Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO > OLIMPÍADAS 2004

Furo galáctico

Por Marinilda Carvalho em 31/08/2004 na edição 292

Um furo galáctico, histórico. Depois de uma cobertura espetaculosa das Olimpíadas, com câmeras exclusivas e equipe gigantesca, a TV Globo deixou de exibir ao vivo o acontecimento mais extraordinário dos Jogos: o ataque de um irlandês mentalmente perturbado a Vanderlei Cordeiro de Lima, o brasileiro que liderava a maratona e estava a poucos quilômetros da chegada. A Globo exibiu um filme dos Trapalhões em lugar do ‘evento nobre das Olimpíadas’ – nas palavras de Galvão Bueno na mesa-redonda que dividia todas as noites com Armando Nogueira e Renato Maurício Prado, no canal pago Sportv!

Pois a Band mostrou. E furou a poderosa concorrente.

Pouca medalha, muita medalhada

Está para nascer o comentarista de esportes que não seja ‘amigo pessoal’ (como eles insistem em proclamar) de atletas, treinadores ou comissão técnica – sem falar de dirigentes –, seja qual for a modalidade esportiva. Entra Olimpíada sai Olimpíada, mas não só nos Jogos, verifica-se na TV um desfile de profissionais ou ex-profissionais do esporte externando sua ‘amizade pessoal’ por nossos (nada) esforçados representantes, seus cumprimentos ‘pelo bom trabalho’ (???), sua eterna solidariedade na eterna derrota (!!!), e (quase) todos incapazes de análises frias do (péssimo) desempenho de atletas e times.

O resultado é que ao pobre do telespectador brasileiro, que só entende mesmo de futebol, é negado o direito a uma avaliação correta das possibilidades do Brasil. Não se trata de torcer ou não torcer. Está para nascer, e no mundo todo, o narrador ou comentarista que não torça por seu país numa competição internacional, e isso não é ruim. O ruim é que comentaristas ‘muy amigos’ enchem a barriga vazia do brasileiro de falsas esperanças.

Comentarista com diploma?

O que aconteceu com o basquete e o vôlei feminino foi típico. No vôlei de quadra feminino, cuja derrota para a Rússia nas quartas-de-final levou o país à comoção como só o futebol era capaz de fazer, nossos comentaristas ‘amigos pessoais’ se deixaram levar pelas vitórias de nossa mais do que modesta equipe no Grand Prix da Itália, no mês passado, sobre adversárias em clara preparação para as Olimpíadas – como ficou provado. Parece fácil falar agora, depois que elas mostraram o que realmente valem. Mas quem acompanha alguma coisa de vôlei sabia que o time não era de nada. No basquete feminino, a mesma coisa. Alguém apontou essa realidade? No máximo, uma fieira de comentários do tipo ‘eu adoro o Zé Roberto, mas…’ ou ‘eu adoro o Barbosa, mas…’. Insuportável. O comentarista Bira Belo, do Sportv, até ousou dizer que os times de basquete brasileiros precisam de técnicos formados e preparados. Citar nomes, nem pensar. Afinal, ele adora o Barbosa…

Pois o jornalismo esportivo também anda precisando muito de comentaristas preparados. Estaria neste ramo da profissão a prova concreta da necessidade imperiosa do diploma universitário, que seus defensores tanto buscam? A imprensa esportiva precisa urgentemente de analistas sem protagonismos e sem ‘amigos pessoais’, porque o público está pouco se lixando para as relações sociais deles.

‘Amigos’ do quarto lugar

Muitos tiveram o desplante de criticar o (fraco) técnico José Roberto Guimarães, numa de suas poucas decisões acertadas, por cortar uma oposto não-recuperada de contusão grave, fora da forma física e técnica. A mesma ‘estrela’ que, veterana de bronzes em Olimpíadas num esporte com todo o apoio possível, na temporada passada da Superliga conduziu sua equipe ao… sétimo lugar, entre 10 times. Mas ela é um ‘bibelô’, na expressão de um colunista carioca. Para eles, isso é critério. A belíssima ‘tenista’ russa Kournikova agradece…

Outro colunista, o Sr. Renato Maurício Prado (Globo/TV Globo/Globonews), teve pelo menos a coragem de dizer que o time feminino de vôlei ‘amarelou’. O problema é que, embora jornalista, e não ex-profissional de esporte, a opinião deste senhor tem valor limitado: merece na verdade é protesto vigoroso dos movimentos da mulher. Sua postura em relação às atletas bonitas é indigna de jornalista.

