Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 25 E 26/11

Folha de S. Paulo

29/11/2006 na edição 409

MÍDIA vs. PT
Fábio Zanini

Mídia contra Lula perdeu eleição, diz Garcia

‘Presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia, 65, diz que o partido e seus aliados vão precisar de muito mais do que os oito anos de mandato de Luiz Inácio Lula da Silva para mudar profundamente o país.

Ecoando o ex-ministro Sergio Motta (morto em 1997), que queria 20 anos para o PSDB no governo federal, Garcia afirma à Folha ser necessário ficar uma geração no poder.

‘Uma mudança não se faz em oito anos, ou quatro. País com um passivo social como o nosso precisa de uma geração para encontrar a embocadura do ciclo prolongado de crescimento’, afirma o petista.

Com a presença de Lula, o PT reúne hoje e amanhã, em São Paulo, seu diretório nacional, para debater os próximos quatro anos.

Apesar de aceitar a maior presença do PMDB e outros aliados no governo federal, Garcia avisa: é contra a chamada ‘porteira fechada’ -já prometida pelo ministro Tarso Genro (Relações Institucionais)-, pela qual o partido que recebe uma pasta faz todas as indicações dela. A ‘infiltração’ petista em feudos de outros partidos é o que mais incomoda aliados e esteve na origem da crise do mensalão.

Na linha de frente da crítica à mídia, Garcia diz que ela foi derrotada e admite ‘espanto’ ao ver publicidade oficial em veículos críticos ao governo.

‘Confesso que fico espantado quando vejo revistas, que se transformaram em órgãos de difamação política, entupidos de propaganda oficial.’

O petista critica ainda o Banco Central pelos juros e chega a admitir estudar mudanças nas regras da Previdência, mas em seguida recua. ‘Não admito.’

Sobre os escândalos de petistas, afirma: ‘O PT não recruta seus quadros em mosteiros’. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

FOLHA – O PT aceita o crescimento do PMDB no governo?

MARCO AURÉLIO GARCIA – Acho positivo se o PMDB puder ter participação não mais setorial, tangencial, mas participação mais ampla. Mas vou recusar a discussão quantitativa. Acho isso secundário.

FOLHA – Será que o PMDB também acha?

GARCIA – Basicamente vai ter que se colocar qual a adesão ao governo, quais são os quadros, até porque não é uma participação qualquer. Seja quem for, PMDB, PSB, PT, tem que ser qualificada.

FOLHA – Lula então pode recusar nomes levados pelo PMDB?

GARCIA – O presidente sempre tem esse poder.

FOLHA – A partilha de cargos foi um dos grandes problemas do mandato. Há uma reivindicação antiga dos partidos de que haja ‘porteira fechada’ nos ministérios. Isso vai acontecer?

GARCIA – Minha opinião é que pode ocorrer, mas não deve ser um critério, ainda que o ministro tenha incidência muito grande na escolha. Ocorre com freqüência ter pessoas com muita qualificação, que podem ocupar um cargo de destaque num ministério, autarquia.

FOLHA – Mas esse é o DNA do escândalo do mensalão. Começou como disputa pelo fatiamento dos Correios. Não é receita para mais problemas no futuro?

GARCIA – No caso dos Correios, as coisas entornaram porque vários nomes que tinham sido propostos não foram aceitos, não eram pessoas consideradas com idoneidade. Foi uma das razões pelas quais a fúria de um determinado personagem [o ex-deputado Roberto Jefferson] se desencadeou.

FOLHA – Por que o sr. briga tanto com a imprensa?

GARCIA – A imprensa é que tem brigado comigo. Sempre que eu dou uma opinião que não corresponde à pergunta, que muitas vezes é uma tese, as pessoas caracterizam minha opinião como ‘visivelmente irritado’.

FOLHA – Mas quando o sr. disse ‘cuidem de suas redações que nós cuidamos do PT’, o sr. estava irritado?

GARCIA – Não me lembro estritamente do contexto, mas naquele momento havia uma cobrança sobre determinados aspectos da vida interna do PT, que eu achava que podiam se aplicar à vida interna das redações. Foi um comentário lateral, que, se for o caso, eu retiro. Agora, quem ficou muito irritada foi a imprensa quando eu disse que ela deveria fazer uma reflexão.

FOLHA – O que é ‘democratizar a mídia’? O sr. pode traduzir?

GARCIA – É ter uma imprensa menos monocórdia. Eu acho que alguns problemas vão se resolver da forma que a imprensa acha que se resolve, através do mercado. Uma parte da imprensa hoje perdeu enormemente a credibilidade. Ela se posicionou fortemente contra a candidatura Lula e foi derrotada nessa eleição. Se você ouvir determinadas rádios, vê três ou quatro comentaristas que se seguem, batendo sempre na mesma tecla. Me diga algum comentarista, ao não ser um ex do seu jornal, o [Luís] Nassif, que hoje tenha uma posição diferente. O Vinicius [Torres Freire, colunista da Folha], talvez. Nem sempre ele está nessa linha, o Vinicius é uma pessoa mais independente. Mas a imensa maioria dos comentaristas de economia vem da mesma malta.

FOLHA – É deixar para a mão invisível do mercado então?

GARCIA – Não é só isso. A única mão invisível que funciona no Brasil é a do batedor de carteiras [risos].

FOLHA – Deve haver mudança no critério para distribuição de verbas oficiais de publicidade?

GARCIA – Deve haver um critério amplo. Confesso que fico espantado quando vejo revistas, que se transformaram em órgãos de difamação política, entupidos de propaganda oficial. As revistas deveriam refletir sobre isso.

FOLHA – O governo também?

GARCIA – Acho que sim.

FOLHA – Por que o Brasil cresceu tão pouco no governo Lula?

GARCIA – Tivemos que cumprir um roteiro de política macroeconômica que dificultava muito o ritmo de crescimento maior. Algumas correções poderiam ter sido feitas anteriormente, e nos teriam permitido crescimento mais expressivo.

FOLHA – O BC errou na dose?

GARCIA – Eu acho que um pouco, um pouco. Mas no fundamental a política econômica foi a que deveria ter sido adotada. Eu teria reparos no que diz respeito à dose.

