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Domingo, 19 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Fim de ano: nossos sonhos não foram verdades

Por Robson Terra em 23/12/2008 na edição 517

Há mais de trinta anos no ar, a mensagem de final de ano da Rede Globo é esperada pela audiência com ansiedade, pois, despidos de personagens, os atores surgem em carne e osso numa edição que incensa os mais cotados no cast global. Em 2008, a emissora convidou o telespectador para participar da mensagem, na busca desesperada da interatividade, que pode ser a salvação da audiência. Dizia o convite: ‘Um novo tempo. Basta enviar seu vídeo pela internet (leia aqui o regulamento) até o dia 15 de dezembro e ele poderá ser escolhido para embalar na telinha a mensagem de otimismo para o ano que está chegando. Seja criativo, capriche e faça bonito. Mas é para cantar a música sem errar a letra, hein? Como a festa é sua e de quem vier, todo mundo é muito bem-vindo.’ Eu quase mandei…

Claro que o Brasil inteiro se comoveu e deve ter promovido uma avalanche de clipes diversos para fulgurar na telinha da TV. Porém, às portas do Natal, os telespectadores estão vivenciando o que Leon Festinger, em 1957, chamou de ‘dissonância cognitiva’. É, mais ou menos, a sensação do sapatinho vazio ao pé da árvore, na manhã do dia de Natal. Manda-se a cartinha e o presente não chega. Cria-se uma expectativa que não é correspondida e é preciso inventar um paliativo emocional para aliviar a frustração. Ou seja, poucos ou quase ninguém se viu na telinha da TV. Nas comunidades da internet são muitos os lamentos de telespectadores, deboches de céticos, protestos e alguns esperançosos de ainda surgirem no vídeo junto aos astros e ‘deuses’ globais. O trenó global ainda pode cruzar o céu da emoção brasileira…

Justificação e alteração das crenças

Outros amargam a sensação de ‘se ver sem ser visto’, pois a edição da campanha de final de ano não permite a identificação de quem é quem. As bolas da árvore global surgem nos intervalos da programação em edição narcotizante, numa velocidade que não permite a percepção das pessoas. Críticos citam que na edição escolheram as cenas desfocadas e sem tratamento de imagem. As pessoas sentem a necessidade de se mostrarem consistentes nas suas ações e atitudes perante os outros, mas também perante si mesmas. Quem mandou as cenas e não se vê está perante uma situação de inconsistência percebida. Gera-se uma situação de desconforto psicológico, denominado de ‘dissonância cognitiva’, que se torna necessário corrigir.

‘Uma das formas mais simples de causar dissonância em alguém é colocá-lo a fazer algo que entre em conflito com aquilo que defende, mas de uma forma que não seja imposta ou que não envolva a troca de incentivos. Quando mais tarde confrontada para com a inconsistência das suas ações, essa pessoa procurará encontrar uma justificação para aquilo que fez, sendo que essa justificação poderá ser dada a si mesmo ou a outros.’ Essa justificação poderá representar uma alteração nas crenças dessa pessoa no sentido de ir ao encontro com o pretendido pelo convite da Rede Globo.

Internet e consolo

O alívio para a frustração pode estar no site da emissora carioca, onde alguns vídeos estão publicados. Na telinha poucos fulguram e são praticamente ignorados. Há alguns natais que a campanha de final de ano não emociona. Em 2007, com os bonequinhos animados em 3D, o resultado foi frustrante. Esse ano, dissonante. Como afirmou a jornalista Izabel Gomes, ‘não existiu’. Tanto é que, ao reforçar a divulgação da programação natalina, a emissora carioca fez um clipe com as atrações especiais. Os rostos famosos surgem em thriller nervoso para compensar a frustração de quem pretendia ver seus ídolos ou experimentar um dia de príncipe ou princesa na televisão.

Quem não se viu na tela da Globo, corre para o portal e seu filme pode estar lá. Rejeitados na tela da TV, de penetração aberta, massiva e domiciliar, também são cativos da emissora na telinha no computador. Menos mal. A internet promove o momento mágico no Natal que permite aos simples mortais a relação com o mundo da ‘aldeia global’, evoca evolução e resgata a dignidade dissonante que o convite da televisão produziu. A dissonância com a TV é cada vez maior. A culpa é da Flora?

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Jornalista, professor universitário e mestrando em Comunicação e Tecnologia

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