Chega de amizades e favores, desse me-engana-que-eu-gosto, dos falsos elogios a ‘heróicos’ quartos, quintos, sétimos, vigésimos lugares de atletas bisonhos, especialmente dos que são favorecidos pelas políticas públicas, estão presentes em todas as competições internacionais, são cobertos de apoio. Demonstração de apreço vale no máximo para atletas abandonados ao próprio sacrifício, como o futebol feminino, as moças da GR, o ciclismo, algumas lutas e outros esportes esquecidos.

Transparência nenhuma

Conseguimos 10 medalhas agora. E daí? Em Sydney foram 12, em Atlanta, 15. O COB gostou, porque tivemos mais um ouro, participamos de mais finais (aumento de 36%), disputamos mais medalhas de ouro (crescimento de 41%). E daí? A enorme quantidade de perdas é que deveria ter destaque na imprensa. A Confederação Brasileira de Atletismo, por exemplo, aceitou como critério a classificação de atletas que fizeram duas vezes o índice B da Federação Internacional de Atletismo. Como pode? Os que cumprem o Índice A dificilmente conseguem medalha, quanto mais os do Índice B…

Por que esses fatos ficam escondidos no pé das matérias de balanço? Para esconder a verdade simples, de que nossa mídia enganou o público sobre nossos péssimos velocistas – em geral, os últimos colocados.

Ora, medalha agora é tecnologia, treinamento em condições ótimas, competições internacionais e, principalmente, 100 mil praticantes no mínimo por modalidade, para que despontem atletas com talento real para medalhas. Não basta cobrar do governo. Há que cobrar, e permanentemente, é transparência financeira das confederações. Graças à Lei Agnelo/Piva, que destinou à preparação olímpica R$ 163 milhões da verba das loterias, as confederações vêm recebendo anualmente um bom dinheiro. Em que elas estão aplicando esses recursos?

A vitoriosa CBV, do vôlei, não diz de quanto foi seu contrato com o Banco do Brasil, nem o destino dos prêmios milionários em dólares pelos títulos conquistados. Cadê a contrapartida nas escolas, nas favelas, nas praias, nos parques? Soubemos dos horrores das entidades do judô e do tênis porque os atletas de ponta se mobilizaram e criaram um escândalo. Antes disso, o respeitável público soube de algo pelo seu jornal favorito?

Acostumado a perder

Nessas perdas todas, teve peso determinante o preparo mental nenhum dos atletas, condição que também deveria estar entre as preocupações da mídia esportiva. É crucial denunciar o patético apoio psicológico prestado às delegações pelo COB (os comentaristas ‘amigos pessoais’ da CBF diriam que antes da convocação, há cinco meses, nossas jogadoras do futebol feminino mal comiam… para que apoio psicológico?).

A auto-estima e o poder mental do atleta brasileiro são mínimos. Acostumado a perder, mesmo o atleta brasileiro competente amarela, para antecipar a derrota e reduzir a expectativa. Disso sabem os psicólogos de botequim. Mas o que o COB oferece aos atletas é lengalenga de auto-ajuda. Como lembrou o jornalista Ruy Paneiro, Nelson Rodrigues disse que o brasileiro não está preparado para ser ‘o maior do mundo’ em coisa alguma. Ser ‘o maior do mundo’, mesmo em cuspe a distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.

A propósito, Dorrit Harazim assinou matéria no Globo sobre o avanço da China. O subchefe da missão chinesa disse que, além do forte investimento nos esportes olímpicos, o país vem dando importância a ‘fatores menos tangíveis, como confiança e preparo mental, que tanto afetam o desempenho. Sem isso, atletas em excelente condição física podem cair de rendimento em competições de grande porte’.

Verdade cavalar

Vemos esse cuidado no Brasil? O que vemos é notinha sobre o casamento do dirigente fulano de tal. Cartola não tem que aparecer em coluna social. Lugar de cartola é nas editorias de esporte, contra a parede, pressionado a prestar contas de seu trabalho.