FOLHA – Henrique Meirelles tem condições de ficar?

GARCIA – Não vou opinar, porque a minha opinião pode derrubar até Wall Street. Ou até gerar euforia. Vou poupar o capitalismo disso.

FOLHA – Como crescer 5% sem cortar gastos?

GARCIA – Se você disser onde tem que cortar eu opino. Os que tenho ouvido pesam sobre o andar de baixo.

FOLHA – Uma reforma da Previdência também?

GARCIA – Evidentemente. Se você examinar os débitos [das empresas] com a Previdência, é mais do que o déficit. Por que vamos mudar a idade mínima se tem gente fraudando a Previdência, sonegando? Se essas coisas não derem certo, vamos estudar outras medidas. Não vamos mexer nas regras enquanto não fizermos isso.

FOLHA – Esgotadas as medidas administrativas, pode haver mexida nas regras?

GARCIA – Se eu lhe disser isso, amanhã a Folha (…)

FOLHA – O sr. acabou de dizer.

GARCIA – (…) vai dizer: presidente do PT admite reforma. Não admito.

FOLHA – Estourou mais um escândalo petista [a prisão do deputado eleito Juvenil Alves, de MG]. Sempre que isso acontece vocês dizem que é um caso isolado. Deve ser o décimo ‘caso isolado’ no último ano. Não é um problema sistêmico do partido?

GARCIA – Com todos os partidos. O PT não está recrutando seus quadros em mosteiros nem conventos. O problema da ética não está no fato de ocorrerem situações como essas, mas no fato de que elas sejam detectadas e que haja punição.

FOLHA – Em 2010 o PT vai ter que encontrar um novo candidato a presidente. Como superar a ‘Luladependência’?

GARCIA – Não estou pensando nisso ainda. Terei grande empenho em que o PT tenha o seu candidato. Mas se não tiver, pode se associar a outra candidatura.

FOLHA – Durante a campanha se falou que quatro anos não eram suficientes para o PT mudar o país. Quanto é preciso?

GARCIA – Uma mudança não se faz em oito anos, ou quatro. País com um passivo social como o nosso precisa de uma geração para encontrar a embocadura do ciclo prolongado de crescimento.

FOLHA – O sr. está repetindo o [ex-ministro das Comunicações] Sergio Motta, que queria o PSDB 20 anos no poder?

GARCIA – Não estou dizendo que o PT deva ficar [no poder]. Estou dizendo que precisamos do movimento de uma geração para transformar o país, e gostaria que o PT tivesse papel protagônico. Quem decide é a sociedade.

FOLHA – O que o PT vai pedir ao Lula hoje na reunião do diretório nacional?

GARCIA – O PT vai ouvir o Lula e vai dizer que está disposto a construir uma relação melhor com o governo. Isso vai se dar em duas dimensões. Nós temos uma responsabilidade de mobilizar os movimentos sociais para dar uma sustentação maior ao governo. Em segundo lugar, o partido tem a obrigação de fazer chegar ao governo sua opinião sobre os mais variados temas. Nas duas coisas fomos um pouco omissos no primeiro mandato.

FOLHA – O PT vai ter que pôr dinheiro do partido para fechar as contas de Lula? O presidente tem que entregar a prestação de contas na próxima semana…

GARCIA – Acho que a gente vai conseguir resolver, não sei se consegue resolver tudo imediatamente, mas acho que vai conseguir. O PT interaria se houver problema.’



PRÊMIO CNT
Folha de S. Paulo

Folha recebe o ‘Prêmio CNT de Jornalismo’

‘As repórteres Elvira Lobato, Janaina Lage e Maeli Prado, da Folha, venceram a categoria principal do ‘Prêmio CNT de Jornalismo 2006’. A reportagem escolhida pelo júri da Confederação Nacional de Transportes foi ‘Vícios de gestão afundaram a Varig’, que também contou com a colaboração de Leo Gerchmann, da Agência Folha em Porto Alegre.

Em 23 de abril, a equipe da Folha mostrou como os vícios de má gestão e o corporativismo levaram à crise que culminou, neste ano, com a redução das operações da empresa e a venda da Varig em um leilão, realizado em julho.

Nas categorias específicas do prêmio foram selecionados os trabalhos a seguir: Televisão – Lúcio Sturm, da TV Record, com a reportagem ‘Brasil sobre Rodas’; Mídia Impressa -Elaine Gaglianone e equipe de ‘O Dia’ com a série ‘Fique Vivo’; Internet – Sabrina Valle, de ‘O Globo Online’, com ‘Governo investe mais na indústria automobilística do que em metrô’; Fotografia – Carlos Eduardo Gomes e Souza, ‘Correio Braziliense’, com a foto ‘O Vôo’; Rádio – Fabíola Cidral, da CBN, com a série ‘Taxistas: Histórias de bastidores’. A festa de entrega será no próximo dia 6, no Marina Hall, em Brasília.’



EUA / MIAMI HERALD
Vinícius Queiroz Galvão

Cartunista armado invade ‘Miami Herald’

‘Um homem com roupa camuflada e armado com um punhal e um revólver aparentemente de brinquedo invadiu ontem a sede do jornal ‘The Miami Herald’. O cartunista José Varela, nascido em Cuba, exigia a presença de Humberto Castelló, editor-executivo da versão hispânica do jornal, ‘El Nuevo Herald’, supostamente para acertar dívidas da publicação. O prédio foi esvaziado, e ninguém foi ferido. O cartunista foi preso.

A região do ‘Miami Herald’ foi interditada, e Varela foi isolado no sexto andar até a rendição. O episódio, que começou às 11h locais, durou três horas e meia. Segundo testemunhas, o cartunista entrou agitado e gritando por Castelló, que não estava.

Alguns repórteres permaneceram na Redação para cobrir a história. ‘Ele dizia em espanhol que era o novo diretor do jornal e que havia problemas no pagamento’, afirmou a jornalista Pamela Vinson.

Este é o segundo incidente no ‘Miami Herald’ em um ano em meio. Em julho de 2005, Arthur Teele, ex-servidor da Prefeitura de Miami, entrou no saguão do jornal e, após conversar com um repórter por telefone, matou-se com um tiro na cabeça.’



