Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ENTRE ASPAS > LEITURAS DE VEJA

Eu sou a anta do Mainardi

Por Jose Luiz Ribeiro da Silva em 24/10/2007 na edição 456

O jornalista Paulo Francis possuía um texto impecável em argumentações, observações sarcásticas, mas, principalmente, uma lição de cultura, fosse qual fosse o assunto tratado.


Era um exercício divertido de reflexão ter em mãos um texto onde ousadia e erudição caminhavam juntas, resultando numa ironia refinada. Mesmo quando atribuía ao então presidente Sarney a pecha de ‘matuto esperto’ ou ao ex-presidente Jimmy Carter o atributo de ‘caipira, plantador de amendoim’, o fazia com certa classe e bom humor. Muitos leitores pediam sugestões bibliográficas, num arremedo sincero de se conquistar um pouco de conhecimento de uma pessoa tão familiarizada com o assunto. Todas as quintas e sábados, na Folha de S. Paulo, sua coluna de página inteira era aguarda por muitos. Ninguém ficava impassível às suas reflexões, mesmo às mais banais.


Sabe-se lá por que, Francis foi mudando de tom. O sarcasmo ficou mais virulento, suas observações mais venenosas, por vezes ofensivas. Foi considerado, por alguns, como ‘o cara que adoramos detestar’. Criou-se até um termo na época: ‘a metralhadora giratória de Paulo Francis’, tamanha a velocidade de suas palavras e os estragos que elas causavam no alvo atingido. Trocou o plano das idéias pelas críticas pessoais. Caetano Veloso, Arnaldo Jabor e Ruth Escobar que o digam. A polêmica cedeu lugar ao bate-boca. Mas vendia jornal também e muito jornal mesmo – a Folha passou a ser ‘independente, sem rabo preso’ – alguém se lembra?


Até para xingar é preciso talento


Com o tempo, Paulo Francis deu tanto tiro que acabou acertando no próprio pé e saiu da Folha de S. Paulo pela porta dos fundos. Ninguém da redação se pronunciou. Os leitores até que exigiram uma retratação, mas não convenceram.


Paulo Francis foi pro Estadão e depois terminou seus dias sendo uma caricatura dele mesmo na rede Globo.


A vaga da ‘metralhadora giratória’ ficou em aberto. Aquilo que acontecera de certa forma natural transformou-se em uma grande jogada de marketing. A idéia de que, em nome da liberdade de imprensa, vale tudo, virou um grande lance… De vendas. Afinal, é só atacar aquilo que as pessoas possuem de mais precioso – suas convicções. E está feita a polêmica, tudo em nome da liberdade de expressão. Criam-se os prós e contras e grupinhos de Orkut por aí. As associações de classe ou de gênero se manifestam e o negócio rola mesmo.


A Folha tentou manter o esquema com outros tantos ‘colunistas independentes’; alguns se deram bem, mas a maioria não. Até para xingar num jornal é preciso ter um pouco de talento e formação cultural.


Melhor estratégia é o achincalhe


Outros veículos de mídia também entraram na onda, afinal por que não? Somos ou não uma imprensa participativa? E então chegamos ao sr. Mainardi, da revista Veja.


Mainardi é um deles. Tal qual um filho bastardo que tudo tenta para se igualar ao pai. Mainardi segue rumo ao estrelato. Construindo ‘ganchos’ provocativos onde o limite entre a grosseria e o bom senso inexiste em suas declarações.


Nos poucos textos que eu admito que li, Mainardi descarta a hipótese de o brasileiro possuir um sentido moral. Decreta que Xuxa é o que há de mais viável para o nosso nível cultural. E por aí vai. Por outro lado, usa a antiga metralhadora giratória do Francis de forma mais objetiva e engajada: desgastar o presidente eleito e impedir que qualquer candidatura futura venha dos movimentos sociais ou que possua algum vínculo com a transformação real da sociedade. Assim sendo, quando um sujeito como ele se compara a um ícone da esquerda revolucionária ou se diz ameaçado de morte, por exemplo, não o faz gratuitamente. Faz de forma estratégica, pois sabe que vai provocar reações fortes e respostas emocionais, muitas vezes sem o viés da reflexão, que a palavra escrita e publicada exige. Aí é só deitar e rolar sobre o assunto.


