Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Entrevista desastrosa e irresponsável

Por Marco A. Arruda em 30/06/2009 na edição 544

Não troco os dias de hoje, de ampla, total e irrestrita liberdade de expressão, por aquelas noites de um passado não tão distante em que nos privaram do voto e da informação. É bom contemplar a parcela da imprensa livre que traz numerosas contribuições para a sociedade, difunde ideias, cobra transparência e ética, estimula a reflexão e leva o conhecimento científico mais atual até o mais humilde e marginalizado cidadão. Por outro lado, é ruim ver prosperar uma outra imprensa, ‘filha’ de uma mídia inescrupulosa, que usa os mesmos métodos daqueles tempos de escuridão para distorcer ou ocultar a informação, satisfazendo sua insaciável fúria e ambição em busca da audiência e do dinheiro certo do patrocinador.

Nossa moderna sociedade democrática, no entanto, já mostra sinais de impaciência e indignação, não admite mais outros casos Escola Base e exige informação baseada em evidências, além de uma legislação que regule o setor, impedindo a exposição de nossas crianças ao apelo sexual e à mensagem subliminar e massacrante de determinados veículos de comunicação para os quais ‘só vale a pena o que dá prazer imediato’.

Que tal discutirmos até que ponto modernas pandemias infantis, como a de obesidade, consumo de drogas, consumismo, dificuldade escolar e inadequação comportamental derivam da inoculação dessa mensagem travestida na mente dos nossos filhos? Com a revogação da antiga Lei de Imprensa, remanescente da época escura, permanecem sem regulação importantes questões, como o direito de resposta, danos morais e a responsabilidade de quem veicula a informação. Em mais um lamentável episódio de desserviço dos meios de comunicação, vimos a reportagem do Jornal Nacional de quinta-feira (18/6), que anunciava o ‘crescimento assustador do uso da droga da obediência’.

Perdas incalculáveis

Além da equivocada alusão à obediência, a matéria prosseguiu crucificando o medicamento, priorizando ‘achismos’ a evidências científicas atuais e números isolados a teses bem sustentadas. No desfecho, a declaração desastrosa e irresponsável de uma pediatra, professora universitária, sem experiência nem tampouco conhecimento notório em Neuropsiquiatria Infantil, de que ‘não daria esse remédio’ a uma criança. Ignora ela o impacto que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade causa aos portadores, seus familiares e à sociedade como um todo; ignora ela que menos de 1% dos portadores são diagnosticados e tratados em nosso país; ignora ela a segurança de um medicamento que conta hoje com mais de cinquenta anos de idade e evidências científicas de eficácia e segurança.

Com mais de uma semana da passagem do tsunami, as perdas ainda são incalculáveis. Houve tempo para tranquilizar muitos pais e portadores assustados com a reportagem, mas, infelizmente, tenho certeza que uma quantidade muito maior desistiu do tratamento, desistiu do seu médico e abandonou a medicação. Em seguida, o texto de carta encaminhada ao Jornal Nacianal.

‘Achismo’ é relevante?

‘Carta aberta ao Jornal Nacional do dia 18 de junho de 2009

A reportagem veiculada no Jornal Nacional, da TV Globo, representou mais uma dentre as várias matérias recentes cujo conteúdo apresenta uma percepção incorreta do Transtorno do Déficit de Atenção (TDAH).

1. A ausência de vários pesquisadores por si só é bastante sugestiva. São entrevistados alguns profissionais que emitem opiniões próprias, como se elas fossem representativas de sua categoria. Ao contrário do que disse um dos entrevistados, existe consenso entre médicos neurologistas, neuropediatras, pediatras e psiquiatras, de que o TDAH frequentemente exige tratamento medicamentoso. A opinião pessoal de um profissional, quando oposta aos demais de sua categoria profissional, aos consensos publicados na literatura científica e aos achados de pesquisa, não apenas é irrelevante como potencialmente danosa. Com o advento da moderna medicina, o que um profissional `acha´ sobre determinada doença ou seu tratamento não é mais relevante: é necessário consultar os resultados de pesquisas científicas realizadas por diferentes estudiosos, em diversos países, inclusive por grupos que competem entre si. O nome disto é medicina baseada em evidência e é improvável que jornalistas não conheçam isto.

2. Só há uma forma de se `averiguar´ se determinada concepção é correta ou não: através de pesquisa científica publicada em revistas especializadas. Os estudos são revisados por pareceristas anônimos, também pesquisadores. Mesmo após passar pelo seu crivo os resultados, por terem sido apresentados em detalhes, podem ser criticados, novamente analisados e mesmo reproduzidos (ou não) por outros. Por outro lado, como seria possível `averiguar´ a `opinião pessoal´ de alguém? Será que os jornalistas realmente crêem que `achismo´ é relevante?

Ignorância ou má-fé

3. Seria oportuno que os jornalistas indicassem os critérios de seleção de alguns entrevistados. Mas como tais critérios na mídia são obscuros, só resta ao espectador consultar se os entrevistados que discorrem contra o TDAH e seu tratamento, alguma vez na vida pesquisaram ou publicaram um artigo científico sobre TDAH: basta consultar o site da Plataforma Lattes.

4. Por que não entrevistam uma associação de portadores, como a ABDA? Não são justamente os portadores e seus familiares os maiores interessados neste assunto?

5. Entrevistar um único indivíduo que sofreu efeitos colaterais de qualquer medicamento que seja é, na melhor das hipóteses, sinal de ignorância. Na pior delas, sinal de má-fé. Os brasileiros perderam um grande nome da música popular por conta de uma anestesia. Isto significa que devemos abolir as anestesias? Um dos medicamentos mais utilizados para dor e febre, vendido sem receita médica e de uso infantil, é o acetaminofen, que muito raramente pode levar a graves complicações hepáticas (no fígado), inclusive fatais. Isto não significa que o medicamento deva ser proibido. Será que ensinam Matemática nos cursos de Jornalismo? Mais ainda, não sabemos sequer se a criança da reportagem de fato tinha TDAH, se foi diagnosticada por especialista e recebeu prescrição de modo correto.

Falsa imparcialidade

6. Por último, enfatizamos que existem inúmeros estudos científicos demonstrando que o TDAH, quando não tratado, se associa a várias complicações: uso de drogas, mais fracasso escolar e mais repetência, maiores índices de desemprego, maior frequência de depressão e ansiedade, mais acidentes automobilísticos e maiores índices de divórcio. Por este motivo, agradecemos aos três profissionais que na entrevista discorreram de forma correta, responsável e ética acerca do TDAH, a saber: dr. Claudio Costa, dra. Claudia Machado e Regina Volpini.’

Matérias jornalísticas têm elevado impacto na população, de modo geral. Quando seu conteúdo apresenta inverdades ou promove o medo injustificado ao tratamento de uma doença séria, faz grave desserviço ao país. Mais ainda quando, sob uma falsa maquiagem de imparcialidade, apresenta visões opostas – providenciando, entretanto, que uma delas tenha destaque ou enorme apelo, mesmo se sabendo infundada – e infringe o mais básico dos preceitos do jornalismo.

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Médico, Associação Brasileira do Déficit de Atenção, Ribeirão Preto, SP

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