TELECOMUNICAÇÕES
Elvira Lobato

Disputa interna causou troca na Telefônica

‘Uma disputa interna de poder foi o estopim para o afastamento do presidente do grupo Telefônica no Brasil, Fernando Xavier Ferreira, anunciado anteontem pela empresa. Segundo executivos do mercado, houve um confronto entre Xavier e o atual presidente do conselho de administração da Vivo, Manoel Amorim.

A direção da Telefônica informou ontem à tarde à Folha que rescindiu os contratos de trabalho de Amorim, mas ele continua na presidência do conselho da Vivo, onde tem mandato de três anos. A Vivo é uma associação entre a Telefônica e a Portugal Telecom -cada uma tem 50% do capital.

Antes de ser presidente da Telefônica, Xavier foi secretário-executivo do Ministério das Comunicações no governo FHC. Ele deixa a presidência da empresa em janeiro.

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, negou que Fernando Xavier estivesse sem interlocução no governo Lula -o que poderia ter influenciado para seu afastamento. Costa disse que teve 15 reuniões com Xavier no ano e meio em que está no cargo, e que o executivo várias vezes representou as concessionárias de telefonia fixa nas discussões sobre telefone social, conversão de cobrança de pulso por minuto e sobre o veto da Anatel à participação das teles na banda larga sem fio.

A Telefônica está sob fogo cruzado do ministro Hélio Costa por ter lançado o serviço de televisão por assinatura via satélite, em parceria com a empresa nacional DTHI, de São Paulo. A empresa sustenta que o serviço tem amparo legal, enquanto Costa reclama que a empresa não consultou o governo antes de firmar a parceria com a DTHI. Mas, segundo Costa, a oposição ao projeto não interrompeu o diálogo do governo com a empresa.

A Telefônica afirma não haver relação entre a saída de Xavier -que seguirá compondo o conselho da empresa- e o desgaste sofrido com o ministro devido ao lançamento da TV por assinatura.

A empresa alega que não faria sentido tirar o presidente para ficar bem com o ministro e, ao mesmo tempo, manter o lançamento do produto, foco da irritação de Costa.

Manoel Amorim teria extrapolado suas funções de presidente do conselho de administração da Vivo e batido de frente com o presidente da empresa, Roberto Lima, e com Xavier. Amorim está em Nova York e afirmou, anteontem, ao jornal ‘Valor’ que desconhecia a informação de que estava deixando o grupo.

Ex-diretor-geral da Telefônica, Amorim foi o segundo homem na hierarquia do grupo no Brasil até março, quando passou a dirigir área de telefonia residencial da Telefônica Internacional. Ele voltou para o Brasil em setembro e substituiu Xavier na presidência do Conselho de Administração da Vivo.

A saída de Fernando Xavier estava programada há algum tempo, e o governo foi informado do fato há dois meses. O conflito interno de poder acelerou os fatos. A substituição foi decidida pelo presidente da Telefônica Internacional, José Maria Alvarez-Pallete.

O substituto de Xavier, o engenheiro Antonio Carlos Valente, foi conselheiro da Anatel até junho de 2004, e funcionário do sistema Telebrás. Ele parte do grupo que assessorou o ministro Sérgio Motta (morto em 1998) na privatização da Telebrás. Foi Motta que o nomeou conselheiro da Anatel.

Segundo executivos do setor, Valente foi escolhido por ter tido bom desempenho na presidência da Telefônica no Peru, que enfrentava problemas de regulamentação ainda maiores do que no Brasil.’



***

Costa tentará barrar projeto de TV da empresa

‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa, disse ontem que fará tudo para impedir que a Telefônica leve adiante o projeto de TV por assinatura via satélite, em parceria com a empresa DTHI Interactive, de São Paulo. O serviço foi lançado anteontem em Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

No entendimento do ministro, mesmo que a Telefônica tenha feito apenas uma parceria comercial, sem participação acionária na DTHI, o serviço não poderia ter sido lançado sem que o ministério fosse informado do conteúdo da programação.

Hélio Costa disse que recomendou à Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) não autorizar a parceria da Telefônica com a DTHI. Mas a agência informou à Folha que não há impedimento legal para as parcerias e que não pode haver veto prévio, como defende o ministro.

A Telefônica encaminhou à Anatel pedido de licença para lançar um serviço próprio de televisão por satélite, que está em análise na Anatel e só deve ser julgado pelo conselho em janeiro próximo. Paralelamente, apresentou à Anatel e ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) o projeto de parceria comercial com a DTHI.

Segundo a Anatel, caberá ao Cade julgar se a parceria é prejudicial à concorrência no mercado de TV paga. Houve forte reação contra a parceria, por parte das demais operadoras de TV paga. A ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura) chegou a declarar que a parceria com a DTHI era fachada para o ingresso da companhia telefônica no mercado, porque não teria porte financeiro para arcar com a operação.

Ontem, o diretor-executivo da ABTA, Alexandre Annemberg, recuou das acusações que tinha feito. Disse que se reuniu com o presidente da DTHI, Hélio Barroso, e afirmou que não há indícios de que a Telefônica tenha um relacionamento com a empresa além da parceria anunciada.

Comissão

Hélio Costa declarou que a DTHI tem licença para transmitir TV via satélite, mas todo e qualquer assunto relacionado a conteúdo tem de passar pelo ministério. Ele admitiu até a possibilidade de ir à Justiça para impedir o serviço.

O ministro disse que sugeriu à Telefônica que aguarde 60 dias, até a conclusão do grupo de estudos criado para rediscutir a regulamentação da TV paga via satélite para lançar o serviço. Afirma que a empresa alegou que age dentro da lei.

O presidente da DTHI, Hélio Barroso, sustenta que a Telefônica não tem poder de decisão sobre o serviço lançado e que apenas usará sua estrutura para comercializar o produto. Segundo Barroso, as concorrentes reagiram porque a empresa reduziu os preços.

Guerra das teles

Depois que o grupo mexicano Telmex (controlador da Embratel) comprou participação significativa na Net Serviços, as grandes concessionárias de telefonia fixa local (Telemar, Brasil Telecom e Telefônica) passaram a pressionar para também entrar no mercado.