Criando ‘ganchos’ com a habilidade de um roteirista de novela, ele sobrevive pela polêmica criada da indignação, protegido pela liberdade do livre pensar e de opinião. Logo, quando publica um livro intitulado Lula é minha Anta, não está se referindo a uma estratégia de caça, e sim utilizando o duplo sentido da frase para vender matéria requentada. Ele sabe que a melhor estratégia, principalmente para quem não tem talento, é o achincalhe, o comentário rasteiro, pois esse cria barulho e talvez assim não tenha mais um livro encalhado nas prateleiras das livrarias. Na verdade, nós, leitores que buscamos informação, é que somos as antas da imprensa. Corremos atordoados pela floresta tentando fugir das flechas ideológicas que nos querem impingir diariamente sem descanso ou refresco.

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Psicólogo

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/10/2007 Vladimir Braga

    Carlos Humberto, jornalista. Jornalista? ‘hegocêntricos’; ‘acessorados’; ‘atraz’; ‘disfarsar’. Jornalista? Deixe o Diogo Mainardi em paz e vá estudar a inculta!
    PS: Putz! Agora que eu vi, tem mais: ‘ignorânte’; ‘diabolica’; ‘nõs’; ‘noque’; ‘nôs’ – incrível como esse ‘jornalista consegue usar o mesmo pronome com dois acentos diferentes e errados, claro! e assinar jornalista – ; ‘inrustido’. Enfim, Carlos, você tem razão :: diante de uma demonstração tão cabal de conhecimento da língua, que desses defensores de Mainardi quando afirmam que quem critica o colunista não ‘tem estudo’, são pessoas ‘ sem conhecimento’. Qual nada!
    PS 2: A propósito, sou jornalista, mas, creia, não sou da sua classe.

  2. Comentou em 29/10/2007 Apolonio Silva

    Pra dizer a verdade, mesmo fazendo uma leitura diagonal do livro não vi nenhuma referência ao seu nome. Portanto me parece que, enquanto anta assumida, o senhor está a salvo do Diogo Mainardi. Sugiro àqueles que se escandalizam com a prática milenar de criticar o governante da vez – coisa em que o lulismo sempre se esmerou – publiquem um livro com, quem sabe, o título: ‘Lula é meu fofo’. Ou ‘Lula é demais’. Ou ainda ‘Lula é café com leite’. Do que adianta Freud explicar, explicar, se a galera não entende o que o homem falou? Cadê o semancol dessa turma?

  3. Comentou em 28/10/2007 Carlos Humberto de Carvalho Neto Carvalho

    Os que defendem Diogo Mainardi dizem que quem o critica é burro, ignorânte Ptista, sem estudo, sem conhecimento, pobre, suburbano etc… Esses defensores do Diogo Mainardi usam de uma tática diabolica, perversa, maquiavélica, racista, preconceituosa, soberba mau caráter( fazer esse tipo de ataque é a cara dos que defendem Diogo Mainardi, e do próprio) RESUMINDO: Vcs defensores do Diogo Mainardi poderiam nõs informar quais são os títulos honoríficos do Diogo Mainardi? Quais os prêmios que Diogo Mainardi já recebeu? Ele é reconhecido noque? Quais as condecorações que Diogo Mainardi ja recebeu? Como ele arrumou cadeira cativa nôs meios de comunicação mais notórios do país? AHH…!! Essa resposta é fácil! So pode ser por influência do PAPAI. Se não fosse o PAPAI Diogo Mainardi não arrumava emprego nem naqueles jornais cor de rosa que so falam de homicídios policiais.( Não voto em Lula e muito menos sou Ptista inrustido)

  4. Comentou em 25/10/2007 LUIZ SCHECHTEL

    O Mainardi é um câncer na formação de opinião da sociedade. Dizer que é rasteiro é muito pouco para esse ser. Aliás, ele está no lugar certo: na Veja.
    Saudações ao José Luiz.

  5. Comentou em 24/10/2007 Andreis Souza

    Que satisfação eu senti ao ler esse texto. Sou Lula e não escondo. Porém, embora não pareça, minha satisfação ao ver essa análise sobre o sr DM, é que nela este sr. é desnudado. Mostrado como um grande interesseiro procurando crescer às custas da polêmica e longe de ser um ponto balizador para uma concepção real dos fatos à nossa volta. A forma como ela ataca, sinceramente, nem se voltasse sua mira ao sr FHC me traria satisfação, porque seu jogo baixo e seus interesses longe do bem do leitor. Parabéns ao sr José Luiz Ribeiro da Silva

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