Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > FITAS & VERSÕES

Faroeste sem mocinhos

Por Luiz Antonio Magalhães em 06/04/2004 na edição 271

A divulgação pelo Jornal Nacional da TV Globo, na terça-feira (30/03), de uma fita contendo áudio da negociação entre o subprocurador-geral da República José Roberto Santoro e o empresário do ramo zoológico Carlinhos Cachoeira teve repercussão imediata no plano político. Grosso modo, o tom conspiratório de Santoro em sua tentativa de obter de Cachoeira a gravação que deu origem ao chamado Caso Waldomiro Diniz, com o pedido de propina feito pelo ex-assessor da Casa Civil ao bicheiro, tirou o governo da defensiva e deu ao ex-chefe de Diniz, o ministro José Dirceu, um discurso de vítima. Ainda mais porque Santoro tem uma ligação histórica com o presidente do PSDB e candidato derrotado por Lula, José Serra.

Se no campo político os efeitos foram imediatos, com uma radical mudança de humores em relação à suposta crise política por qual passava o país, pouca gente prestou muita atenção até agora aos significados do making of da fita do Waldomiro do ponto de vista das relações entre a imprensa brasileira e os protagonistas deste lamentável episódio.

A divulgação da ‘fita da fita’ é mais uma prova de que a ‘área cinzenta’ sobre a qual tem escrito Alberto Dines neste Observatório (remissão abaixo) é mais ampla do que se imaginava. Além disto, a nova gravação revela que a mídia, na apuração deste caso, conforme o OI registrou três semanas atrás (remissão abaixo), escondeu mais do que revelou – omissões perigosas, que podem até mesmo colocar em xeque o valor das denúncias publicadas. Entre as omissões mais graves está a de esconder os procedimentos que envolveram a apuração das denúncias, como se verá adiante.

Valor de prova

Para melhor situar o leitor, apresentamos a seguir a versão oficial sobre o aparecimento das fitas, a partir dos depoimentos dos principais protagonistas. Em seguida, vamos comparar tal versão com o que foi possível a este Observatório apurar sobre a divulgação das gravações.

** De acordo com a revista Época, da Editora Globo, na qual foi publicada a denúncia original sobre o Caso Waldomiro (edição 300, com data de capa de 16/2 e que começou a circular em 13/2), tudo começou no dia 4 de fevereiro, uma quarta-feira, quando o senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) teria entregue ao jornalista Andrei Meirelles duas fitas de vídeo – uma delas apenas com imagens, gravada no aeroporto de Brasília, e a outra como áudio e vídeo da negociação entre Cachoeira e Diniz. Ainda segundo a revista Época, o senador tucano teria recebido as fitas ‘cerca de duas semanas’ antes da publicação da matéria e enviado ambas ao Ministério Público Federal, também no dia 4 de fevereiro. Após o recebimento das fitas, Época afirma ter requisitado uma perícia para confirmar a autenticidade e procedido à apuração dos fatos, perdendo portanto a chance de publicar a ‘bomba’ na edição que fechava no dia 6/2. No último lance desta apuração, no início da noite de 12 de fevereiro, a poucas horas do fechamento da edição que começou a circular no dia seguinte, Meirelles entrevistou Waldomiro Diniz e obteve dele a confirmação dos fatos denunciados.

** Antero Paes de Barros, por sua vez, relatou ao OI ‘não se lembrar’ exatamente o dia em que recebeu as fitas, tampouco a data em que entregou o material ao repórter de Época ou ao MPF. O senador tucano também explicou por que não fez nenhum pronunciamento denunciando os fatos que tinham chegado a seu conhecimento: ‘Eu não conhecia o Waldomiro e não sabia se a fita era autêntica’.

** Segundo versão da TV Globo e da revista Época desta semana (edição 307, com data de capa de 5/4), a segunda fita, contendo os diálogos entre Santoro e Cachoeira, foi entregue na semana passada à produção do Jornal Nacional por um intermediário de Carlinhos Cachoeira. O material, segundo a versão do JN, teria sido gravado na madrugada do dia 12 para 13 de fevereiro, mas o subprocurador afirma que a reunião ocorreu na noite do dia 8 e madrugada de 9 de fevereiro. O bicheiro, por sua vez, negou ser o autor desta segunda gravação. A reportagem de Época se viu obrigada a explicar por que Santoro estava – no dia 8 ou 12, a depender da versão – tão interessado em obter de Cachoeira fitas que já possuía. Segundo a revista, o subprocurador precisava que o bicheiro lhe entregasse a fita pessoalmente para que ela tivesse o valor de prova judicial.