Agora, como esperar tal postura de nossa mídia, se na TV temos apenas ‘muy amigos’, e nos jornais um número cada vez maior de focas? Sim, porque as empresas estão reduzindo o tamanho de suas editorias de esporte (as primeiras vítimas são sempre os especialistas em esportes amadores). Na semana passada, em plena Olimpíada, o JB promoveu demissões em massa e anunciou que planeja comprar material do jornal Lance! e extinguir sua editoria de esporte.

É lamentável, prezado torcedor, mas você já pode ir tirando (de novo) o seu Baloubet du Rouet do pódio mais alto. Quando ele não refuga, comete falta. E não temos imprensa que mostre esta verdade cavalar.

Cerimônia de encerramento

— Bem, Glória Maria, se na cerimônia de abertura conhecemos a história da Grécia, agora teremos o folclore grego, uma festa dionisíaca.

— Galvão, eu conversei com o Dmitri, diretor da festa, e ele disse que será uma celebração ao fato de sermos humanos. E aí ele vai contar a história da Grécia.

— ???

Mesmice irritante

O repórter André Kfouri, da ESPN Brasil, caiu na armadilha: em relação a Sebastian Cuattrin, repetiu a eterna asneira de nossa imprensa, que se refere a brasileiros de origem estrangeira como estrangeiros ‘naturalizados brasileiros’. Três grandes jornais americanos (NY Times, Washington Post e USA Today) anunciaram a prata para o americano Keflezighi. Os brasileiros só se referiam a ele como imigrante da Eritréia radicado nos EUA. Ou seja, a condição que os próprios atletas e o Estado já oficializaram a imprensa lhes recusa. É assim com Meligeni, é assim sempre. Por pouco não se referem ao Scheidt como alemão nascido no Brasil.

Igualmente irritante um narrador da ESPN Brasil, que chamou o atleta israelense do remo de israelita. Ele não sabe que em esporte a religião do competidor não conta? Ou ignora que o gentílico de Israel é israelense? (O que é pior?)

Irritante mesmice

Narradores e comentaristas protestaram com veemência contra o pênalti não-marcado a favor das brasileiras na final do futebol feminino. O mesmo acontece no basquete, no vôlei, em qualquer esporte. Mas aceitam sem reação a tradicional rejeição dos juízes a novas competidoras do nado sincronizado, por exemplo. A medalha do nado sincronizado vale menos?

Repórter-medalha-de-ouro

O impensável há uma década virou rotina: repórter de TV agora é celebridade, com assessor de imprensa ‘pessoal’ e tudo.

Enquanto a repórter Christiane Pelajo, da Globo News (canal 40 da Net), cobria em Atenas as Olimpíadas de 2004, o seguinte spam foi enviado em 16 de agosto ao OI, assinado por Ana Davini, da AD Comunicação:

Segue abaixo uma sugestão de nota, com foto anexa.

Christiane Pelajo, apresentadora do programa Pelo Mundo, do canal Globonews, acaba de voltar do Parque Nacional Puyehue, localizado ao sul do Chile. A jornalista, que ficou encantada com a beleza do lugar, aproveitou cada minuto da viagem. Fez rafting, arvorismo e caminhadas, brincou com lhamas e hospedou-se em hotéis para lá de aconchegantes, como o Termas de Puyehue (www.puyehue.cl). Todos os detalhes serão mostrados em seu programa muito em breve. Vale a pena conferir.

AD Comunicação & Marketing, (11) 3862.8319, www.adcomunicacao.com.br

A página pessoal de Christiane (www.chrispelajo.cjb.net/), escrita na terceira pessoa e repleta de fotos e adjetivos, é um típico sítio de ‘artista’, embora amador.

Christiane é boa repórter. Mas esse spam soa como medalhada.

Brasil em Porto Príncipe

Acreditem se quiserem (o comentário é tardio, mas a medalhada é válida): houve colunista esportivo reclamando da convocação do zagueiro Roque Júnior para o jogo do Brasil com o… Haiti. Vai ser crítico assim lá em… Porto Príncipe?

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem