Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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Festa no país do futuro

Por Alberto Dines em 04/10/2009 na edição 557

Enfim, está garantido o amanhã. Pelo menos até 2016. Mais uma vitória de Lula – ele é ‘o cara’. Bateu o casal Obama, os reis de Espanha e o imperador do Japão. Pela primeira vez uma cidade sul-americana vai abrigar os Jogos Olímpicos.


O Rio de Janeiro será nos próximos sete anos a nova Olympia. A estátua de Zeus (o rei dos deuses), infelizmente destruída há quase dois mil anos, já tem substituta – o Corcovado. A Rocinha troca de lugar com o Monte Olimpus.


Ninguém segura este país – a frase é velha, batida? Não há nada de novo sob o sol, o rei Salomão sabia das coisas. O que importa não é a euforia de ontem, mas a de hoje. Dos sofridos cariocas, principalmente. Até os paulistanos engoliram o habitual despeito, certos de que a vai sobrar para eles.


Vibraram também todos os lobistas, falsos consultores, atravessadores, intermediários e prevaricadores do país. Se as ações das milícias que controlam a segurança do Rio fossem cotadas na Bolsa de Valores teriam uma fenomenal valorização. A delinqüência – pequena, média, grande e super-grande – está comemorando os sete anos de vacas gordas que vêm por aí. E com elas mais um empurrão em direção da prosperidade. A ilicitude distribui riquezas mais rapidamente do que a legalidade.


Fúria eleitoreira


Gloriosa sexta-feira, porém o dia anterior foi nefasto. O vazamento das ultra-secretas provas do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) mostra como o país é vulnerável às infrações: o crime ganha todas as paradas.


Cerca de quatro milhões de estudantes foram lesados. O primeiro cronograma sério de suas vidas deverá ser refeito, o salto à frente que deveriam dar neste fim de semana foi adiado. O passo adiante, atrasado. A elite pensante, safra 2009, começa a sua existência em clima de ressaca, obrigada a encarar a dura realidade: a torpeza se impõe em todos os quadrantes – na mesa do Senado, no Tribunal de Justiça de Brasília, em cada contencioso onde se enfrentam a decência e a indecência, esta ganha de goleada. Inclusive nos esportes ditos olímpicos.


O ministro da Educação Fernando Haddad é competente, sério, idealista, responsável, rigorosamente transparente. Suas preferências partidárias não interferem nas opções administrativas e técnicas. É, junto com o ministro da Saúde, uma exceção. Mas o que se vê por aí é uma desbragada orgia, o culto ao vale-tudo com as bênçãos de ideologias que até agora só produziram fiascos justamente porque menosprezaram a justiça e a legalidade.


Além do prejuízo aos estudantes, o país jogou pela janela 35 milhões de reais. Com o mesmo descaso com que compra submarinos e aviões de combate pelo dobro do preço. O contribuinte não vai para a rua reclamar porque ele sonega o quanto pode. A recente crise na Receita Federal mostra como são comprometidos pela política os nossos sistemas de controle. O atual confronto entre o Tribunal de Contas da União e os gerenciadores do PAC desnuda a fúria eleitoreira que comanda o processo decisório brasiliense e, por extensão, o brasileiro.


Vibração patriótica


O vazamento das provas do Enem ainda não foi devidamente explicado. Espera-se que não caia no esquecimento e os seus responsáveis não sejam premiados com sinecuras no exterior. Por enquanto sabe-se que foi obra de amadores. Amadores que conseguem anular um elaborado sistema de sigilo, certos de que embolsariam meio milhão de reais em troca da desmoralização do governo.


O comentarista Luiz Weis designou-os como ‘aloprados’ numa alusão aos que há três anos inventaram um dossiê para incriminar a oposição às vésperas do pleito presidencial (ver aqui). Em 2006, o semanário IstoÉ foi na onda daqueles malucos. Os de agora imaginaram que o Estado de S.Paulo faria o jogo sujo e, se recusasse a primícia, a ofereceriam a uma rede de TV.


A imprensa saiu-se bem neste episódio. Espera-se que saiba resistir à vibração patriótica acionada a partir de Copenhagen. Sediar a Copa do Mundo e, logo em seguida, as Olimpíadas são maravilhosas oportunidades para estimular nossa capacidade gerencial. Convém não perder de vista os vazamentos, a imoralidade e a hipocrisia.

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