Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > PRÊMIO EM XEQUE

Estadão estuda boicote ao Esso

Por Luiz Antonio Magalhães em 21/12/2004 na edição 308

O Prêmio Esso deste ano contou com a desaprovação dos dois maiores jornais de São Paulo. Em carta enviada na sexta-feira (10/12) à comissão organizadora do evento, assinada pelos diretores de Redação da Folha de S. Paulo e do Estado de S. Paulo (Otavio Frias Filho e Sandro Vaia, respectivamente), os dois jornalões demonstraram seu descontentamento com os critérios estabelecidos pelos promotores do mais tradicional prêmio de jornalismo do Brasil. Na carta, Frias e Vaia também insinuaram que o júri do Esso estaria favorecendo ‘determinados grupos de mídia’ e questionaram a composição do júri.


A atitude dos diretores da Folha e Estadão causou estranheza entre os jornalistas que participaram do júri neste ano. Um deles, Luiz Weis, colaborador deste Observatório, revelou sua decepção com o teor da carta. ‘Jornalistas deveriam ser os últimos a acusar sem provas e os primeiros a não permitir que acusações sem provas passem em branco’, afirmou.


Para trazer mais luz às razões de Folha e Estado, o OI procurou os dois diretores de Redação que assinaram a carta. Até o fechamento desta edição, apenas Sandro Vaia aceitou falar sobre o assunto. Na entrevista a seguir, ele revela que o Estado poderá deixar de participar do Esso, como faz atualmente a revista Veja, da Editora Abril, por discordância dos métodos dos organizadores do Prêmio.


***


Como surgiu a idéia de enviar a correspondência, em parceria com o diretor de Redação da Folha de S. Paulo, à comissão julgadora do Esso? O senhor já havia conversado a respeito do Prêmio com o Otavio Frias Filho?


Sandro Vaia – A idéia surgiu de um telefonema que recebi da Eleonora de Lucena, editora-executiva da Folha, manifestando o descontentamento de seu jornal a respeito dos critérios aplicados nas últimas edições do Prêmio Esso. Por coincidência, nós, aqui no Estado, já tínhamos estudado, no ano passado, a possibilidade de não participar da disputa. Eu mesmo já tinha manifestado, pessoalmente, meu descontamento ao pessoal da RP – Ruy Portilho e Guilherme Duncan. São amigos pessoais, pessoas sérias e confiáveis, já trabalhei com ambos no Jornal da Tarde. Eu disse a eles que tinha recebido relatos dos representantes do jornal nas últimas três edições do prêmio dando conta de alguns problemas, tanto na composição do júri como no comportamento de alguns grupos, que barganhavam votos entre si. Eles me disseram que fariam mudanças e eu concordei com a indicação de uma de nossas profissionais para fazer parte do júri deste ano. Foi possível verificar que as distorções continuaram. A Eleonora sugeriu que fizéssemos uma manifestação de desagrado conjunta – e isso foi feito por meio da carta.


Na carta, os senhores dizem que a escolha dos jurados não é representativa do mercado editorial do país e tende a favorecer determinados grupos de mídia. O senhor poderia especificar que problemas observa na formação do júri? E quais os grupos de mídia que estão sendo favorecidos?


S.V. – Há, evidentemente, uma concentração desmesurada da mídia do Rio na composição do júri; não digo que haja grupos específicos sendo favorecidos, mas o histórico dos últimos resultados mostra uma clara concentração no mínimo geográfica das premiações.


O jornalista Alberto Dines tem criticado, no Observatório, diversas premiações – entre as quais a do Esso. Ele argumenta que esses eventos acabam servindo mais para promover as empresas que o promovem do que para premiar os bons trabalhos jornalísticos. Ele também observa que os prêmios podem se tornar ‘uma espécie de habeas corpus prolongado’. Em 2003, ele escreveu:: ‘Nenhum profissional ou veículo ousará criticar uma empresa ou entidade que se mostra tão generosa com a imprensa’. O senhor concorda com esses argumentos?


S.V. – Concordo com a idéia de que as empresas que promovem os prêmios podem sair ganhando mais do que o bom jornalismo. Sobre o ‘habeas corpus prolongado’, prefiro acreditar que, se ele existe mesmo, seja mais uma reação inconsciente do que uma atitude deliberada. O resultado pode ser tão negativo quanto, mas não creio em dolo.


Existe alguma perspectiva de Estado e Folha deixarem de participar do Prêmio Esso, como a Veja já faz?


S.V. – No que diz respeito ao Estado, vamos estudar a atitude a tomar. Mas é possível que deixemos de participar, sim.


O Estado premia seus jornalistas internamente. Como é composto o júri e quais são os critérios utilizados na premiação?


S.V. – Os trabalhos são inscritos pelos seus próprios autores, selecionados e referendados pelos editores de área e julgados pelo diretor de Redação, editor-chefe e editores-executivos. O critério é um só: qualidade jornalística.

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