Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > PAUTA SELETIVA

Imprensa ignora diversidade ideológica

Por Luciano Martins Costa em 11/09/2007 na edição 450

A imprensa ignorou a organização do movimento de entidades sindicais, partidos de esquerda e movimentos sociais pela reestatização da Companhia Vale do Rio Doce. Com exceção de dois artigos na Folha de S.Paulo e de uma referência do Globo a uma declaração do presidente Lula da Silva em entrevista coletiva para emissoras de rádio – quando disse que o tema não é parte de suas preocupações –, o assunto praticamente não existiu para a mídia até o final da semana, quando as revistas de informação e os jornais noticiaram as manifestações que ocorreram por todo o país.

O movimento partiu da ala chamada ‘progressista’ da igreja católica, que escolheu a privatização da Vale, ocorrida em 1997, como tema do ‘Grito dos Excluídos’ deste ano. O plebiscito, apenas consultivo, foi preparado para acontecer em cerca de 3 mil comunidades entre os dias 1º e 7 de setembro. A organização e os debates aconteceram longe dos olhos da mídia, com exceção de uma ou outra manifestação, como algumas denúncias de violência contra manifestantes.

Interesse público

À parte os méritos da demanda que vicejou na asa esquerda da nossa nave ideológica, a indiferença da mídia é mais um sintoma de que ela julga superadas as questões relacionadas ao papel do Estado na economia. Como se considerasse tabu tratar de mudanças no sistema econômico – no sentido que dão à palavra ‘tabu’ certas sociedades primitivas, nas quais se crê que o próprio enunciado de uma expressão faz com que ela adquira corpo físico e se torne real.

Tabus e dogmas constituem o universo da fé e são também características de certo primitivismo, que tanto pode marcar aqueles que não alcançaram o estágio cultural além da visão mitológica do mundo, como os que, considerando superados os conflitos ideológicos, aceitam como real o fim da História. Diante de temas que ameaçam recolocar na mesa o debate sobre a natureza do sistema econômico e sua relação com o Estado, a imprensa costuma se comportar como o mulá para quem a história começa e termina no ano 600.

Considere-se o aspecto revisionista do movimento pela reestatização da Vale do Rio Doce. Questione-se, mesmo, sua representatividade e a constitucionalidade da demanda que os militantes apresentam. Ainda assim, a questão colocada, e que merecia ser levada à opinião pública, trata do tipo de nação que pretendemos construir e que está se consolidando, com ou sem uma estratégia concertada com a sociedade, no atual processo de estabilidade com crescimento econômico.

Também se coloca aos observadores a possibilidade de analisar a capacidade da chamada esquerda de se recompor após a política de alianças heterodoxas do PT no poder e das lambanças de alguns de seus dirigentes com as finanças de campanha.

Sejam os militantes um bando de visionários sem qualquer noção de realidade, sejam eles um fator a ser ponderado no espectro de escolhas que o país deve considerar, não cabe à imprensa amputar as possibilidades do debate. Pelo menos sob o conceito de uma imprensa de interesse público, o ideal é que seus operadores se abstenham de limitar o rol de assuntos que a sociedade pode ou não considerar.

Atitude de equilíbrio

A Vale do Rio Doce não voltará a se incorporar ao patrimônio do Estado pelo fato de militantes do Movimento dos Sem-Terra acamparem na Esplanada dos Ministérios. O presidente da República declarou claramente que o assunto ‘não está nem estará’ sobre sua mesa. Mas a questão do tamanho do Estado está sempre na pauta da imprensa por outro viés: sempre que o governo anuncia investimentos em programas sociais, a mídia, em peso, prioriza a opinião dos porta-vozes dessa nebulosa a que se convencionou chamar liberalismo.

Na semana passada, quando o Executivo incorporou ao projeto de orçamento para 2008 a possibilidade de contratar alguns milhares de servidores federais, em parte para substituir funcionários terceirizados que ocupam cargos estratégicos, a grita foi geral.

Pelo fato de haver nascido no sindicalismo, o Partido dos Trabalhadores tende claramente a se fechar em ambientes corporativos. Sabe-se que a diversidade na composição do primeiro governo Lula da Silva deveu-se exclusivamente à vontade do próprio presidente, que foi buscar fora do partido um ou dois ministros e outros auxiliares cuja ação se revelou essencial para os resultados econômicos e sociais que o Brasil vem alcançando. A vigilância da imprensa tem sido importante para evitar que o governo seja uma réplica dos estatutos do PT, que, com toda sua variedade de tendências, continua sendo predominantemente um partido de sindicalistas.

