Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Guerra do papel começou na guerra sucia

Por Alberto Dines em 31/08/2010 na edição 605

Os correspondentes em Buenos Aires tentam oferecer mais subsídios históricos, estão por dentro, a bibliografia é farta, mas os títulos e artigos de opinião na grande imprensa brasileira não ultrapassam as questões imediatas, obsessivamente fixados no novo round Kirchner vs. mídia.


O último ‘Aliás’ do Estado de S.Paulo foi mais longe com um texto do historiador-jornalista portenho Marcelo Larraquy (domingo, 29/8, p. J-5, link). Dele depreendem-se duas situações:


** É antiga e estável a divisão acionária na papeleira argentina Papel Prensa. Governo, Clarín, La Nación e os minoritários não tinham contenciosos. O esquema de poder e a política de preços estava implantada havia quase duas décadas e agradava às partes. Não houve um ‘fato novo’. Ou melhor, o fato novo foi a disposição do casal Kirchner de levar adiante o cerco ao único foco oposicionista verdadeiramente influente: os jornalões Clarín (tablóide) e La Nación (grande formato).


** Os familiares e herdeiros do banqueiro David Graiver podem espernear, sapatear e jurar que não foram pressionados pela ditadura militar a desfazerem-se da papeleira. Foram. E não apenas eles. Não podem ou não querem contar tudo o que lhes aconteceu.


Conflito inacabado


Uma violenta e sanguinária pressão militar estendeu-se a outras grandes empresas da área de comunicação que pertenciam a judeus. Caso da Editora Abril argentina, cujos acionistas, Cesar Civita e filhos, foram obrigados a deixar o país na maior correria antes que fossem seqüestrados ou sumariamente ‘desaparecidos’.


Os militares argentinos, diferentemente dos parceiros brasileiros (que participaram da FEB, nos campos da Itália), eram entranhadamente reacionários, herdeiros diretos de movimentos nacionalistas, xenófobos, anti-semitas, católicos integristas e fascistas que atuavam na política argentina desde a famosa ‘semana trágica’ de 1918. A presença nazista na Argentina sempre foi poderosa, reforçada pelas denúncias de que os judeus (los rusos, como se dizia) eram comunistas, maçons e subversivos.


Esta história não pode ser contada só com manchetes. E talvez não possa ser integralmente revelada pela mídia argentina fraturada em dois blocos, nenhum deles interessado em buscar a verdade. Um destes blocos é beneficiário direto ou indireto da violência militar e, o outro, a serviço dos Kirchner, tem vínculos com personagens tragicamente desaparecidos na guerra suja. E ela não terminou.

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