Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

IMPRENSA EM QUESTãO > COBERTURA POLÍTICA

Entre a imparcialidade e o comprometimento

Por Venício A. de Lima em 17/06/2008 na edição 490

Resultados de pesquisas realizadas por diferentes instituições ao longo da campanha eleitoral de 2006 revelaram que a cobertura que os principais jornais e revistas ofereceram dos candidatos a presidente da República foi desequilibrada, isto é, favoreceu a um deles. Não foi a primeira vez, certamente, que isso ocorreu, mas nas eleições de 2006 o fato pôde ser fartamente comprovado e a cobertura jornalística acabou por transformar-se, no segundo turno, em tema de debate da própria campanha [cf. V.A. de Lima (org.), A Mídia nas Eleições de 2006, Editora Fundação Perseu Abramo, 2007).

Em 2006, apenas a CartaCapital tomou posição editorial a favor de um dos candidatos. Todas as outras principais revistas e jornais deixaram de manifestar publicamente sua posição. De qualquer maneira, a grande mídia sempre insistiu que sua cobertura é realizada dentro das normas da imparcialidade e da objetividade jornalística, isto é, sem a intenção de favorecer a este ou aquele candidato.

Qualquer estudante de jornalismo sabe (ou deveria saber), no entanto, que imparcialidade e objetividade são princípios irrealizáveis na prática concreta da apuração e da redação de notícias, sejam elas de política ou de outra editoria. O que se busca no jornalismo sério e responsável é minimizar a contaminação da cobertura pelas preferências pessoais do(a) repórter e pelos interesses dos donos dos jornais, expressos nos editoriais e nas colunas de opinião dos respectivos veículos.

Na verdade, uma série de fatores tem tornado a imparcialidade e a objetividade cada vez mais difíceis na prática jornalística. Um desses fatores é a transformação das empresas de mídia em grande conglomerados com interesses amplos e diversificados em vários setores da economia e, portanto, na formulação de inúmeras políticas públicas.

Uma das alternativas sempre lembradas para a ausência da imparcialidade que se manifesta, sobretudo, nas coberturas das campanhas eleitorais seria que os jornais declarassem publicamente sua posição política e assumissem a ‘contaminação’ de sua cobertura jornalística pela posição assumida. O leitor saberia que o jornal X tem tal posição política e apóia tal candidato e o jornal Y tem outra posição e apóia outro candidato.

O editorial da Folha

O editorial publicado pela Folha de S. Paulo na sexta-feira (13/6), em defesa da publicação de entrevistas com candidatos a cargos eletivos antes da data permitida pela Justiça Eleitoral, coloca dois elementos interessantes na discussão sobre a cobertura política dos jornais em períodos eleitorais.

Primeiro, faz uma diferença entre propaganda e material jornalístico. Para a Folha, o ‘material jornalístico’ – inclusive, entrevistas – é imparcial e apenas cumpre o dever de informar aos leitores sobre os candidatos a cargos eletivos. Já a propaganda, presumivelmente identificada como tal, é ‘mensagem em geral paga que tem o intuito de convencer, persuadir’ o leitor.

Ora, é sabido que o grande poder da mídia é exatamente tornar as coisas públicas. Qualquer político precisa de visibilidade (que só a mídia oferece), mas não basta ter visibilidade, é preciso que ela seja favorável. Uma matéria jornalística poderá sempre favorecer ou prejudicar um determinado candidato dependendo do tipo de visibilidade que ela ofereça: positiva ou negativa. Desta forma, embora matéria jornalística e propaganda sejam, sim, diferentes, ambas podem, no entanto, funcionar como fator de ‘convencimento’ direto e/ou indireto do leitor/eleitor.

Segundo, a Folha argumenta que as limitações da Lei Eleitoral e das resoluções do TSE se aplicam ao rádio e à televisão – que são concessões públicas – mas não se aplicam aos jornais. Na verdade, diz o editorial, ‘se o jornal desejasse apoiar e promover um postulante a cargo eletivo, teria pleno direito de fazê-lo’.