O ministro Hélio Costa diz que o caso da Embratel é diferente, porque ela não tem monopólio de mercado, como as teles fixas.’Reconheço que as teles ficaram em desvantagem, mas não há impedimento legal para a Embratel ser acionista de TV a cabo’, afirmou.’



LOBBY & DEMOCRACIA
Editorial

Disciplinar o lobby

‘‘EU MESMO esperava mais’. De autoria do deputado Alberto Fraga (PFL-DF), a frase ilustra à perfeição o ambiente de promiscuidade entre grupos de interesse privado e o poder público no Brasil. Líder da ala conhecida como ‘bancada da bala’, por rejeitar a proibição do comércio de armas de fogo, Fraga recebeu R$ 282,5 mil de empresas de armamentos e munição para financiar sua campanha eleitoral. Achou pouco.

Em situação semelhante encontram-se ao menos 36 deputados federais reeleitos em outubro. Todos estiveram envolvidos em comissões ou relataram projetos de lei sobre temas relacionados ao interesse de parte dos doadores de suas campanhas.

Setores que ocupam fatias expressivas do mercado e encontram-se sob ameaça de eventuais alterações na legislação tendem a ser os contribuintes mais generosos. Não à toa, empresas fabricantes de bebidas alcoólicas, tabaco e armas lideram a lista de patrocinadores: juntas, distribuíram R$ 13 milhões no último pleito e ajudaram a eleger 12% do Congresso Nacional.

A prática do lobby não envolve necessariamente ilícitos. O Código de Ética da Câmara não proíbe ao deputado a participação em comissões formadas para deliberar a respeito de assuntos de interesse de seus financiadores. Tampouco estabelece limites para doações ao parlamentar por grupos eventualmente beneficiados por sua atuação.

A pressão de empresas e organizações sobre a atividade parlamentar é constitutiva dos regimes democráticos nos países mais desenvolvidos. Exercida de modo transparente, pode representar papel importante na materialização de anseios legítimos da sociedade civil. Por esse motivo, é preciso haver regulação clara sobre a atividade e um mapeamento explícito das forças em disputa. Justamente o contrário do que ocorre no Brasil.

O sistema eleitoral organiza-se de forma a encobrir os esteios financeiros dos parlamentares, não raro mais úteis para compreender suas inclinações do que a filiação partidária. Embora parcela expressiva dos congressistas atue afinada a interesses corporativos, a escassez de normas favorece o escamoteamento dessas ligações -e, por extensão, o clientelismo e a corrupção.

Por mais avanços que tenha representado, a prestação de contas pela internet ainda contribui pouco para elucidar os laços entre políticos e financiadores.

Uma brecha na lei, por exemplo, permite às empresas doar recursos aos partidos em vez de repassá-los diretamente aos candidatos. Com isso, o nome da instituição só vem à tona na internet seis meses após as eleições: até lá, é a sigla que aparece como doadora na prestação de contas dos candidatos. Em virtude desse detalhe capcioso, seguem ocultos os responsáveis pela doação de R$ 66 milhões para campanhas de 2006.

Nos Estados Unidos, a legislação determina as situações em que empresas ou organizações podem fazer lobby sobre o Congresso e o governo. O Brasil faria bem se seguisse o exemplo.’



ENTREVISTA / CARLOS HEITOR CONY
Paula Cesarino Costa e Sylvia Colombo

Em busca do contraponto

‘No pequeno escritório próximo ao largo do Machado, no Rio de Janeiro, Carlos Heitor Cony, 80, dá as costas para o computador. Física e mentalmente. Depois de ter terminado um romance em apenas dez dias -o escritor é famoso pela sua rapidez – Cony disse ter ficado esgotado e está dando um tempo dos teclados.

O resultado dessa sua última maratona é ‘A Morte e a Vida’, romance sobre a eutanásia, que será lançado no mês que vem.

Autor de mais de 30 livros, entre romance, crônica, jornalismo e ensaios biográficos -sem contar os infanto-juvenis-, Cony terá, a partir deste mês, suas obras completas de ficção relançadas pela Alfaguara -selo da editora Objetiva. O primeiro relançamento, ‘Quase Memória’, chega às livrarias nesta semana.

Em entrevista à Folha, Cony contou que uma recente temporada passada no hospital, onde recuperou-se de uma cirurgia, proporcionou-lhe uma nova forma de inspiração: ‘Fiquei muito tempo olhando o teto. O teto inspira muito, qualquer teto. É uma tela onde eu projeto meus filmes’.

E o que deve sair dessa atual temporada de contemplação do teto? Cony diz que será um romance no qual quer encontrar o seu ‘contraponto’. E explica usando o exemplo do compositor Palestrina [Giovani Pierluigi da Palestrina (1525-1594)]. O músico romano introduziu o contraponto na música, no século 16, dando-lhe profundidade a partir da sobreposição de linhas melódicas. Da mesma forma, Cony quer atingir um ponto em sua vida literária em que conseguirá entender a si mesmo de um modo mais profundo.

Leia os principais trechos da conversa com o escritor, que é colunista da Folha desde 1993.

Antes, nos anos 60, Cony também teve uma coluna no jornal, que revezava com a escritora Cecília Meireles (1901-1964).

FOLHA – Seu próximo livro, ‘A Morte e a Vida’ foi feito sob encomenda e é sobre enfermagem. Por quê?

CARLOS HEITOR CONY – O acordo com quem encomendou [Conselho Nacional de Enfermagem patrocina coleção da editora Mondrian] era de que era preciso ter uma enfermeira na história. Eu aproveitei esse tema para discutir a eutanásia. É um questionamento sobre o valor da eutanásia. Sou a favor da eutanásia. Mas no livro eu não pude defender isso. O livro é a favor da ortotanásia. Ou seja, está politicamente correto. Será talvez o único livro politicamente correto que eu escrevi (risos).

FOLHA – Está pronto?

CONY – Sim, e ele me esgotou, pois escrevi muito rápido, em apenas dez dias.

FOLHA – O sr. é famoso pela rapidez. Qual foi o seu recorde?

