Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Hecatombe condenatória

Por Luiz Paulo Santana em 25/05/2004 na edição 278

Li não só a matéria ‘A mídia reagiu à altura à baixaria do governo’. Li todas, ou praticamente todas as matérias acerca do caso governo (ou presidente Lula) vs. NYT (ou jornalista Rohter). Cansei de tanto apanhar. Sim, porque meto-me na pele do presidente, ausculto-lhe a rude simplicidade de líder operário, associo-me à sua indignação e agora, quando S. Excia. comete um equívoco – grave? – sinto-lhe a pulsação de velho combatente de ditaduras e preconceitos, acelerada, com certeza, pelo reconhecimento íntimo de seu próprio erro.

Eu não esperaria outra coisa do presidente Lula. A imprensa se preocupa com a questão – séria – do cerceamento à liberdade de opinião. A crítica procede, mas que barulheira! Terá a imprensa assim se manifestado, com tanta convicção, denodo e unanimidade quando dos episódios mais trágicos pelos quais o país já passou? Os ‘cento e onze presos indefesos’ ou os mortos de Eldorado do Carajás, ou os chacinados da Candelária terão merecido – os responsáveis – tamanha hecatombe condenatória? Porque em todos os nossos atos o autoritarismo está presente.

É só analisar com calma, detidamente. Há autoritarismo também na imprensa, é claro. A exacerbação argumentativa, as aulas magnas, as sugestões de procedimento, as diatribes inflamadas em torno do ‘politicamente correto’ – tudo isso compõe o processo unilateral a que nos dedicamos quando no ataque. A antiga oposição, hoje governo, inclui-se, naturalmente. No geral, somos autoritários e concomitantemente destrutivos na hora de nossos ‘acertos’ críticos.

As democracias não dependem da vontade de um único homem. Elas são um estado de espírito, o somatório majoritário das vontades dos cidadãos dispostos a zelar pelo estado de direito. Brada a imprensa que o Brasil saiu arranhado do episódio. Lá, onde a democracia viceja há já um bom tempo, os arranhões são muitos, mas ninguém põe em dúvida a eficácia das instituições. Aqui, basta ao presidente cassar o visto de um jornalista que o ofende com um artigo fofoqueiro, desrespeitoso e superficial para que nós mesmos duvidemos de nossa democracia.

Questiúnculas de lado

Mas, nós quem? Depende do ângulo, da posição na pirâmide ou no ranking dos mais-mais. O ruído em torno destes, digamos, incidentes (não vai aqui nenhum menosprezo pela questão da observância às liberdades constitucionais), na imprensa e no Congresso Nacional, é tamanho que estamos perdendo a oportunidade de debater em profundidade questões fundamentais como o ‘concerto’ capitalismo financeiro global, endividamento, dependência e desenvolvimento econômico para além das simples acusações de inépcia governamental.

Aliás, a meu ver, o governo, enquanto no curto prazo tenta remediar a situação de falta de recursos (processo iniciado ainda no governo FHC a partir da imposição da necessidade de superávit primário), do ponto de vista estrutural e dentro das regras do jogo, procura, estrategicamente, atacar os principais gargalos macroeconômicos. Lamentavelmente os resultados só virão a médio e longo prazo.

Outra questão que nos escapa debaixo da barulheira retórica e politiqueira é a do desemprego, que de um certo tempo para cá tornou-se um problema mundial cujos diversos vetores apontam para certas irreversibilidades sobretudo nos países pobres onde existam grandes desigualdades sociais como o nosso.

Temos mais o que fazer, senhores jornalistas, deputados, senadores e cidadãos em geral: a despeito do figurino que nem sempre agrada e além das importantes questões acima citadas, há também um processo em curso no Brasil, alimentado pela ainda não esgotada novidade da presença de outras cabeças no comando governamental após 500 anos de história. Isto não é pouca coisa. Precisamos deixar as questiúnculas de lado para ampliar e aprofundar o debate.

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Candidato a escritor, Belo Horizonte

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