou pior: parece haver um acordo tácito, um pacto de silêncio quando o assunto é mídia. Raras são as vezes em que saem matérias que tratem deste que é um dos setores econômicos mais poderosos e influentes do mundo. Geralmente, elas saem em tom de autopromoção ou fustigação de concorrentes… Na mídia fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília, essa ojeriza fica até mais evidente.


Em meados de maio, aconteceu de novo. Veio à tona nas páginas da Veja um fato pouco conhecido do público em geral: parlamentares catarinenses distribuem passagens aéreas a jornalistas locais, usando bilhetes a que têm direito por seus mandatos. A revelação veio com uma entrevista que o deputado federal Paulo Bauer (PSDB) concedeu à revista, com a maior naturalidade, defendendo a ‘prioridade da mídia’. ‘A mídia do meu estado também tem o direito de conhecer o Congresso. Eles me acompanham em audiências e, depois, fazem matéria a respeito. É uma forma de dar mais transparência ao meu mandato’, disse o deputado à Veja. A distribuição dos bilhetes teria acontecido durante um jantar realizado em 28 de abril, em Joinville. Este é o terceiro ano seguido que o evento acontece.


Mas o que há de errado?, podem perguntar os mais desavisados. Ora, os deputados dão as passagens que sobram e não usam, retorquiriam os mais cínicos. Errado é usar recursos públicos que deveriam ser destinados ao transporte de parlamentares para outros fins. Errado é transformar essas passagens em brindes de um sorteio numa festa. Errado é político dar presentes a jornalistas. Errado é jornalista receber presentes de suas fontes de informação, podendo comprometer sua relação de distanciamento. Se levado às últimas conseqüências, um fato como esse pode ser encarado como uma forma branda de aliciamento de jornalistas, de cooptação ou corrupção. Afinal, que jornalista teria tranqüilidade e desprendimento para ser crítico a um político que lhe deu uma passagem aérea para Brasília?


Tom indignado


Para confirmar o comportamento-padrão, nenhum colunista da grande imprensa catarinense comentou o assunto dado por Veja. Nenhum. A Notícia e Jornal de Santa Catarina ou não leram a revista ou ignoraram solenemente o fato. O Diário Catarinense não silenciou e trouxe matérias na terça e quarta-feiras (16 e 17/5) repercutindo o assunto. ‘Deputados assumem a ‘festa’ das passagens’ foi o título da matéria sobre a denúncia que foi parar, inclusive, no Ministério Público Federal (MPF).


Na reportagem, são ouvidos 13 dos 16 parlamentares que representam Santa Catarina na Câmara e no Senado. Todos os deputados federais, conforme a matéria de apoio ‘Assunto tratado com tranqüilidade’, admitiram que usam seus créditos de passagem para doar a terceiros. Ao lado dos textos e fechando a página, o Diário Catarinense reproduz num box os nomes de todos os deputados federais do estado. Ora, o DC não se calou, não é mesmo? A matéria retoma o assunto com coragem, certo? Errado. A matéria tem um assumido tom de indignação, mas é permeada pelo mais absoluto cinismo, já que nomeia os parlamentares e silencia sobre os jornalistas que teriam recebido os presentes.


Verdade diluída


É verdade que os deslizes são diferentes. No caso dos representantes políticos, se se configurar desvio de recursos públicos, teremos aí um ato ilegal. Quanto aos jornalistas que aceitaram os bilhetes, estes não estão ilegais, mas podem ter incorrido em transgressão ética. O Código de Ética dos Jornalistas aponta, no artigo 13, que os profissionais não podem usar a sua condição para obter vantagens pessoais ou outros benefícios. Para além disso, aceitar um presente desses é permitir que se estabeleça uma relação de dependência do jornalista em relação a sua fonte de informação. O jornalista fica com as mãos atadas, refém da situação. E tratar a fonte com rispidez ou com um tom um pouco mais crítico pode trazer constrangimentos de lado a lado. Em suma, um terreno perigoso.


Na quarta-feira (17/5), o DC voltou à carga com matéria no rodapé da página: ‘Passagens ficam sem análise’, onde confirma melancolicamente que o caso pode não passar de um ‘desconforto moral’. A Corregedoria da Câmara só poderá entrar no assunto se for provocada pelo Ministério Público Federal, que ainda não deu um passo além de receber a denúncia. Mesmo assim, ainda empunhando a bandeira da transparência, o Diário Catarinense republica o box, dando nome aos bois. Não os nomes dos jornalistas que receberam as passagens, mas dos deputados que assumem distribuir os créditos.


A coisa fica nisso. Um deputado federal – que já foi vice-governador do estado, na gestão de Esperidião Amin – faz sorteio de passagens para jornalistas de Joinville. O maior jornal de Joinville, A Notícia, não escreve uma linha sobre isso. O maior jornal do estado, o Diário Catarinense, veste a túnica de paladino da justiça e vai atrás do assunto, lembrando o leitor (e eleitor) de todos os representantes na Câmara. Só esquece de trazer à tona os nomes dos jornalistas que embolsaram os bilhetes. Entre o silêncio e o cinismo, a verdade dos fatos se dilui.

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