Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Falta de contextualização gera desinformação

Por Francisco Fernandes Ladeira em 18/09/2015 na edição 868

Entre os temas presentes constantemente na mídia, os noticiários internacionais são, certamente, um dos que têm menor apelo junto à audiência. Seja pela complexidade dos fatos ou pela falta de relação imediata com o cotidiano do cidadão comum, a realidade é que a grande maioria dos receptores passa incólume pelas matérias que abordam questões envolvendo outras nações. Entretanto, em determinadas ocasiões, há notícias que, devido à força das imagens, causam fortes reações emotivas e passam a chamar a atenção do grande público.

O exemplo mais recente de notícia internacional que comoveu não só o Brasil, mas todo o planeta, refere-se à imagem do menino sírio Aylan Kurdi, de apenas três anos, morto após o naufrágio de uma embarcação de refugiados. Todavia, em ocasiões como essa, ficam explicitadas as limitações da imprensa brasileira em suas coberturas internacionais.

Evidentemente, reconhecemos as dificuldades logísticas e econômicas para que um veículo de comunicação (principalmente na imprensa escrita) mantenha um correspondente permanente nas principais regiões do planeta. Contudo, levando-se em consideração que vivemos em uma época marcada pelo acesso praticamente instantâneo às mais variadas fontes de informação, não faz muito sentido a grande mídia brasileira ainda ser refém dos enquadramentos impostos pelas poderosas agências internacionais, que estão, sem exceção, atreladas às potências hegemônicas e seus interesses. Sendo assim, o alinhamento incondicional e a inevitável reprodução fidedigna do conteúdo jornalístico dos grandes conglomerados jornalísticos do planeta, mais do que qualquer outro motivo, é mera escolha ideológica da imprensa brasileira, prática típica de subserviência a tudo que remete ao “Primeiro Mundo”.

Embora saibamos que os populares veículos de comunicação, como a televisão, não têm a função de necessariamente problematizar notícias, pois seus formatos impedem abordagens aprofundadas, é importante frisar que acontecimentos de forte apelo emocional como o já citado caso do menino sírio e o atentado de 11 de setembro, parecem, sob o prisma midiático, não ter causas, mas somente consequências.

Ora, não há como entender as trágicas mortes de Aylan e de outros refugiados asiáticos e africanos sem nos remetermos às práticas imperialistas das grandes potências globais que transformaram Afeganistão, Iraque e Líbia em Estados falidos e, nos últimos anos, vêm desestabilizando a Síria, mergulhando o país em uma sangrenta guerra civil, com direito à atuação do temido Estado Islâmico.

Lembrando as palavras do professor de Língua Portuguesa, Fabrício Avelino, em conversa informal com o autor deste artigo, a atual crise humanitária não é apenas uma onda migratória rumo à Europa: trata-se de um grande êxodo de potencial mão-de-obra barata, semiescrava, essencial para a reprodução do capital em sociedades envelhecidas, como a alemã. Porém, dificilmente encontraremos tais referências nos principais noticiários internacionais da mídia brasileira.

Um processo de comunicação nefasto

As coberturas internacionais tendenciosas também chegam aos espaços mais importantes para a formação de futuras gerações de cidadãos atuantes: as instituições escolares. Muitos professores (sobretudo na área de Geografia), com o intuito de “dinamizar” suas práticas didáticas, introduzem o material midiático em sala de aula sem, entretanto, fazer a devida crítica ou contextualização histórica. Como bem asseverou o docente da Universidade Federal de São João d’El Rei , Vicente Leão, em sua dissertação de mestrado, o professor, que utiliza o conteúdo midiático como mero recurso pedagógico e não como objeto de estudo, transforma suas aulas em mais uma correia de transmissão para o discurso hegemônico.

Apesar de nos últimos anos a grande imprensa brasileira ter perdido o monopólio na formação da opinião pública nacional com o advento das redes sociais e da chamada “mídia independente”, ela ainda é hegemônica (principalmente a maior emissora de TV do país) na hora de condicionar o pensamento de boa parte dos brasileiros.

Desse modo, temos um nefasto processo de comunicação que começa com a manipulação dos fatos pelas agências internacionais de notícias, passa pela imprensa tupiniquim e culmina na sala de aula, onde muitos docentes acríticos equivocadamente acreditam que estão mantendo seus alunos “atualizados” em relação às grandes questões do mundo contemporâneo.

***

Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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