CONY – Nove dias. Foi meu segundo romance, ‘A Verdade de Cada Dia’, que eu escrevi rápido porque não queria perder o prazo para inscrevê-lo num prêmio. E ele ganhou.

FOLHA – Depois, essa rapidez virou um vício?

CONY – Ou eu faço rápido ou eu não faço. Tanto ficção como as crônicas para o jornal. Se eu começo uma crônica e interrompo, já não sai mais. Não sei por que sou assim. Se eu fosse gago, não seria uma qualidade nem um defeito, eu seria gago. Então, eu escrevo rápido. Talvez seja uma gagueira minha, uma gagueira às avessas (risos).

FOLHA – O sr. vira noites?

CONY – Não, eu escrevo rápido mesmo. Mas isso também me dá uma certa repulsa depois. Hoje, por exemplo, estou de costas para o teclado. Nos últimos dias, inclusive, não tenho escrito, tenho ditado as colunas para minha secretária. Depois eu as corrijo à mão, e ela passa para o computador.

FOLHA – O sr. disse, há anos, que estava escrevendo um livro, que seria seu último romance, ‘Messa para o Papa Marcello’…

CONY – Tenho fragmentos, mas o livro ainda não está encaminhado. Preciso resolver alguns problemas antes. Fiz uma cirurgia e por isso fiquei muito tempo olhando o teto. O teto é muito inspirador, qualquer teto. Desde um barroco, de uma igreja mineira, até um neoclássico ou mesmo o teto do meu quarto. É uma tela onde projeto meus filmes, em que eu sou diretor, ator, roteirista. Daí têm vindo as minhas idéias.

FOLHA – Como será esse livro?

CONY – Tirei o título de uma missa do Palestrina. Até ele, a música tinha só duas dimensões, ritmo e melodia. A música moderna nasceu com Palestrina, principalmente em ‘Messa para o Papa Marcello’, que ele compôs por encomenda, para homenagear o novo papa. Esse papa não foi importante, morreu moço e ficou poucos dias no papado.

A música de Palestrina introduziu o contraponto, dando uma terceira dimensão à música. A partir daí, a música ficou muito mais real, mais humana. Meu caso, nesse romance, será encontrar o meu contraponto. Como ainda não o encontrei, não escrevi o livro. O livro será uma tentativa de me entender. Eu nunca me entendi. E o romance será a declaração de que realmente é impossível me entender.

FOLHA – O sr. já disse que seus livros realmente importantes eram ‘Pessach’, ‘O Ventre’ e ‘Pilatos’.

CONY – É, eu só considero mesmo esses três. Não gosto do ‘Quase Memória’. Gosto muito do ‘Ventre’. E talvez em ‘Tijolo de Segurança’ eu veja alguma coisa minha. Os outros considero livros de linha.

FOLHA – Mas por que ‘Pilatos’ é o preferido?

CONY – O ‘Quase Memória’ qualquer um pode escrever. Pior ou melhor. Qualquer pessoa que resolva visitar a figura do pai pode fazê-lo. Agora, o ‘Pilatos’ não.

FOLHA – Por quê?

CONY – Porque precisa ter coragem para romper com a literatura e com a moral como eu fiz nesse livro. E não o fiz como uma declaração de princípios, de uma forma contestatória. O livro rompe com a moral naturalmente. Praticamente toda a literatura é contra a moral. Sartre, Machado de Assis, Balzac, todos contestaram a moral de seu tempo. Mas, até certo ponto, eles o fizeram como uma declaração de princípios. ‘Pilatos’ não tem moral nenhuma. O rompimento com a literatura, com o bom gosto, sai sem soar como pregação. O livro não tem mensagem. Os outros, Sartre, Flaubert, são panfletários da antimoral. Meu livro não é panfleto.

FOLHA – Na época da ditadura, ‘Pilatos’ teve uma leitura política. A idéia de lavar as mãos…

CONY – Eu lavei as mãos porque fiz minha obrigação. Quando veio o Golpe, critiquei, fui preso seis vezes. Não mudei o mundo, nem o Brasil, nem a mim mesmo. Mas adquiri coragem para fazer ‘Pilatos’. Estava cansado de falar mal da ditadura. ‘Pilatos’ não deixa de ser uma forma de mostrar que a ditadura faz com que os cidadãos fiquem castrados. Mas sem nenhum tom de panfleto, nem político, nem moral.

FOLHA – Por conta desse ‘cansaço’, o sr. foi criticado e patrulhado.

CONY – Sim. Muito patrulhado. A primeira edição de ‘Pilatos’ teve 5.000 exemplares, que esgotaram rápido. A segunda encalhou porque houve uma onda contra o livro e contra mim. Mas eu estava bem na ‘Manchete’ e viajando muito. Eu tive seis prisões, a ‘Manchete’ foi minha sétima prisão. Uma prisão muito confortável. Agora, eu fui muito patrulhado, pela direita e pela esquerda.

FOLHA – Como você vê a crise que a esquerda vive hoje?

CONY – Em 1964, numa das minhas crônicas contra o regime, nos primeiros dias de abril, falei que considerava a esquerda um grupo de imbecis, o que não impediu que eu tomasse uma atitude de esquerda. Muita gente pensou, então, que eu estava me entregando a uma posição de esquerda. Mas isso não era verdade. Sempre pensei que não tinha disciplina para ser de esquerda. E não tinha idéias fixas para ser de direita. Não gosto do centro, porque o centro é oportunista. Então o que me sobra? Sobra ser um anarquista triste e inofensivo, é o que eu sou.

FOLHA – O sr. foi um crítico contundente tanto de Fernando Henrique Cardoso como tem sido de Lula.

CONY – São dois governos diferentes na morfologia, mas, na sintaxe, são iguais. O Lula é pior que o FHC porque decepcionou. Quando foi eleito, mesmo as pessoas que não votaram nele achavam que ia acontecer alguma coisa de novo. E não aconteceu nada novo, aconteceu a coisa mais velha do mundo, que é a demagogia. O Fome Zero, um troço paternalista, assistencialista, o Estado não pode dar comida, tem que dar condições para que todos tenham comida. O FHC fazia uma democracia mais sofisticada, mas no fundo era a mesma coisa. O grande mal dele foi ter optado pelo neoliberalismo. Mas ele não tapeou ninguém. O Lula decepcionou, não só nas linhas básicas, por continuar o governo do FHC, como também se envolveu com corrupção. Houve corrupção no governo FHC, acho até que maior. O PT se comprometeu por migalhas. O governo Lula é provinciano até na corrupção.

