Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Imprensa aprende lições dos blogs

Por Carlos Castilho em 05/10/2004 na edição 297

Quando o repórter Dan Froomkin, do jornal The Washington Post, pediu em sua coluna ‘White House Briefing’ (http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/politics/administration/whbriefing) que os blogs checassem todos os fatos mencionados por George W. Bush e John Kerry no debate da última quinta feira (30/9), ele não estava preparado para o que aconteceria.

O patrulhamento dos jornalistas amadores ou autônomos não gerou as revelações espetaculares que muitos esperavam, depois do caso 60 Minutes (http://www.cbsnews.com/sections/60minutes/
main3415.shtml
), quando os blogs produziram uma série de denúncias sobre manipulação de documentos que forçou o veterano âncora de CBS, Dan Rather a um humilhante reconhecimento de culpa (detalhes na matéria ‘A vitória dos ‘jornalistas de pijamas’’, remissão abaixo).


Desta vez foram os jornalistas convencionais que brilharam na verificação com lupa de todos os dados, citações e nomes mencionados no primeiro debate presidencial da campanha eleitoral americana deste ano. Matérias especiais foram publicadas em vários jornais como The Washington Post (http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/articles/A63944-2004Sep30.html), USA Today (http://www.usatoday.com/news/politicselections/nation/
president/2004-10-01-fact-checking-
debate_x.htm?POE=NEWISVA
) e em sites de organizações de monitoramento como FactCheck (http://www.factcheck.org), Nieman Watchdog (http://www.niemanwatchdog.org/index.cfm) – ambos ligados a universidades americanas – e MediaChannel (http://www.mediachannel.org/).


Dois sistemas

Pela primeira vez desde o surgimento do fenômeno weblog, em especial das páginas jornalísticas independentes na web, os profissionais e amadores trabalharam paralelamente sobre uma mesma agenda, numa disputa informal para ver quem era mais detalhista.

Nos Estados Unidos, boa parte da imprensa convencional deixou de lado a rotina e inspirou-se nos blogs para usar a estratégia do patrulhamento como forma de recuperar a credibilidade do público e mudar a imagem de submissão aos poderosos.

Nenhum fato espetacular foi revelado nos dias seguintes ao primeiro debate entre Bush e Kerry, mas foi grande a surpresa dos blogueiros americanos ao notarem como seus colegas de carteira assinada redescobriram rapidamente as virtudes e os segredos da checagem das declarações e promessas de candidatos ou personalidades públicas.

Dan Froomkin, que também é coordenador do projeto Watchdog da Fundação Nieman, na Universidade de Harvard, esperava uma avalancha de revelações por parte dos blogueiros mas acabou tendo que escrever sobre os seus colegas das redações. Estes, mesmo sem descobrir nada de espetacular, submeteram as intervenções dos dois candidatos a um minucioso raio X, como nunca havia sido feito antes – conforme admitiu o professor Jay Rosen, diretor da faculdade de jornalismo da Universidade de Nova York e responsável pelo weblog PressThink (http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/).

As divergências entre jornalistas profissionais e os editores de blogs jornalísticos independente não acabaram e ainda vão dar muito pano para manga, principalmente no quesito confiabilidade.

Os profissionais afirmam que é impossível checar a credibilidade dos blogs, levando-se em conta o fato de a maioria deles ser produzida por jornalistas independentes ou amadores sem formação profissional. Outro fator que alimenta a desconfiança dos profissionais da grande imprensa é a qualidade das informações transmitidas pelas páginas independentes, dada a velocidade com que são passadas adiante e o fato de que 90% das páginas pessoais que lidam com informação jornalística são mais opinativas do que factuais.

Os blogueiros contra-argumentam que é impossível medir a confiabilidade das informações que circulam no espaço cibernético usando os mesmos parâmetros usados na mídia convencional. A web e a internet criaram um sistema novo de circulação de informações cuja principal característica é a velocidade e a massa de dados existentes na rede. Toda a cultura da mídia convencional foi construída sobre um sistema infinitamente menor e mais lento, que desenvolveu seus mecanismos de aferição de credibilidade baseados nesta realidade.

De graça

A credibilidade continua um fator-chave na certificação das informações, mas para avaliá-la estão surgindo processos novos como os sistemas de reputação, que misturam tecnologia com sociologia, psicologia e antropologia. Simplificando, trata-se de um sistema que se apóia em conceitos e estabelece gradações de reputação. O mecanismo Google (http://www.google.com.br/) classifica os resultados de uma busca na internet conforme a quantidade de vezes que uma página é citada por outras através do mecanismo chamado hiperlink.

Parte-se do princípio, já bem antigo, de que quando uma pessoa ou texto é muito citado, ele deve ser muito confiável e consistente. Evidentemente sempre existe a chance de haver picaretagem ou erro no sistema, mas esta possibilidade tende a ser reduzida no espaço cibernético onde a teia de citações envolve bilhões de documentos (só o Google indexou até agora 4,3 bilhões de páginas web).

Os pesquisadores dos sistemas de reputação, como os professores Hassan Masum e Yi-Cheng Zhang, autores do Manifesto for the Reputation Society (manifesto pela sociedade de reputação) (http://www.firstmonday.org/issues/issue9_7/masum/index.html), usaram cálculos de probabilidade e estatísticas para afirmar que quanto maior for o número de documentos na web menor a chance de sermos enganados por informações falsas.

A questão da confiabilidade dos weblogs ainda será discutida durante muito tempo porque ela também envolve divergências culturais entre jornalistas profissionais e os editores de blogs jornalísticos.

A grande imprensa está encontrando dificuldade para entender como a certificação de credibilidade de uma notícia não será mais dada por um veículo de comunicação ou por um respeitável formador de opinião, mas por uma massa de anônimos consumidores de informação.

Outro exemplo claro e bem atual da diversidade de culturas jornalísticas no mundo contemporâneo da informação é a questão da inteligência distributiva, ou a troca irrestrita de informações e notícias.

A inteligência distributiva foi usada por dezenas de blogs conservadores que começaram a trocar informações, em ritmo frenético, mal havia acabado a transmissão do programa de TV com denúncias sobre supostas manobras de família Bush para livrar o atual presidente americano do serviço militar no Vietnã, durante a guerra.

Nenhum blogueiro reivindicou o privilégio do furo – ou seja, a informação de que os documentos da CBS eram forjados. Até agora os jornalistas convencionais simplesmente não conseguem entender como uma pessoa tem uma informação que vale ouro e a dá de graça para quem quiser.

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Jornalista e pesquisador de novas mídias; e-mail (ccastilho@gmail.com)

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