Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > MILTON FRIEDMAN NA MÍDIA

Funeral do jornalismo econômico

Por César Fonseca em 28/11/2006 na edição 409

Os comentários na mídia em geral sobre a questão fiscal no país, para ser resolvida no segundo mandado do governo de coalizão de Lula, são os de que a solução é simples. Basta – como destacam, diariamente, repetidamente, cansativamente, Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão, na CBN – reduzir os gastos correntes de custeio da máquina pública para sobrar mais recursos aos investimentos. Nada mais do que isso. O país, dessa forma, sairia da crise. Uma unanimidade que faz lembrar Nelson Rodrigues, para quem toda unanimidade é burra. Não seria tal simplicidade mera aparência?

O fato que não é avaliado por ninguém, no momento, na imprensa brasileira, é o seguinte: é possível ao setor privado viver sem os gastos do governo, sejam eles de custeio, sejam de investimento, sejam de mera e pura dissipação? É plausível falar em economia de mercado ao estilo do século 19, o ideal econômico do ultraneoliberal Milton Friedman, recentemente falecido e reverenciado como deus pelos economistas neoliberais e seus seguidores na imprensa, sem levar em conta os necessários gastos de custeio e de investimento dos governos?

Em que medida é possível separar esses dois gastos, de forma efetiva, sem considerar as razões profundas que levaram o Estado a intervir na economia, gastando tanto em custeio quanto em investimento, configurando ambos parte de um mesmo organismo, junto com o setor privado?

O idealismo miltonfriedmaniano permeia, amplamente, as opiniões dos especialistas econômicos na mídia, mas não se ouve, de jeito nenhum, informação relativa a sua superação histórica pelo próprio desenvolvimento do capitalismo ao longo do século 20, durante o qual outras determinações econômicas entraram em cena, ultrapassando o laissez-faire dezenovecentista. A mídia insiste em orientar-se de acordo com a extinta dinâmica do bissetorialismo econômico dezenovecentista, baseado na existência dos departamentos I, produtor de bens de produção, e II, produtor de bens de consumo, assim considerados pelos clássicos, como se eles fossem inalteradamente auto-sustentáveis. Há outras correntes que invertem: o I seria o departamento produtor de bens de consumo e o II, de bens de produção. Pouco importa.

Puro romantismo

O importante é estudar, o que poucos jornalistas fazem em matéria de história da economia política, a dinâmica desses dois setores e a sua superação dialética, graças às contradições que as animaram no sentido de romperem suas relações antagônicas. Como o sistema capitalista caminha para a sobreacumulação de capital, de um lado, e para a sobreacumulação de exclusão social, de outro, seu destino, sob a economia de mercado livre, do laissez-faire, foi, sempre, produzir crônica insuficiência relativa de demanda global, como destacaram Ricardo, Maltus, Sismondi etc., com aval de Marx e, depois, de Keynes.

Por essa razão, o processo deflacionário – decorrente da insuficiência produzida pelo excesso de oferta em relação à demanda – tornou-se característica principal do capitalismo, cujas conseqüências, registradas ao fim do século 19 e início do século 20, levaram ao rompimento do laissez-faire, graças ao surgimento dos cartéis de quantidade, de zona e de preço, para fugir da queda dos preços, dos lucros, do desemprego e da revolução social.

A pregação de Milton Friedman, do liberalismo puro, que levou a Veja a chamá-lo de filósofo da liberdade e O Estado de S.Paulo a evocar, em manchete, a preferência dele pelo bissetorialismo econômico dezenovecentista é, portanto, puro romantismo. O erro fundamental de Friedman foi o de associar o capitalismo à liberdade e vice-versa, quando o sistema, frente à deflação gerada pela insuficiência crônica de demanda, caminha para a formação dos monopólios e dos oligopólios em escala global, como alternativa de sustentação constante taxa de lucro.

No fundo do baú

Foi justamente para fugir da deflação, que ameaçava o capitalismo frente ao socialismo, na Europa, que o Estado entrou na economia por meio da elevação dos gastos do governo. Esses se transformaram em arma para combater a insuficiência de consumo. A função essencial que o governo passou a exercer é simples: criar consumo sem aumentar a oferta. Conseqüentemente, elevam-se os preços e os lucros – eficiência marginal do capital –, tirando o sistema da crise de 1929, produzida pela escalada deflacionista, expressa, como disse Keynes, na sobre-acumulação de capital na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Malthus, ao contrário de Milton Friedman, dizia que o mal maior do capitalismo é sua capacidade de ser excessivamente eficiente, devido ao desenvolvimento das forças produtivas, impulsionadas pelo avanço da ciência e da tecnologia, que aumentam, de forma exponencial, a produtividade, enquanto, ao mesmo tempo, poupa mão-de-obra. Como é o capital variável – trabalho – que produz valor para o capital, e não o capital constante – máquinas e matérias-primas –, que se desgasta com o tempo, reclamando renovação permanente, quanto mais produtividade menor a taxa de lucro, maior o desemprego em face da inexorável queda dos preços, maiores as possibilidades de explosão social que fazem romper as forças produtivas e as relações sociais da produção.