FOLHA – Tanto FHC como Lula disputam a imagem de Juscelino Kubitschek. Qual deles leva?

CONY – Nenhum. O JK era um homem provinciano. Ele queria fazer pontes, estradas. Era estadista sem saber. FHC pensou que era estadista e não era. E o Lula nem pensa nada. Não sabe nem o que é um estadista. JK prometeu obras sem querer mexer na estrutura da sociedade. Mas o desenvolvimento que essas obras propiciaram mexeu com o Brasil. Há um Brasil antes e depois de JK.

FOLHA – Como é hoje a sua relação pessoal com a religião?

CONY – Tenho admiração por santos. Não por serem santos, mas pelos homens que foram. São José era noivo de uma menina de 15 anos, aí veio um anjo e disse: ‘Olha, tua noiva tá grávida, não esquenta a cabeça que você não entende isso’. E ele aceitou, isso é sensacional.

FOLHA – Mas isso não seria mais uma admiração pela fábula do que pela santidade em si?

CONY – Sim, talvez pela fábula. Ela é tão perfeita quanto o ‘Chapeuzinho Vermelho’.

FOLHA – Você não reza nem acende velas?

CONY – Não rezo, mas estou sempre acendendo velas. No geral, é difícil aceitar Deus, mas no plano da vida diária é mais fácil. Eu já senti uma mão especial, não digo que seja a mão de Deus, mas uma mão especial, algumas vezes sobre a minha vida, sobre o meu destino.

FOLHA – Em momentos de dificuldade?

CONY – Não, em coisas prosaicas. Quando eu estive preso, não sentia mão nenhuma, sentia a mão do soldado que estava me algemando. Mas, às vezes, olho pra parede e sinto uma coisa superior a mim, a tudo o que eu penso, a tudo o que eu sou, a tudo o que eu podia ser e a tudo o que os outros são. Também não sou masoquista, quando digo que sou uma pessoa frágil, que não se entende. Eu sei que os outros também não se entendem. Mas eu proclamo isso abertamente, assim como proclamo que olho pra parede e vejo uma mão superior. Mas não aceito essa mão. Vejo e não aceito, porque minha cabeça recusa qualquer coisa sobrenatural.

FOLHA – Como é fazer parte da Academia Brasileira de Letras?

CONY – Gosto do ambiente da ABL. Ela é o reverso da escola. Você vai para lá sem futuro, mas com o passado. Não precisa provar mais nada. Lá encontra as pessoas que têm uma vida, um passado. E o passado torna todo mundo amigo.

FOLHA – Você foi criticado em 2004, quando a Comissão de Anistia anunciou que você tinha direito a uma pensão de R$ 19.115,19 e a uma indenização de R$ 1,4 milhão [por ter sido perseguido pela ditadura]. Esse episódio foi superado?

CONY – Primeiro, eu não sabia sobre o projeto da anistia. Um amigo me alertou, dei uma procuração e ele fez o dossiê que era necessário para requerer o benefício. Um dos três membros que estavam julgando disse: ‘Não preciso de dossiê, vou dar o direito à indenização’. Deu no escuro, porque conhecia o caso. Tinha tudo nesse dossiê, a minha saída da TV Rio, os episódios em que tentaram sequestrar minhas filhas, a invasão do ‘Correio da Manhã’. Eu perdi dois empregos. Diante desse material, eu pedi e me deram o benefício. O Zé Dirceu foi perseguido, mas era estudante, não perdeu nada. O Gabeira também não perdeu nada. Eu estava no mercado de trabalho. Trabalhava no ‘Correio da Manhã’ e na TV Rio. Tive de sobreviver com pseudônimo, fui considerado uma não-persona.

FOLHA – Isso acabou?

CONY – Acabou por uma questão muito simples, porque ainda não ganhei nada.

FOLHA – Nada?

CONY – Ainda está em trâmite o meu caso. Faz um ano e meio. Levei porrada sem ter o benefício. Mas tudo bem, não morri de fome nem vou morrer. Vou morrer de outra coisa.’



***

Leia trecho do novo romance de Cony

‘Leia a seguir trecho do romance ‘A Morte e a Vida’, de Carlos Heitor Cony, que será lançado pela editora Mondrian em dezembro:

‘Estou sozinha na sala de espera./ Sozinha mesmo?/ Não, há muita gente em volta, não lembro mais./ Em todo caso, senti-me sozinha naquele instante.

Edmundo prometera vir,/ Mas ele está sempre atrasado,/ Pelo menos comigo sempre está atrasado,/ Apesar dos 15 anos em que estamos casados,/ Dos dois filhos que vieram atrasados,/ Talvez por causa dele.

Ou por minha causa.

Não é hora de pensar,/ Pensar principalmente nos outros./ Estou sozinha,/ Eu e o resultado do exame de sangue que fiz ontem, a pedido do Paulinho. Tudo parece quase bem,/ Aumentos disso e daquilo,/ Taxas menores ou maiores do que seria o normal aqui e ali./ Aqui e ali, estou sozinha, Daqui a pouco, a porta se abrirá,/ A secretária me chamará,/ Deixei com ela os outros exames,/ Creio que há dados recentes para um diagnóstico,/ Essas dores de cabeça, essa perda de memória e sentido,/ Há meio ano, me fizeram procurar um especialista, recomendado por amigo de Edmundo,

Que, desde o início, achou que eu não tinha nada,/ Somente falta de concentração.

Ele sempre me acusou de ter dificuldade em me concentrar,/ Uma forma de me acusar ou de me perdoar.’’

Moacyr Scliar

Espírito inquieto marca obra

‘No dia seguinte ao 31 de março de 1964, dirigi-me à Prefeitura de Porto Alegre. Como muitos jovens, estava abalado com a notícia do golpe; e, como muitos, pensava em resistir, e achei que o pessoal estaria se reunindo na prefeitura.