Mas a imprensa só se manterá relevante nesse papel se adotar uma atitude de equilíbrio, abrindo-se para debates mais abrangentes e sem temer que a exposição ao contraditório venha a favorecer opiniões com as quais não concorda. Até agora, por exemplo, os leitores não sabem como o governo pretende usar os recursos previstos para os gastos com pessoal.

Espaço de expressão

Pode ser que Lula esteja querendo aumentar o tamanho do Estado para reforçar suas bases eleitorais para 2010. Mas pode ser que o Estado necessite mesmo de mais músculos para administrar e operar seu ambicioso plano de crescimento, que em grande parte ainda está no papel.

Se a imprensa não admitir o debate mais amplo sobre temas que são propostos por organizações que não se alinham aos preceitos do chamado liberalismo, acabará se alienando de uma parte da realidade brasileira.

Queira ou não queira a mídia, também existe inteligência na faixa esquerda do espectro ideológico. A realidade brasileira é feita dessa diversidade e é preciso dar espaço para que ela se expresse.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/10/2010 Debora cranchi

    Estou estarrecida com a notícia do fim do Jornal do Brasil. O que aconteceu? Como a mídia está abordando esse caso?
    Tem-se debatido muito sobre a importância da diversidade biológica, cultural, étnica, dentre outras. E a diversidade de fontes de informações, opiniões e ideologias? Elas não são também essências para saúde e equilíbrio da comunicação e seus meios? Qual a causa dessa inércia e silêncio por parte dos meios de comunicação? Quais são os fatores e atores que estão agindo por trás dessa tragédia contra a liberdade de impressa. Sim, porque sob o ponto de vista do leitor, é uma tragédia, e um cerceamento ao seu direito de ter acesso a um outro enfoque político-ideológico sobre os mesmos eventos e fenômenos que são abordados por outros jornais.
    Ficaria orgulhosa se a imprensa desse a esse assunto a importância que ele merece.
    Liberdade também é diversidade de opiniões.
    Podemos dizer que estamos presenciando o empobrecimento da ‘infodiversidade brasileira’. E quem há de levantar essa bandeira?
    Agradeço vossa atenção e aguardo vossa manifestação através do programa.

    Meus sinceros apreços,

    Débora.

  2. Comentou em 17/09/2007 Felip Faria

    A publicidade governamental (que deveria ser completamente proibida, afinal como justificar pagar publicidade se não está competindo no mercado?) é utilizada pelos governantes para comprar noticias agradáveis e punir aqueles que fazem oposição. Concordo com o comentarista que critica revistas, mas um empresário não pode recusar publicidades, é até discriminação, pode dar processo.

  3. Comentou em 17/09/2007 Rodrigo Savazoni

    Luciano,
    Somos colegas de edição do Observatório da Imprensa. Gostaria de parabenizá-lo pelo artigo e pedir para que você inclua em sua próxima análise o trabalho feito pela Agência Brasil.
    Veja o comentário do ouvidor sobre o mesmo tema…
    http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/09/12/materia.2007-09-12.3199880813/view

  4. Comentou em 16/09/2007 Thiago Conceição

    Sobre os funcionários públicos só tenho a dizer que toda a indignação da população trabalhadora é pouco em vista dos absurdos que só acontecem lá. Tenho parentes que são funcionários públicos e sei bem o que acontece porque me contam. Não existe promoção por mérito e tampouco meta de produtividade, há uma verdadeira promiscuidade com ‘cargos de confiança’, onde um diretor coloca os amigos em posições de poder por motivos pessoais. Quando o próximo diretor chegar ele substituirá todos pelos seus próprios amigos. Nem todos são ‘marajás’ e alguns ganham pouco, mas mesmo assim tudo o que é estatal está impregnado com uma mentalidade atrasada e há muitas brechas para favorecimentos. O funcionalismo público é um câncer nesse país não apenas pelo aspecto de ‘emprego eterno’, mas também por ser a encarnação mais perfeita de um das maiores falhas de caráter do brasileiro, não se valoriza o mérito do indivíduo e busca-se conseguir tudo por meio de amizades.