Desconhecer esse movimento histórico é revelar-se incapaz de comentar, eficazmente, os avanços e recuos da economia capitalista. Schumpeter, com razão, reclamava que o maior erro dos economistas é não observar a história antes de realizar suas proposições macro e microeconômicas frente às crises capitalistas. Assim, quanto mais eficiência, menores os lucros, maiores as tensões sociais sob o capitalismo, como alertou Malthus que, por falar a verdade, foi devidamente esquecido pelos estudiosos, deixado no fundo do baú da história. A solução, para ele, era o oposto da eficiência, ou seja, a ineficiência.

O departamento renegado

O nome da ineficiência, por sua vez, disse, chama-se gastos governamentais, que precisam ser ampliados. É a essa alternativa que Keynes recorreu, depois de 1929, quando pregou, contra a deflação, o aumento do consumo ‘dissipador’ por meio do governo, sem que haja aumento da produção de bens duráveis e semiduráveis, característicos da economia bissetorial.

Tal solução, que resgataria do abismo o bissetorialismo econômico, passa ao largo das análises da mídia. Ela se nega a mergulhar no assunto, fica na superfície, temerosa, o que a impede de perceber que essa forma econômica tortuosa de sobrevivência do sistema evitou o avanço do socialismo. Ou seja, é apelando para a ineficiência que o capitalismo preserva e mantém a continuidade da sua eficiência, de forma relativa, a fim de evitar a supremacia dos socialistas.

Os gastos governamentais representam, na prática, o departamento III da economia capitalista no século 20, que nasceu para salvar do colapso os departamentos I e II. Marx pregou em O capital que o capitalismo desenvolveria ao máximo suas forças produtivas, cairia na senilidade e passaria a impulsionar as forças destrutivas na guerra. O departamento III, que ele anteviu, sem teorizá-lo adequadamente, porque ainda não existia na prática, somente na cabeça, é aquele que vai consumir não as mercadorias, mas as não-mercadorias, assim conceituadas por Lauro Campos em A crise da ideologia keynesiana (Campus, 1980).

Truque genial

Limitar o III, produtor de não-mercadorias – produtos bélicos e espaciais, gastos com funcionalismo, burocracia, enfim, ineficiência –, para revigorar o I e o II, como querem agora os neoliberais, e reclamando, como fazem Sardenberg e Miriam, vocalizando o romantismo friedmanianista, a diminuição dos gastos correntes da máquina administrativa estatal é, evidentemente, uma falsa solução. Trata-se, simplesmente, de tentar matar a galinha dos ovos de ouro do capitalismo. Ambos, inconscientemente, se tornam advogados do socialismo enquanto são pagos pelos capitalistas para analisar o capitalismo ao qual servem. Ironia maior, impossível.

Não percebem que, para animar o sistema capitalista, fez-se necessário romper o padrão-ouro, a relíquia bárbara, segundo Keynes, instaurando novo padrão monetário, baseado não nas reservas em ouro dos governos, voltadas a assegurar equilibrismo macroeconômico, mas na moeda estatal inconversível, cuja essência, como constitui o próprio sistema, é, exatamente, o oposto, o desequilíbrio.

Com uma mão, o governo lança moeda na circulação para dinamizar a produção; com a outra, joga títulos da dívida pública para enxugar a base monetária, a fim de evitar a enchente inflacionária. A inflação é o ‘elixir’, a ‘unidade das soluções’ (Keynes), que passa a sustentar a acumulação capitalista. Ao mesmo tempo, a dívida pública se transforma, dialeticamente, no principal instrumento de controle do processo inflacionário, na medida em que ela cresce no lugar da inflação. Um truque ideológico genial do grande economista inglês, como ensina Lauro Campos.

Centro e periferia

Desse modo, conter, drasticamente, a dívida, como pregam os mailson nóbregas da vida, em nome do combate à inflação, significa suicídio. Representaria elevar, exponencialmente, a própria inflação. O capitalismo iria embora de roldão.