Quando lá cheguei, o lugar estava deserto. Só encontrei um velho funcionário na portaria. Perguntei-lhe se sabia de algum movimento contra os golpistas. Olhou-me, suspirou, e disse: ‘Não, meu filho, não sei de nada. E, se eu fosse tu, iria para casa e ficaria lá bem quieto’.

Ir para casa e ficar lá bem quieto: parecia uma coisa pelo menos sensata, e muita gente, na falta de alternativa melhor, fez isso. Outros, não. Outros botaram a boca no mundo. E entre estes outros estava um escritor e jornalista carioca que logo em seguida se tornaria uma figura lendária: Carlos Heitor Cony.

Não se tratava exatamente de um desconhecido. Àquela altura, Cony já tinha publicado romances de grande repercussão, notadamente ‘O Ventre’ e ‘Informação ao Crucificado’. Mas também era conhecido como jornalista e foi nesta condição que se tornou um verdadeiro ídolo para minha geração.

Escrevendo no ‘Correio da Manhã’, Cony corajosamente denunciava as arbitrariedades da ditadura, numa época em que não eram muitos os que podiam ou queriam fazê-lo.

Seu protesto nada tinha de ideológico. Cony não era comunista, não era esquerdista (imaginem se fosse). A sua era só a voz de um homem decente e corajoso indignado contra a situação do Brasil.

Cony pagou um pesado preço por sua independência. Teve de se demitir do ‘Correio da Manhã’, foi preso (seis vezes), afastou-se do Brasil. Mas nunca deixou de escrever, e, sobretudo, nunca abandonou a ficção. O conjunto de sua obra recebeu, em 1996, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, instituição a qual ele veio a integrar. A ficção de Cony aparentemente pouco a tem a ver com o seu jornalismo, mas só aparentemente. O que temos ali é o mesmo soberbo domínio da palavra, a mesma capacidade de empatia com o leitor.

Mas, enquanto o jornalista Cony lida com o presente, o ficcionista Cony volta-se para o passado. Ele se rotula como um memorialista e, de fato, a memória desempenha um importante papel em sua ficção. Neste sentido, é muito significativo o título de um de seus livros, ‘Quase Memória’, onde lemos lembranças da infância, relatos de viagem, personagens de rua em um texto que nos comove pela emoção e pelo lirismo.

Ao contrário do que recomendou o velho funcionário da prefeitura de Porto Alegre, Cony nunca ficou quieto em casa, nem em lugar nenhum. Ainda bem. Graças a seu espírito inquieto, graças à sua ousadia e a seu talento, produziu uma obra que marca a literatura brasileira.

MOACYR SCLIAR é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras’



INTERNET
Adriana Mattos

Submarino arma megaconvocação para aprovar fusão

‘Para a fusão com a Americanas.com, num dos maiores negócios do ano, o Submarino ainda enfrenta uma dificuldade. Precisa fazer uma assembléia com a presença de parte de seus investidores. Pelas regras, 50% dos acionistas têm de dar o seu voto -percentual exigido pela Comissão de Valores Mobiliários. Sem isso, a empresa precisa convocar, com dez dias de intervalo, uma segunda chamada. Analistas acreditam que há risco de que o martelo não seja batido até o final do ano por causa das festas.

A empresa tem cerca de 7.000 investidores pessoa física e opera apenas com ações ordinárias (com direito a voto).

O Submarino está armando uma esquema para fazer o acionista ir à assembléia geral, que ocorrerá até o final de ano -ainda não há data fechada. A convocação oficial, por carta, acontecerá dentro de 20 dias, no máximo. A empresa vai disparar telefonemas para convocar os acionistas. ‘Não temos essa cultura do voto do acionista no Brasil. Precisamos de 50% de presença. Por favor, vão. Vamos ligar para todos eles’, disse Flavio Jansen, presidente do Submarino, em conferência com analistas, na manhã de ontem.

Outra dificuldade -além do fato de ser um período de férias- é que esses 7.000 investidores do Submarino estão espalhados pelo país. Essa é a maior operação de fusão de grupos abertos de capital pulverizado já realizada no Brasil.

Caso não haja quórum na primeira convocação, é possível uma chamada automática de um segundo encontro, com intervalo de dez dias e o mínimo de aprovação reduzido a 25% das ações ordinárias. Nesse caso, analistas ouvidos pela Folha ontem acreditam ser possível uma aprovação do acordo.

Anteontem, a Americanas.com e o Submarino informaram ao mercado a assinatura de um acordo de fusão entre as partes para a formação de uma nova empresa, a B2W. A Americanas será a controladora da nova companhia.

‘Temos até três assembléias para aprovar isso. Estamos correndo para fazer neste ano ainda. Não queremos demorar, não há vantagem nenhuma [nas postergações] com o negócio já anunciado. Queremos casar logo’, afirmou Martin Escobari, chefe do setor de relacionamento com investidores do Submarino.

Com o quórum obtido, se 50% das ações mais uma votar favoravelmente ao negócio, a transação será fechada. Os acionistas da Lojas Americanas -com papéis menos pulverizados no mercado- já aceitaram a fusão.

Como espécie de incentivo à operação, o Submarino distribuirá R$ 500 milhões aos acionistas em dividendos (R$ 9,70 por ação) e redução de capital, que deve engordar o bolso dos investidores. Isso porque os donos de ações da empresa terão de trocá-la por uma ação da B2W. Mas, na B2W, esses acionistas terão, juntos, 46,75% -ou sejam serão minoritários.’

Sérgio Dávila

‘Kramer’ racista chega ao YouTube

‘Michael Richards, 57, também ofendeu judeus e mulheres em performances anteriores, dizem espectadores e uma colega. O comediante, que interpretava o amalucado Kramer na extinta série ‘Seinfeld’, voltou ao noticiário nesta semana ao ter uma explosão racista durante performance cômica que fazia na sexta retrasada num clube de Los Angeles.

Desde então, o momento em que começou a usar uma palavra de conotação altamente racista (‘nigger’) nos EUA contra um espectador negro e seus amigos que supostamente atrapalhavam o show ganhou a rede e chegou ao YouTube.

