Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Entre pizzas e marimbondos

Por Jorge Fernando dos Santos em 28/07/2009 na edição 548

Ao chamar os senadores da República de pizzaiolos, o presidente Lula desrespeitou toda uma categoria de homens probos e descentes, que ganham a vida literalmente com o suor do rosto. Eu, se fosse pizzaiolo profissional, entraria na Justiça cobrando indenização por calúnia e difamação. Não há como comparar profissionais que trabalham na boca do forno para alimentar pessoas famintas com políticos profissionais, que pouco fazem em benefício dessas mesmas pessoas.

Os recentes escândalos envolvendo o Senado Federal e o arquivamento na Câmara do processo contra o deputado mineiro que construiu um castelo (só Deus sabe com que dinheiro) são provas suficientes da ineficácia e da falta de respeito dos políticos brasileiros pela opinião pública. Um deles até já disse que, apesar disso, será reeleito, pois ninguém no país liga para as denúncias da imprensa.

O mais curioso nessa história é que o presidente se irritou devido à instauração da CPI da Petrobras. Se quem não deve não teme, qual seria o motivo de tanta irritação? Se por acaso descobrirem alguma coisa que possa desabonar seu governo, bastaria ele dizer que não sabe de nada, como ocorreu durante o processo que investigou o envolvimento de homens de sua confiança no esquema do mensalão. Nesse caso, seus índices de popularidade certamente subiriam acima das nuvens.

Indícios de que não dê em nada

Curioso é que Lula defende Sarney com unhas e dentes. Um homem que representa o que há de mais atrasado na política brasileira. Coronel udenista da Velha República e ‘dono’ de um dos estados mais pobres do país, ele apoiou a ditadura militar, fundou o antigo PDS e pulou do barco na hora do naufrágio para aderir à campanha de Tancredo Neves para a Presidência da República, na condição de ser o vice-candidato na chapa de oposição.

Num momento de azar para os brasileiros, Sarney assumiu o Executivo, protagonizando com Ulysses Guimarães um golpe de Estado jamais denunciado. Com a doença e a morte do presidente eleito, o correto seria a realização de outra eleição, pois o vice só poderia assumir o cargo depois da posse do titular. Os políticos sabiam disso, mas a maioria preferiu o caminho mais fácil, ignorando a Constituição Federal promulgada meses antes. A mídia também sabia, mas optou pelo silêncio.

Sarney posa de intelectual moderno, mas – todo mundo sabe – ele é fruto das oligarquias que insistem em permanecer no poder, tendo hoje herdeiros políticos como Fernando Collor de Mello, também aliado de Lula. No entanto, há que se reconhecer, o autor de Marimbondos de Fogo está sendo imolado feito um boi de piranha, pois não é o único culpado pelos desmandos na casa que preside. Basta lembrar as denúncias que derrubaram Antônio Carlos Magalhães, Jarbas Vasconcelos e Renan Calheiros. O problema, pelo visto, é o próprio Senado, instituição que já não funcionava bem desde os tempos do Império Romano.

Às vésperas das férias parlamentares, há fortes indícios de que as investigações sobre os desmandos praticados na casa não vão dar em nada. O presidente da CPI que deveria apurar o envolvimento de Sarney e os abusos cometidos com o dinheiro público é seu aliado e tem poderes para arquivar o processo, caso decida por mais uma pizza. No entanto, vale repetir, os honrados pizzaiolos que fazem a alegria do povo com suas massas e temperos nada têm a ver com a classe política, que se alimenta do suor desse mesmo povo.

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Escritor e jornalista, Belo Horizonte, MG

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