  5. Comentou em 15/09/2007 Fernando Teixeira

    Ocupo este espaço para congratular o Senhor Camargo pela estatura moral e intelectual apresentada. Seus esclarecimentos vêm a engrandecer e agregar qualidade a este ambiente. Reconheço, contudo, que é extremamente penoso efetivar esta contribuição, pois eu mesmo já tentei e não tive estômago para suportar certas colocações que são pautadas (para dizer o mínimo) unicamente na ignorância, no cinismo mais deslavado e na mais profunda falta de ética e de respeito. Aqui se destila preconceito contra funcionário público, contra nordestino… enfim preconceitos de várias ordens. É preciso urgentemente que alguns se conscientizem de que o direito de manifestação de pensamento deve ser exercido de maneira responsável e que não deve tolerado o exercício abusivo deste direito em detrimento da honra das pessoas e a fortiori em detrimento da honra de segmentos dignos da sociedade. É estranha a permissividade deste Observatório neste particular.

  6. Comentou em 15/09/2007 Ricardo Camargo

    Obrigado, sr. Cid Elias, pelo seu pronunciamento. Confesso que é extremamente difícil fazer com que conceitos que se aprendem em cinco anos nos bancos de uma Faculdade mais dezoito anos de exercício profissional ininterruptos possam ser traduzidos a quem quer que queira opinar sobre eles, sobretudo quando quem opina julga que já tem as informações suficientes sobre o tema e que o que quer que as contradiga não pode ser verdade sob pena de negar os dogmas em que crê fervorosamente (não é indireta para ninguém: é referência a atitude, em tese). Sr. Felipe Faria, chamei Hitler e Lenin apenas como exemplos do ataque por motivos concernentes à condição, do ataque que toma como irrelevante a conduta. Volto a dizer que o estudante que não estuda não cumpre o papel que dele espera a sociedade (sua patroa, segundo a sua própria premissa). Dr. Bandarra, o jornal não é um produto como outro qualquer: para começar, os motivos que levam uma pessoa a adquirir um ou outro jornal não são os mesmos que a levam a adquirir uma ou outra laranja. Tanto assim o é que a análise, sob o prisma jurídico, da concentração de empresas no setor da comunicação social tem peculiaridades que afastam a análise da concentração em outros campos. O Prof. Ivo Lucchesi,nesta edição, explica o porquê disto melhor do que eu o faria.

  7. Comentou em 14/09/2007 Ricardo Camargo

    E ainda, considerando que os membros de Poder, realmente, devem contas ao povo que os sustenta para desempenarem adequadamente as suas funções, isto não pode constituir base para o raciocínio contrário à sobrevivência do Estado de Direito, qualquer que seja a sua qualificação (cf. ADIn 234, relatada pelo Min. Neri da Silveira – STF). No limite, a tese segundo a qual ‘as instituições públicas não estão funcionando implica uma traição àqueles a quem elas devem servir’ acaba por justificar ações como a do MST ou a própria reação armada (solução para a qual muitos partiram no período castrense) – e neuma delas conta com minha simpatia, porque acaba por dar razão a quem tem a maior capacidade de destruição do oponente -.

  8. Comentou em 13/09/2007 ROGERIO RATT

    APRECIO LER DIVERSOS ARTICULISTAS DO OBSERVATÓRIO, E ALGUNS COMENTARISTAS QUE ME PARECEM TER ASSIMILADO O CONCEITO DE CIDADANIA. OUTROS TÊM COSTUME DE JOGAR ACUSAÇÕES AO VENTO, A MAIOR PARTE INFUNDADAS. ESPERO QUE O SENHOR FELIPE POSSA ESCLARECER QUAIS NEGOCIATAS ELE ALEGA EXISTIR NA PETROBRÁS. MUITO OBRIGADO.