O vídeo de poucos minutos captado pelo celular de um espectador, o pedido de desculpas de Richards no programa de David Letterman, na segunda -que será exibido no Brasil pelo canal GNT nesta segunda, 27-, e o noticiário a respeito estão entre os mais vistos do site, com cerca de 4 milhões de espectadores. Estão também entre os mais acessados dos sites da CNN e da TMZ, braço de notícias da AOL.

Na performance, Richards chama o espectador que julga estar atrapalhando seu show de ‘nigger’ várias vezes e diz que, há 50 anos, ele seria ‘enforcado lá fora’. A platéia, que ri em princípio, começa a sair depois que o agredido e seu grupo saem. Quando percebe isso, o próprio Richards joga o microfone no chão e deixa o palco.

Agora, espectadores de um show anterior de Richards dizem que ele fez o mesmo com judeus. Carlo Oschin e J.P.Fillett aparecem em vídeo na TMZ afirmando que o comediante teve reação semelhante no Improv, em 22 de abril, contra quem julgou ser um membro da platéia que o atrapalhava, dessa vez um judeu.

‘Seu judeu desgraçado! Vocês são a causa da morte de Jesus!’, teria dito Richards, entre outras frases, que duraram vários minutos até que ele deixou o palco da mesma maneira.

Já a comediante Jeremy Beth Michaels escreveu em seu site que, depois de uma apresentação conjunta com Richards em outubro, em que ela acidentalmente quebrou o gravador do comediante -que registrava sua performance para revisão posterior-, o ex-’Seinfeld’ a agrediu verbalmente. Disse que quebraria o recorde de vezes que uma mulher seria insultada numa mesma frase pela palavra ‘cunt’, forma vulgar de se referir ao órgão sexual feminino ou às mulheres. E a chamou de ‘cunt’ várias vezes.

Explicação

Desde que a primeira explosão racista foi parar na rede, o comediante contratou o relações públicas Howard Rubenstein, especialista em celebridades em apuros, que já teve como clientes Michael Jackson e a relações públicas Lizzie Grubman, condenada por ter atropelado pessoas com seu carro, depois de chamá-las de ‘white trash’ (lixo branco).

Segundo Rubenstein, Richards não negou nenhum dos episódios, mas disse a ele que não é racista, anti-semita (tanto Richards quanto Rubenstein são judeus) nem misógino. Andava com uma raiva fora de controle, afirmou, e ‘buscaria ajuda’ para esse problema.

A pedido de Richards, Rubenstein também entrou em contato com líderes negros, como os reverendos e políticos Al Sharpton e Jesse Jackson, para pedir desculpas à comunidade negra. Para concluir a provavelmente pior semana do comediante, na quarta o espectador agredido afirmou ao jornal ‘The Washington Post’ que Richards ofendeu a pessoa errada. Segundo Darryl Pitts, alvo da explosão racista, quem falava alto era um amigo de sua turma de dez pessoas. E que ele só se levantou para dizer: ‘Meu amigo não acha que você é engraçado’. Pitts não tem certeza, mas acha que o colega é ‘latino ou árabe, mas não negro’.’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Record irá à Justiça contra futebol na Globo

‘A Record está se preparando para travar uma guerra judicial contra a Globo e a Federação Paulista de Futebol (FPF) pelos direitos dos campeonatos de 2008 a 2010. A emissora de Edir Macedo teme que a FPF feche contrato com a Globo mesmo que sua proposta seja maior do que a da concorrente.

Segundo Alexandre Raposo, presidente da Record, um grupo de advogados avalia possíveis medidas judiciais. Uma das saídas seria a Record acionar o Ministério Público, que moveria uma ação baseada no Estatuto do Torcedor. Nesse caso, a tese seria a de que o acordo da FPF com a Globo seria prejudicial ao interesse coletivo.

Após a ruptura de acordo de compartilhamento do futebol com a Record, a Globo se apressou em negociar o contrato do Campeonato Paulista a partir de 2008 por R$ 40 milhões (incluindo TV paga) por ano.

A Record, então, ofereceu R$ 70 milhões. Na última quarta, a Globo aumentou sua proposta para R$ 60 milhões em dinheiro mais R$ 10 milhões em compensações (placas e espaço publicitário). A Record, no mesmo dia, reafirmou os R$ 70 milhões e agregou R$ 10 milhões em placas e espaço publicitário.

Além disso, a Record se comprometeu a pagar os direitos com um ano de antecedência. A FPF ainda não se pronunciou oficialmente, mas nos bastidores é tido como certo que a entidade ficará com a Globo, mesmo recebendo menos.

SUCESSÃO 1 Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, está sendo preparada para assumir a gestão do grupo empresarial do pai.

SUCESSÃO 2 Patrícia é diretora do banco Panamericano e está à frente de novos negócios do grupo, como o hotel de luxo que será aberto no dia 2 no Guarujá (SP) e duas marcas de cosméticos. Outra aposta da família Abravanel é Daniela Beyruti, diretora do programa ‘Ídolos’.

MUDA TUDO Celso Portiolli está gravando pilotos do ‘Charme’. Se Silvio Santos gostar, ele entra no lugar de Adriane Galisteu, que também está gravando edições extras do ‘Charme’, para exibição em janeiro. Caso Portiolli assuma o ‘Charme’, Galisteu terá outro programa.

ULISSES 1 As gravações de ‘Eterna Magia’, próxima novela das seis da Globo, começam em fevereiro em Dublin, na Irlanda, e depois prosseguem no Mato Grosso. Malu Mader, após recusar papéis na minissérie ‘JK’ e na novela ‘Pé na Jaca’, será a protagonista, Eva Sullivan, uma mulher linda e voluntariosa de Minas Gerais, que, na década de 40, se torna uma pianista conhecida em toda a Europa.

ULISSES 2 ‘Eterna Magia’ marcará a estréia de Elizabeth Jhin (colaboradora de Antonio Calmon) como autora solo. Ela será supervisionada por Silvio de Abreu. A direção será do experiente Carlos Manga. No elenco, já estão confirmados Irene Ravache, Werner Schunemann, Paulo José, Maria Flor, Murilo Rosa e Eliane Giardini.’



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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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