Evidentemente, a solução keynesiana, que predominou durante quase todo o século 20, somente se sustentaria enquanto os governos tivessem fôlego para se endividarem. Depois da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, quando os Estados Unidos encharcaram Europa e Japão de dólares, eurodólares e nipodólares, para evitar o avanço do comunismo no Ocidente e no Oriente, os limites da terapia econômica keynesiana foram alcançados. Ao fim dos anos de 1970, o Banco Central americano, para evitar a derrocada do dólar, elevou a taxa de juros de 5% para perto de 17%, em nome do combate à inflação, produzida pelo excesso de liquidez monetária no cenário econômico global.

Resultado: as economias periféricas, como a brasileira, financeiramente dependentes do capital externo, caíram na crise, que, diga-se, não foi produzida pelas suas determinações internas, mas, fundamentalmente, pelas razões externas. No fundo, tratou-se de crise importada. E nisso reside outro ensinamento que a mídia nacional desconhece completamente, qual seja, o de que as crises capitalistas são sempre produzidas não na periferia, mas nos países cêntricos. Os ajustes que os governos deles fazem em suas economias implicam a transferência aos capitalistas periféricos dos custos que se recusam a suportar. Passam para a frente suas crises monetárias, cobrando fatura no suor dos outros.

Nostalgia nociva

Desse modo, tais economias subordinadas ao modelo de dependência, então encalacradas até hoje, monitoradas por FMI, Banco Mundial e credores em geral, cujo discurso centrado no ajuste fiscal a qualquer custo, como o contido no Consenso de Washington, é o que Sardenberg e Miriam passam acriticamente. O keynesianismo continuou sendo praticado somente pelos países capitalistas desenvolvidos, assim, mesmo, de forma homeopática, salvo os Estados Unidos, que lançam mão da moeda estatal – o dólar sem lastro – para continuar sustentando, por meio das guerras, a demanda global.

Os jornalistas brasileiros, nesse momento, estão diante de oportunidade histórica excepcional para entender – se tiverem força de vontade para fugir dos maniqueísmos ideológicos – que nem o modelo miltonfriedmaniano, pregador da volta ao século 19, nem o modelo keynesiano, nascido no século 20, para salvar o capitalismo do colapso do laissez-faire dezenovecentista, representam solução, mas, essencialmente, problemas, nessa altura do campeonato.

Por isso, a nostalgia apresentada por Veja e Estado – ao considerarem Milton Friedman o filósofo da liberdade ao estilo do século 19, sem esquecer que tal liberdade somente passou a ser possível no século 20 diante do aumento dos gastos do governo para sustentar o liberalismo do laissez-faire – é tão nociva, ou impossível de ser revivida, quanto o saudosismo pregado pelos neokeynesianos, visto que a expansão da demanda estatal tornou-se impossível diante da dívida pública elevada. Os credores, afinal, mantêm-se alertas para jogar contra as moedas fragilizadas.

Cobertura pobre

Portanto, gente, nem tanto ao mar nem tanto à terra. O sistema capitalista, principalmente, na periferia, requer discussões mais profundas do que as sugeridas pelos comentários diários na CBN de Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão, repetitivos e vazios, para explicar o baixo crescimento da economia nacional, afetada por crônica insuficiência de demanda global, que a faz depender, angustiadamente, das exportações. O buraco é mais embaixo.

Nesse contexto, frente à falência das duas alternativas ideológicas que o capitalismo construiu ao longo dos séculos 19 e 20 – de um lado, o neoliberalismo, e de outro, o keynesianismo – para sustentar a dinâmica da acumulação capitalista, ficar pregando redução de gastos de custeio para que sobre mais dinheiro para os investimentos, sem perceber que os gastos governamentais, em sua generalidade, é o remédio para conter a insuficiência de consumo decorrente da economia de mercado, é querer voltar ao útero materno. Só Freud explica. Até quando a mídia nacional prolongará o funeral do romantismo econômico, que leva ao funeral do próprio jornalismo econômico?

Enfim, a cobertura da mídia sobre a morte de Milton Friedman, no momento em que, no Brasil, se discute o ajuste fiscal – e em torno dele Lula luta para montar seu novo Ministério – foi pobre, justamente porque os jornalistas não cumpriram o mandamento número um do jornalismo: ver os dois lados da notícia, para que, em sua totalidade, se pudesse, dialeticamente e não mecanicamente, ver a própria realidade.

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Repórter do Jornal da Comunidade, Brasília

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