Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Frouxo juízo ético

Por Gibran Lachowski em 06/09/2005 na edição 345

Estou ficando cada vez mais com nojo de revistas como a Veja e a Época, de jornais e sites como a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo e o O Globo, de emissoras de TV como a Globo.

O motivo, agora, pelo qual sinto mais vontade de cuspir sobre meios de comunicação dessa estirpe, é a divulgação de mais uma acusação sem provas da Época, e de sua subseqüente repercussão, contra o nordestino Severino Cavalcanti (PP-PE) e presidente da Câmara dos Deputados.

A acusação sem provas dá conta de que Severino Cavalcanti teria cobrado R$ 10 mil por mês do empresário Sebastião Buani, detentor da concessão de um dos restaurantes do Congresso Nacional, para manter o contrato. A denúncia foi feita à Época por um funcionário do restaurante, Izeilton Carvalho, ‘que dizia ter digitado, a pedido de Buani, um ‘dossiê’ no qual o empresário contava ter pago propina a Severino entre 2002 e 2004’.

A mídia foi atrás

A publicação contentou-se em gravar o que o acusador falou. Portanto, não se respaldou em documentos quaisquer. A revista entrevistou o empresário Sebastião Buani, que afirmou que Severino não lhe cobrou propina. Mesmo assim – e isto é impressionante – Época, das Organizações Globo, publicou o assunto, e com estardalhaço, pondo-o na capa. A Época poderia, por exemplo – e isto seria o mínimo –, ter corrido atrás do tal dossiê, ter procurado na Câmara o contrato de concessão referente ao restaurante, ter ouvido mais pessoas sobre o assunto. Em suma, isso que a Época fez não é jornalismo. É pior do que fofoca! É ridículo! A revista merece ser processada. Está fazendo ‘jornalismo de esgoto’!

A Época registrou, porém, que não aceitou pagar por supostos documentos, como se isso fosse capaz de diminuir o prejuízo causado pelo crime jornalístico cometido. Incompetência profissional, frouxo juízo ético, intenção de prejudicar o presidente da Câmara para contribuir com algum joguete político maroto? ‘Época’, por sua postura condenável, dá margem a diversos tipos de pensamento contra si própria.

Depois do erro jornalístico grave – mais um neste período de produção de crises –, o resto da ‘mídia grande’ foi atrás da suspeição sem provas, como se estivesse diante de uma acusação bem fundamentada ou de um fato praticamente confirmado. ‘Mídia grande’ é uma expressão do jornalista da revista Caros Amigos José Arbex para designar a casta ultracapitalista que comanda o setor.

Velha novidade

Deram espaço respeitoso até ao deputado federal Alberto Goldman (PSDB-SP), líder do partido na Câmara, para falar que, ‘se comprovada’ a denúncia, Severino deverá ser afastado por suspeição de improbidade. Deram espaço ao tucano Goldman para dizer inclusive que o simples fato da existência da acusação sem provas contra Severino faz dele uma pessoa incompatível para o cargo de presidente da Câmara dos Deputados.

Merece destaque um erro feio da Época, anterior a esta acusação sem provas contra Severino. Foi a divulgação da entrevista do ex-deputado federal do PL Valdemar Costa Neto, na qual ele disse que Lula sabia do apoio financeiro do PT ao PL, de R$ 10 milhões, para a campanha de 2002. A entrevista foi capa da Época de 12 de agosto de 2005 e teve o título sugestivo ‘A confissão’. O material dito jornalístico foi vendido como grande novidade.

Na verdade, a tal novidade já havia sido publicada pela revista CartaCapital em 30 de outubro de 2002, ou seja, quase três anos atrás. Até mesmo trechos de falas das conversas veiculadas pela revista Época sobre os R$ 10 milhões foram muitos semelhantes aos da CartaCapital. Um ‘detalhe pitoresco’: dias antes da entrevista de Valdemar da Costa Neto à Época a assessora de imprensa do PL esteve na editora que publica CartaCapital para comprar dois exemplares da edição 213, que divulgou em 2002 o acordo financeiro entre PT e PL. A desconstrução da armação jornalística da Época pela CartaCapital foi pouquíssimo divulgada pela ‘mídia grande’.

Mais da Veja

A revista Veja também deu capa ao caso, sem apresentar provas quaisquer, ao que li na versão online da publicação. Também fez ‘jornalismo de esgoto’, e com mais perícia que a Época, ressalte-se.

