Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > É TUDO IMPROVISO

Finalmente uma novidade no ar

Por Laurindo Lalo Leal Filho em 02/02/2010 na edição 575

Há um ar de tragédia nas tardes de domingo no Brasil. Milhões de pessoas, sem nada mais o que fazer, são condenadas a ficar diante da TV sofrendo um massacre ideológico que dura décadas. Programas de auditório aparentemente ingênuos destilam uma carga poderosa de valores que vão moldando a sociedade. As peças de resistência são sempre as mesmas: individualismo através de disputas por prêmios, violência com a espetacularização de tragédias, apelo fácil ao sexo nas pobres letras musicais e exaltação daqueles que se tornaram celebridades graças à própria TV fechando um círculo de ferro do qual não há saída.

No penúltimo domingo de janeiro (24/01), o Domingão do Faustão gastou longos minutos com a entrevista de um astro do Vale Tudo, entremeada de cenas do suposto esporte. Assim como os participantes do Big Brother já foram chamados pelo apresentador de ‘heróis’, esse ‘AZ’ da violência recebia tratamento semelhante. E assim vão se formando os padrões de sucesso em nossa sociedade.

À violência seguiu-se o sexo, encarnado por um paupérrimo conjunto musical. Cantavam uma letra referindo-se, sem qualquer refinamento, à possibilidade de atos sexuais perpetrados por seres ainda distantes da civilização. Completava-se mais uma vez a forma infalível de busca pela audiência: sexo e violência. Ou sobre a perpetuação da espécie e o medo de sua extinção. Algo que qualquer ser humano entende pelos sentidos, não necessitando maiores reflexões. E, com isso, a audiência do domingo está ganha e dominada.

Quem são os improvisadores?

Mas de vez em quando surge, ainda que muito raramente, alguma surpresa na TV brasileira. Em janeiro, entre os muitos programas em férias, estava o CQC, fórmula argentina trazida para o Brasil onde se especializou em ridicularizar parlamentares e contribuir para o descrédito da atividade política. Para substituí-lo temporariamente, a Bandeirantes trouxe um conjunto de atores-humoristas inteligentes que já faziam sucesso em alguns teatros de São Paulo e colocou no ar o programa É tudo improviso. Foi como se uma onda de ar puro sacudisse a empoeirada TV comercial brasileira.

A base do programa é o improviso, arte que pude constatar ao vivo num teatro da Vila Madalena em São Paulo. Lá, o pequeno grupo de atores solicitava temas à platéia e a partir deles desenvolvia quase duas horas de espetáculo, chamado Caleidoscópio, sem deixar cair a peteca. Na TV, o princípio é o mesmo, mas o programa é gravado e editado para não fugir ao ritmo do veículo adotado no Brasil e aos inefáveis intervalos comerciais.

Vale a pena saber quem são esses improvisadores. A condução do programa é de Márcio Ballas, com as presenças de atores e atrizes dos grupos ‘Os Barbixas’ (Anderson Bizzocchi, Daniel Nascimento e Elidio Santos), ‘As Olívias’ (Cristiane Werson e Marianna Armellini) e ‘Jogando no Quintal’ (Marco Gonçalves), este último fundado pelo próprio Ballas e dono de longas temporadas de sucesso no Tuca, em São Paulo. A direção de Tadeu Jungle deixa o espetáculo correr solto, com a platéia sempre em cena.

Elevar a salubridade mental

Fazer humor sem apelações baratas não é fácil. Por isso essa troupe merece ser saudada e estimulada. Como fez, com precisão, no Correio Braziliense, o jornalista Mauro Trindade: ‘A despeito de qualquer problema de adaptação para a nova mídia, É tudo improviso renova-se a cada quadro e não se repete nos bordões que marcam os humorísticos tradicionais da TV. É um humor ingênuo, simpático e que não apela para os manjados personagens gays, maridos traídos ou para palavrões. Escorregar numa casca de banana é coisa para grandes mestres.’

Além do humor inteligente, o grupo já demonstrou competência para conduzir com sucesso um grande auditório. Talvez esteja aí a saída tão ansiada do beco para o qual foi empurrado o telespectador do domingo brasileiro. Tenho certeza de que soltos e ao vivo esses atores-humoristas segurariam com categoria uma tarde inteira de programa (de preferência numa TV Pública, sem comerciais) e, com isso, ajudariam a elevar um pouco o grau de salubridade mental de nossa sociedade, ainda movida fundamentalmente pela televisão.

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Sociólogo, jornalista e professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão (Summus Editorial)

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