Correia de transmissão

Como se pode ver, há diversas lacunas, para dizer o mínimo, na apuração que resultou na divulgação de todas as fitas em questão. Há três semanas, o OI apresentou matéria com uma versão bem diferente dos fatos. A gravação envolvendo Santoro corrobora a versão publicada aqui, de maneira que voltamos à apuração do que ocorreu entre os dias 4 de fevereiro e 30 de março. E, mais uma vez, a história do jornalismo fiteiro não cheira bem, para nenhum dos envolvidos: governo, oposição, mídia e, agora, dois personagens novos: o jornalista Mino Pedrosa, vencedor de Prêmio Esso e atualmente assessor de imprensa do bicheiro Carlinhos Cachoeira, e o advogado em Brasília Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Senão vejamos:

** As gravações envolvendo Waldomiro Diniz são de conhecimento da imprensa há muito mais tempo do que se imagina. Pelo menos um jornalista, da revista IstoÉ, teve acesso a elas já em julho de 2003. O OI apurou que o repórter em questão não recebeu a fita, apenas teve autorização para assistir ao seu conteúdo na época em que a revista publicou a primeira reportagem denunciando Diniz (na edição 1761, de 2/7/03, o ex-assessor é citado por envolvimento com a máfia do jogo clandestino).

** As duas fitas sobre Waldomiro teriam sido oferecidas, antes da publicação em Época, à revista IstoÉ e recusadas pela sua direção em São Paulo. O fato, porém, foi negado pelo diretor da sucursal da revista em Brasília. O OI não conseguiu confirmar quem ofereceu as fitas à IstoÉ – se emissários do procurador Santoro ou do assessor Mino Pedrosa.

** No começo deste ano, Carlinhos Cachoeira teria sido ‘pressionado’ por procuradores que investigam o seu relacionamento com o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB), a colaborar com a Justiça. Se ajudou nas investigações, não se sabe, mas, como se pôde observar nos diálogos com Santoro, decidiu oferecer algo mais explosivo. Assim, a entrega das gravações sobre Waldomiro foi negociada na madrugada do dia 9 de fevereiro e vazadas em seguida (após o oferecimento à IstoÉ) a Andrei Meirelles, um dos jornalistas de Brasília com maior número de fontes no Ministério Público Federal e co-autor, ao lado de Mino Pedrosa, de diversas reportagens investigativas.

** Entre os dias 9 e 12/2, a reportagem de Época autenticou a fita com peritos da Universidade de Campinas. No dia 12, contatou Waldomiro Diniz. Época não revela, mas a entrevista com o então assessor da Casa Civil teria sido realizada no escritório de Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que já defendeu, entre outros, o ministro da Casa Civil José Dirceu, a senadora Roseana Sarney e o banqueiro Salvatore Cacciola. No livro A Era do Escândalo – lições, relatos e bastidores de quem viveu as grandes crises de imagem, do jornalista Mário Rosa (sócio de Duda Mendonça na agência Duda Mendonça & Associados), Kakay comparece com um relato sobre o ‘caso Marka’ e é apresentado como especialista em ‘crises de imagem’.

** Para que a reportagem de Época sobre Diniz pudesse sair sem se tornar objeto de ações judiciais dos envolvidos, entretanto, havia um problema grave: a fonte não poderia ser o assessor de Carlinhos Cachoeira nem o procurador Santoro. Ao senador Antero Paes de Barros, por fim, coube o papel do que o jargão chama de ‘lavar a fonte’ – recurso para a publicação de denúncias cujas origens a imprensa prefere não revelar. Pelo que relatou o senador ao Observatório, é de fato difícil entender as razões que o impeliram a entregar rapidamente ao repórter de Época e ao Ministério Público Federal uma gravação envolvendo pessoas que sequer conhecia.