  9. Comentou em 12/09/2007 Mairo Zancanaro

    Caro Sr. Paulo, continuo afirmando e voce naum contradisse, a empresa vai bem ou mal dependendo da qualidade do administrador. A petrobras cresceu comparando com outras petroleiras e não com empresas de outro setor, apesar de dirigentes petistas, se antes não crescia,…. volto a falar da Carris, como ela esta hoje em Porto alegre, ..e quanto a impostos. sim funcionario publico paga impostos iguais aos demais, inclusive mais que muitos profissionais liberais que sonegam e muito… cansei de ir a medicos, dentistas e advogados, o preço com nota é um sem é outro. e quanto a trabalhador de modo geral o imposto não é sonegado, algumas empresas cobram e não recolhem, APROPRIAÇÃO INDEBITA.
    mesmo caso de outros impostos, não recolhem icms, o mais comum quantos lugares pedem se queres nota ou não, mas não dão o desconto respectivo,.,,, isso pra mim é ROUBO, em qualquer lingua, agora, ladrão, sonegador ou qualquer outro nome que queiras dar, exeite por tudo, nos tres setores…….

  10. Comentou em 12/09/2007 Hélio Souza

    Gostaria que o cid mordaz elias, informasse em que tribunal foram condenados os que roubaram a Vale. Como foram PROVADAS as acusações.

  11. Comentou em 12/09/2007 Jose Paulo Badaro

    Para entender um pouco o arrazoado acima, e quase como resposta a quase tudo o que está sendo questionado aqui, aconselho a leitura atenta e desapaixonada do artigo do Cesar Fonseca nesta mesma edição do OI (link ao final), sob o título: Por que não enfrentar a onça ?

    http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?msg=ok&cod=450IMQ003&#c

  12. Comentou em 12/09/2007 Gabriel Sotomaior

    Parece que a galera dos comentário não entendeu bem o que diz o artigo. Ninguém está defendendo privatização, estatização, estado inchado ou neoliberalismo! A grande questão colocada, que é muito pertinente é o fato da mídia simplismente ignorar a dinâmica da diversidade cultural e social. Eu acho mais do que importante um movimento como o ‘Cansei’ ter a cobertura, o nível de discussões em torno dela. Mas é mais do que incoerente um movimento que vai em outra via ideológica, não merecer o mínimo crédito e ser tratada como inexistente. Este fato ocorre em diversos movimentos de nossa sociedade.

    Antes que falem alguma coisa: sou contra a reestatização da Vale. Mas por motivos diferentes que grande parte das opiniões. Não acredito nem na iniciativa privada, nem na burocracia do Estado. Mas como falei, não é o que está em pauta agora

  13. Comentou em 12/09/2007 Paulo Bandarra

    Pois é, Gustavo Morais , Barreiras-BA – Serv. Púb., parece que você nunca ouvio falar da CGTEE, e os avais lesivos para o estado dado pela mesma. E não são da Governadora, mas dos petistas que assaltaram a mesma! Quanto ao governo da mesma, você sabe pela mídia. Mas ai pode, não é lulista. O que não pode é dos amigos do nosso lider. Neste caso não é hilário, mas crime! Pois o nosso autor no seu artigo anterior em que disfarçava que não era propaganda comunista, neste se declara totalmente aonde queria chegar naquele que não assumiu!

  14. Comentou em 11/09/2007 Felipe Faria

    Nananinanina não, funcionario público não paga imposto, tem seu salario nominal aumentado para ser ficticiamente descontado. O estado finge cobrar imposto deles. E vocês, funcionarios, além de não prestarem nada de serviço relevante, são meus empregados, numa situação normal, estariam no olho da rua.
    Quanto aos PAcs, que estão no papel, não poderão decolar por falta de mão de obra. 300 vagas de operador de maquinas de terraplanagem estão vazias numa refinaria em PE, porque os candidatos preferem viver de bolsa-familia.

  15. Comentou em 11/09/2007 Felipe Faria

    Funcionarios e servidores publicos não deveriam dar palpite nessa questão porque são parte interessada. Quem está fora do serviço público produz e paga impostos para sustentar a festa. E não me venham dizer que servidores publicos paga impostos, apenas sofrem um desconto de seu salário nominal (que é chamado de imposto de renda para disfarçar).

  16. Comentou em 22/08/2007 Michelle Janaína Soares

    Boa tarde, pessoal!
    Meu nome é Michelle, tenho 25 anos, moro em Belo Horizonte e busco uma oportunidade de entrar no mercado de trabalho na minha área: Jornalismo. Já tenho quase um ano de formada e até agora…nada! Estou até com medo de adoecer. SErá que podem me passar um e-mail para mandar meu currículo? Será que podem me ajudar de alguma forma, por favor!
    abraços
    Michelle Janaína

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