Veiculou no início da matéria sobre o caso que havia um ‘sério indício’ de que Severino achacara Buani. Em seguida foram sendo efetuados os golpezinhos baixos de pseudojornalismo revestidos de afirmações que davam a entender que à frente, no mesmo texto, haveria a comprovação das mesmas. Afirmações que apontavam datas e como Severino teria efetuado o suposto esquema.Mais à frente, a dita publicação jornalística mencionou que o empresário escrevera duas folhas à mão registrando passo a passo o suposto esquema. Mas na versão online não apresentou o tal manuscrito.

Num exemplo expressivo do jornalismo de plantação de notícias, a Veja expôs que os comentários sobre propinas nos termos aventados já rodavam os corredores da Câmara há tempos. E a revista que pratica ‘jornalismo de esgoto’ afirmou que o manuscrito possuiria um ‘indício concreto’ de que as suspeitas poderiam corresponde à verdade, posto que, conforme o entendimento da própria publicação, o dito documento seria ‘riquíssimo em detalhes’. Como exemplo de riqueza de detalhes, a revista que pratica ‘jornalismo de esgoto’ mencionou que o tal manuscrito apresentava os primeiros nomes de assessoras de Severino (Gabriela e Ruceli). Tanta riqueza de detalhes que nem mesmo os sobrenomes formam escritos no tal manuscrito. Faça-me o favor!

Jogou no ar

A Veja, com menos destaque, numa estratégia para diminuir o poder da resposta à acusação sem provas, citou que as funcionárias negaram ter recebido os envelopes de Buani que, conforme o tal manuscrito, seriam entregues a Severino com dinheiro dentro.

E daí a revista citou um banco, uma gerente, um motorista e uma operação bancária efetuada pelo empresário constantes do tal manuscrito, e confirma que os nomes existiam e a operação ocorreu. Como se isso bastasse para confirmar o pagamento de propina e como se isso fosse indício de prova, visto que a operação bancária poderia ter servido, muito bem, a outro fim.

Mais para o fim da matéria, a Veja jogou no ar que Buani poderia ter inventado a história para tentar a renovação de seu contrato, cuja concessão findará em breve. Porém pontua que a defesa de Severino tem ‘pouca substância’, como se a denúncia efetuada pela própria revista também não tivesse pouca substância. E a Veja indagou se Buani poderia estar inventando uma história mentirosa para prejudicar Severino. Mais uma estratégia de discurso.

No estilo da plantação

Logo em seguida, citou a existência de um suposto documento que Severino, em 2002, quando primeiro-secretário da Câmara, teria assinado garantindo a renovação do contrato do empresário. Citou, mas não o mostrou na versão online. E a revista ainda disse que o empresário deu dinheiro a Severino e ao deputado federal do PSB pernambucano Gonzaga Patriota pela suposta negociação.

Ambos negaram o recebimento desse dinheiro. Severino disse que pode ter assinado um documento ilegal, mas por engano. Não questiono se ele assinou ou não, se agiu contra a lei ou não, porém critico a falta de subsídios mínimos para publicar um assunto tão sério.

E ainda, no belo estilo da plantação de notícias, a Veja assinalou que um assessor de Severino teria dito que o tal documento de renovação derrubaria o presidente da Câmara, mas, devidamente, não explicitou o nome do funcionário do deputado. Será que esse assessor existe mesmo?

Caindo no descrédito

E, por fim – e isto deveria estar lá no começo da matéria, creio –, a revista disse que o empresário Buani negou tudo o que constaria do tal manuscrito. Mas, sabidamente, a publicação falou que ao mencionar detalhes do tal manuscrito do próprio Buani, aí sim o empresário teria mudado de feição, de postura e dito algo como: ‘Como saio dessa?’. Daí, após isso, ele teria dito à revista que se pronunciaria sobre o caso após o almoço, o que não teria ocorrido.

Será que houve o contato com o empresário? Será que ele disse a tal frase ou algo similar? E se a frase foi dita, será que ela significava realmente um sinal de culpa no cartório? Será que o empresário disse à revista que se pronunciaria sobre o caso após o almoço? Será que ele não se pronunciou após o almoço? Será que existe mesmo o tal manuscrito? Se existe, será que foi mesmo escrito por Buani?

Esse ‘jornalismo de esgoto’ que Veja pratica me causa tantas dúvidas… até mesmo as mais óbvias. À frente, talvez logo, até, várias informações se confirmem. Só questiono, e muito, o modus operandi desta revista, que hoje em dia anda caindo tanto no descrédito.

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Jornalista em Cuiabá

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