Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > COMPRA DA DOW JONES

Formação de comitê independente já cria polêmica

03/08/2007 na edição 444

Um dia após o anúncio do acordo de compra da Dow Jones pela News Corporation, as duas companhias divulgaram os nomes de cinco pessoas escolhidas para uma tarefa de extrema importância: garantir que o empresário Rupert Murdoch não interfira editorialmente em sua nova aquisição, o Wall Street Journal.


O veterano Murdoch, dono da News Corp, conseguiu esta semana apoio suficiente da família Bancroft, que controla a maior parte das ações da Dow Jones, para comprar a companhia. A oferta, feita originalmente no fim de março, chegou a US$ 5 bilhões – ou US$ 60 por ação. Parte dos Bancroft e outros acionistas não concordavam com a venda para a News Corp. Murdoch, que controla centenas de jornais e empreendimentos em TV e internet, tem fama de interferir no conteúdo de seus negócios em nome do lucro e de amizades políticas, deixando a qualidade jornalística em segundo plano.


Independência editorial


Por esta razão, membros da família Bancroft e funcionários do Journal, carro-chefe da Dow Jones, temiam a concretização do negócio. Para assegurá-los de que não irá interferir na liberdade editorial do diário – o segundo mais vendido nos EUA –, o magnata concordou com a criação de um comitê independente. Dos cinco membros, quatro foram escolhidos pela Dow Jones, e um foi indicado pela News Corp. São eles:


Louis D. Boccardi, ex-presidente da Associated Press; Thomas Bray, colunista e ex-editor da página editorial do Detroit News; Jennifer Dunn, ex-deputada republicana pelo estado de Washington; Jack Fuller, ex-presidente da Tribune Publishing e editor da página editorial do Chicago Tribune; e Nicholas Negroponte, ex-diretor do Media Lab, laboratório de multimídia, do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e co-fundador da revista Wired.


Pelo acordo, o comitê pode bloquear a contratação e demissão de editores, conduzir investigações internas e publicar seus resultados no Journal e ir à justiça caso entenda que a independência da companhia não esteja sendo mantida. A News Corp concordou também em manter nos cargos o chefe de redação e o editor da página editorial do Journal e o chefe de redação da Dow Jones Newswires. Eles só podem ser substituídos com a aprovação da maioria dos membros do comitê.


Doação milionária


A escolha dos membros, mal foi anunciada, já gerou polêmica. Negroponte, único participante do comitê indicado pela News Corp, dirige uma fundação que recebeu uma doação de US$ 2,5 milhões da empresa de Murdoch.


Negroponte é responsável pelo projeto One Laptop per Child, que produz computadores portáteis baratos para crianças pobres. A News Corp está entre as 11 empresas, junto com o Google e a Advanced Micro Devices, que se comprometeram a contribuir com a fundação. Em uma entrevista concedida à Reuters em maio, o professor descreveu Murdoch como um amigo e alguém de extrema importância no projeto de computadores baratos.


Conflito de interesses


Não se sabe se os Bancroft tinham consciência da doação de Murdoch à fundação. Um representante da família não comentou o assunto. A News Corp, por sua vez, diz que não há conflito de interesses. ‘Nicholas Negroponte é apoiado e respeitado em toda a indústria de mídia, e a Dow Jones e a News Corp estão orgulhosas de tê-lo como um membro independente do comitê especial’, afirmou um porta-voz da companhia, ressaltando que sua fundação ‘é respeitada e recebe amplo apoio corporativo’.


Para Bob Steele, professor de ética jornalística no Instituto Poynter, na Flórida, será um desafio para Negroponte equilibrar sua lealdade a Murdoch – como amigo e parceiro de negócios – com suas responsabilidades de membro do comitê. ‘Mas é possível’, diz. Já Louis Ureneck, diretor do departamento de jornalismo da Universidade de Boston, é menos condescendente. ‘Se a fundação de Nicholas está de fato recebendo dinheiro da News Corp, isso cria a idéia e, possivelmente, a realidade de um conflito. Uma pessoa é realmente independente se uma decisão tomada por ela põe em risco uma doação a sua fundação?’, questiona. Informações de Richard Pérez-Peña [The New York Times, 2/8/07] e de Jim Finkle e Kenneth Li [Reuters, 2/8/07].

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