Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Faltou gás para os negociadores brasileiros

Por Rolf Kuntz em 19/02/2007 na edição 421

A imprensa está ficando impossível. Mesmo os jornais que trataram o governo com boas maneiras, ao noticiar o novo acordo sobre o gás boliviano, destacaram o componente político da negociação e deixaram claro que Brasília cedeu de ponta a ponta. O mais difícil foi explicar que o contrato mudou sem ter mudado.

O Estado de S.Paulo usou a palavra ‘artifício’ na primeira página de sexta-feira (16/2) e contou de uma vez, no título da chamada, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aceitou aumento no preço do gás. O Globo informou, no caderno de Economia, ‘que o contrato não muda e o abastecimento está garantido’. Mas publicou, ao lado do texto, um grande quadro-resumo com os subtítulos ‘o que muda’ e ‘o que não muda’.

A Folha de S. Paulo foi direto à jugular, no título da primeira página: ‘Lula cede à pressão de Morales, e Brasil pagará mais por gás’. O Valor produziu um título para o leitor mais ligado aos detalhes da diplomacia: ‘Política externa define preço do gás’. No final da chamada, um curto parágrafo explicou que ‘a decisão do governo – de interferir na negociação técnica e ceder à pressão de Morales – foi motivada pelas preocupações com a estabilidade política no país vizinho’. O Estadão limitou-se a dar a pista, na primeira página, ao contar que ‘o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, admitiu que o acordo teve um componente `geopolítico´’.

Nos dias anteriores, o Itamaraty havia informado que o presidente boliviano Evo Morales faria uma visita de Estado e que não se trataria da questão do gás. Morales havia ameaçado suspender a visita se o assunto ficasse fora da agenda, e o governo brasileiro fingiu não levar a sério essa conversa. Morales ganhou a parada. Ficou mais tempo que o previsto, envolveu o presidente Lula numa reunião não programada e cancelou a visita protocolar ao Congresso, para continuar discutindo o que lhe interessava. Deu um bolo nos congressistas, que o esperavam com tapete vermelho e guarda de honra, e deu as cartas como quis durante o tempo todo.

Pauteiros e repórteres

A imprensa também deixou clara, na sexta-feira (16) e nos dias seguintes, a diferença entre as informações prestadas pelas autoridades bolivianas e pelo governo brasileiro. Enquanto Brasília divulgou detalhes incompletos e tecnicamente obscuros sobre o novo contrato, os assessores de Morales disseram de uma vez que esperam receber 100 milhões de dólares a mais por ano.

Os jornalistas mostraram trabalho e tiveram dificuldades evidentes na cobertura. O governo brasileiro fez o possível para evitar informações claras sobre o alcance real do acordo e sobre como serão controlados os seus detalhes – por exemplo, o valor calorífico do gás comprado, um detalhe central do novo contrato.

No sábado (17), uma boa matéria do Estadão contou como o governo brasileiro foi levado a engolir as pretensões bolivianas: aceitou para evitar, entre outros problemas, a perda do direito de operação em dois grandes campos de gás. O contrato de outubro, que transformou a Petrobras em prestadora de serviços, já foi uma imposição indigesta e havia o risco de perdas maiores.

Mas os perigos não foram eliminados. O ministro boliviano dos Hidrocarbonetos, Carlos Villegas, anunciou a intenção de rever o contrato de importações da britânica BG para a Comgás. O material do Estadão, no sábado, realçou os detalhes técnicos da ameaça e deixou o lado político em segundo plano. A Folha de S.Paulo preferiu destacar esse outro aspecto, informando, logo no título, que ministro boliviano, de volta a La Paz, disse haver descoberto um contrato feito por baixo da mesa ‘com graves danos para os interesses do país’. Não bastou, portanto, o que o governo brasileiro já cedeu, porque novas pressões poderão surgir e novas concessões serão cobradas.

O presidente Lula continuará a explicar, provavelmente, que o Brasil, por ser maior, deve ser generoso, que o país não é imperialista e que não pretende ser hegemônico – desejo por ele atribuído aos críticos de sua diplomacia econômica. Se os pauteiros e repórteres ficarem ligados, a cobertura do caso Brasil-Bolívia continuará a competir, até com certa vantagem, com as páginas e colunas de humor, graças à generosa contribuição do governo brasileiro.

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