As emissoras de rádio e de televisão, por serem concessões de um serviço público, isto é, de todos nós, não podem promover um determinado candidato porque estaria configurada a quebra do princípio da ‘impessoalidade’ que rege a prestação de qualquer serviço público. Mas os jornais não estão sujeitos a essa limitação. Lembra o editorial corretamente que os jornais ‘surgiram vinculados a grupos e partidos políticos’.

É verdade. Os jornais chamados ‘independentes’ aparecem com a necessidade de captar recursos publicitários entre anunciantes de diferentes posições políticas e partidárias. O jornal não é uma concessão pública. É uma empresa que sobrevive no mercado da forma que julgar mais conveniente. Em outras palavras, o jornal não tem compromisso com o interesse público, o interesse de todos, como o rádio e a televisão. Pode, eventualmente, expressar a posição de uma parte, de um partido.

A posição política e seus riscos

Os pontos levantados pelo editorial da Folha de S.Paulo podem indicar uma saída para a maior transparência das coberturas jornalísticas nas campanhas eleitorais. Os jornais assumiriam publicamente sua posição política, o apoio a determinado candidato e teriam sua credibilidade junto aos leitores alicerçada nessa posição – e não mais numa suposta imparcialidade da cobertura política.

Melhor assim do que ter posição política, apoiar um candidato e ‘fazer de conta’ que a cobertura foi feita com imparcialidade e objetividade, contrariando as evidências das pesquisas e do senso comum.

******

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor/organizador, entre outros, de A mídia nas eleições de 2006 (Editora Fundação Perseu Abramo, 2007)

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/03/2009 Geraldo Vida vida

    Prezados Senhores,
    Gostaria de saber se vcs não vão repercurtir e criticar a absurda censura do presidente da camara dos deputados a entrevista que o Sr Gilmar Medes não gostou. Dias desses vi na TV Brasil o Sr. Dines criticar o Presidente da Republica pelas criticas a imprernsa, comentando que essas criticas poderiam soar como ameaça. Pergunto: e no presente caso, de que se trata?
    Gostaria de ler suas posições.
    Respeitosamente,
    Geraldo Vida

  2. Comentou em 23/06/2008 antonio barbosa filho

    A multa é um absurdo, mas o editorial também. A rigor, não há liberdade de imprensa no Brasil, nem é isso que defendem os barões da mídia. Querem é liberdade (mais ainda) para usarem seus veículos e as concessões (que são eternas – alguém se lembra da última não-renovação?) para obter privilégios em seus outros negócios. Redes de TV têm construtoras, shopping centers, fábrica de brinquedos, etc. A informação virou apenas um instrumento para fins privados.
    Ler a Folha, o Estadão ou o Globo sobre liberdade de imprensa é ver o Jô Soares fazendo propaganda de dietético. Existe censura na imprensa brasileira exatamente imposta pelas seis ou sete famiglias. Basta de hipocrisia!

  3. Comentou em 22/06/2008 Luciano Prado

    E adianta denunciar, reclamar e indignar-se com essa tremenda cara-de-pau da ‘imprensa’ brasileira? Os caras são parciais e tendenciosos o tempo todo. Não estão preocupados com o que pensa e quer o povo brasileiro. Querem, por sobre pau e pedra, levar ao poder (em todas as esferas) aqueles que farão valer os seus interesses, mesmo os mais sujos. Essa história de determinado órgão de imprensa declarar-se a favor de determinada posição política, só minimizaria o peso da consciência dessa gente. Os princípios da ética jornalística continuariam sendo jogados na lata do lixo. Ou alguém imagina que a “imprensa” deixará de agir como partido político?

  4. Comentou em 22/06/2008 Luciano Prado

    E adianta denunciar, reclamar e indignar-se com essa tremenda cara-de-pau da ‘imprensa’ brasileira? Os caras são parciais e tendenciosos o tempo todo. Não estão preocupados com o que pensa e quer o povo brasileiro. Querem, por sobre pau e pedra, levar ao poder (em todas as esferas) aqueles que farão valer os seus interesses, mesmo os mais sujos. Essa história de determinado órgão de imprensa declarar-se a favor de determinada posição política, só minimizaria o peso da consciência dessa gente. Os princípios da ética jornalística continuariam sendo jogados na lata do lixo. Ou alguém imagina que a “imprensa” deixará de agir como partido político?

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