Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > PAUTA DA HORA

Estado forte, juízo fraco

Por Alberto Dines em 14/03/2010 na edição 580

Na véspera da campanha eleitoral, a sete meses do primeiro turno, finalmente aparece na pauta um tema consistente, capaz de manter-se acima da muvuca dos palanques e das alfinetadas pessoais. Como sempre acontece nos debates conceituais travados nesta Terra dos Papagaios, o eventual lastro intelectual contido na polêmica fragmenta-se na fulanização, esgarça-se nos preconceitos e apequena-se através de simplificações.


A questão do Estado forte foi importada dos EUA: chegou até aqui empurrada pelos naturais desgastes do primeiro ano do mandato de Barack Obama, perversamente explorados pela extrema direita americana, sempre pronta a ressuscitar o macarthismo. Constrangida em exibir a sua orgânica vocação racista, tirou do armário a velha histeria antiliberal e investiu contra o primeiro negro a ocupar a Casa Branca taxando-o de vermelho.


O sistema importador deste debate foi a nossa mídia, que há algumas décadas vive obcecada com os fantasmas da regulação. Curvou-se à censura militar, engoliu a autocensura, não berra nem esperneia contra a censura togada, mas entra em convulsões quando se mencionam hipóteses intervencionistas mesmo em situações emergenciais. Barack Obama era o queridinho da nossa mídia, hoje é apontado como inimigo das liberdades porque o seu plano de saúde desagradou ao lobby dos planos de saúde.


Exemplo desta metamorfose foi o texto publicado no Globo (o primeiro jornal brasileiro apostar em Obama), no qual agora é classificado como inimigo das liberdades (‘O caminho da servidão’, por Rodrigo Constantino, 2/3, pág. 7).


Arrogância e intimidação


A malta neoconservadora do presidente Bush acelerou criminosamente a bolha financeira americana e depois do inevitável crash esperava uma terapia não-intervencionista resolvida pelo ‘mercado’. Se este mercado não foi capaz de perceber o perigo e corrigir os seus delírios, como imaginar que seria capaz de se autorregular no meio dos sucessivos terremotos e tsunamis que derrubaram Wall Street?


Quem saneou o sistema financeiro brasileiro em novembro de 1995? Os bancos ainda alavancados pela hiperinflação ou o Estado através do Proer, criado e acionado por nosso Banco Central?


Quem poderia evitar o definitivo desmoronamento da indústria automobilística americana levando à rua da amargura uma parcela significativa da população economicamente ativa – a Toyota japonesa, então número 1 mundial?


Se o Estado americano, por meio dos diferentes poderes e instituições, não interviesse em Detroit no início de 2009 através de uma estatização emergencial, em janeiro de 2010 teríamos um gigantesco recall de todos os carros, marcas e modelos graças à universalização dos paradigmas de gestão da montadora nipônica que privilegiou a quantidade em detrimento da segurança, conforme confessou o seu presidente, Akio Toyoda, perante a Câmara dos Deputados dos EUA.


O que está acontecendo em nossa praia é a combinação de um verão senegalesco com um novo surto de empulhação semântica: todo Estado deve ser forte para garantir a sua soberania e a segurança dos cidadãos. O que devemos temer – e muito! – são governos arrogantes, autoritários, delirantes, sonsos e onipotentes, geralmente chamados de ‘governos fortes’, habituados a contornar as leis, pisotear a moral, burlar os sistemas de vigilância e intimidar oponentes.


Inspiração perigosa


A jogada destinada a fundir as operadoras de telefonia Oi e BrT para compor um poderoso conglomerado de mídia eletrônica não foi engendrada por um ‘Estado forte’, foi um conluio de operadores situados nos desvãos da esfera pública para beneficiar interesses privados.


Num mundo globalizado só conseguirão destacar-se os Estados bem definidos, demarcados, marcantes – fortes. Na Europa federalizada, só Estados coesos, centrados e bem amarrados terão chance de sobressair e afirmar-se.


Todos os quatro pré-candidatos à sucessão do presidente Lula são igualmente estatistas e intervencionistas. E não poderia ser diferente, sobretudo durante a temporada eleitoral quando se obrigam a vestir o uniforme de defensores intransigentes do interesse público.


Estado forte não é pesadelo, deveria ser meta. O perigo está naqueles que inspirados em Luiz XIV, proclamam: ‘O Estado sou eu’.

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