** Um mês e meio depois de a denúncia contra Waldomiro aparecer em Época, algo ocorreu para que o feitiço da fita virasse contra o feiticeiro. A gravação encaminhada ao Jornal Nacional desmoraliza completamente o subprocurador José Roberto Santoro e seu trabalho no Ministério Público Federal. Por que ela apareceu? Quem fez a gravação? Essas duas perguntas, cruciais, ninguém conseguiu responder até agora. Há uma versão correndo em Brasília (a capital das versões) para essas questões. Segundo informação extra-oficial do perito que autenticou o material para o Jornal Nacional, pelo direcionamento das vozes que a fita revela é altamente provável que a mulher de Carlinhos Cachoeira, presente no encontro, tenha sido a autora da gravação.

** Se a fita estava com Cachoeira, então por que ele ‘mudou de lado’ e decidiu jogar contra aquele que supostamente o protegia, o subprocurador Santoro? De acordo com a mesma fonte que informou a autoria da gravação, Cachoeira foi persuadido pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro de que seria traído por José Roberto Santoro. Objetivamente, esta traição teria começado no dia 29 de março, com a denúncia oferecida pelo Ministério Público contra o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, sob acusação de gestão temerária e fraudulenta, corrupção ativa e passiva e concussão. A denúncia estava relacionada à assinatura de contrato de operação da rede de loterias com a multinacional americana GTech, e iria acabar envolvendo também Carlinhos Cachoeira. Curiosamente, Época saiu a seguinte nota na edição desta semana (coluna Joyce Pascowitch, 5/4/04), intitulada ‘Luau’:

‘Agora que a coisa começou a desafogar um pouco na Corte, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro foi descansar – em Bora Bora, Taiti. Primeiro-amigo de José Dirceu, ele acompanhou pessoalmente todo esse episódio Waldomiro, monitorando até advogados quando necessário’.

Recado cifrado a quem interessa ou nota à toa de coluna social?

Tudo somado, a verdade é que ainda há muita coisa a se descobrir sobre uma crise que nasceu forjada por um integrante da contravenção em conluio com um procurador da República ligado ao presidente de um dos maiores partidos de oposição, com ativa participação de um assessor de imprensa (‘espécie de repórter investigativo de aluguel’, nas palavras de Merval Pereira, do Globo) e da mídia de forma geral, em especial da revista Época.

[Leia resposta do repórter Mino Pedrosa a Merval Pereira, na rubrica Jornal de Debates desta edição.]

Quando tudo começou, numa sexta-feira 13, em fevereiro, o diretor de redação de Época, Aluizio Falcão Filho, escreveu na seção Carta ao Leitor da edição que trazia a ‘bomba’ contra Waldomiro:

‘Este caso (…) é fruto do esforço do repórter especial Andrei Meirelles. Goiano de 51 anos, jornalista há 33, Andrei é um puro-sangue da reportagem, dono de dois prêmios Esso. Ao descobrir a história, usou todo o seu talento para obter uma cópia da fita’.

Com todo o respeito ao repórter Andrei Meirelles, o andar da carruagem mostra que se há algo que não se pode dizer neste episódio é que ele foi fruto de algum esforço de reportagem.

A julgar por todos os fatos e também pelos não-fatos, trata-se de exemplo acabado do que Alberto Dines há tanto tempo denuncia como ‘jornalismo fiteiro’ – aquele em que a imprensa recebe no colo as denúncias e, muitas vezes irresponsavelmente, ou por conta de interesses particulares (próprios ou de grupos políticos), as acolhe sem a necessária e zelosa checagem dos fatos.

No campo político, emerge a óbvia constatação de que há algo de muito podre envolvendo a contravenção, o Ministério Público, oposição e governo. Ninguém sai ileso nessa história, não há mocinhos neste faroeste. Do ponto de vista da imprensa brasileira, a impressão que fica também não é nada boa. Pelo contrário, ela aparece como correia de transmissão ora da contravenção, ora de um procurador que conspira abertamente contra a democracia e contra um governo legitimamente eleito, ora deste mesmo governo, que também sabe usar a imprensa. [Finalizado às 9h26 de 6/4/04]

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