Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

IMPRENSA EM QUESTãO > DISCURSO VICIADO

Imprensa torna a sociedade conservadora

Por Luciano Martins Costa em 30/01/2007 na edição 418

A leitura das manifestações de observadores que observam este Observatório revela que, mesmo neste espaço privilegiado onde se pode, com o devido respeito, discordar ou concordar diretamente em relação a tudo que é publicado, o teor dos comentários quase sempre se restringe a posicionamentos que repetem o embate político entre governo e oposição, painel que essencialmente define a pauta da imprensa nacional. Apenas um número reduzido de participantes contribui com informações que transcendem a mera opinião, e se trata quase sempre de um espectro restrito de opiniões.

É como se a maioria das pessoas, que aqui representam leitores de jornais e revistas e audiência dos meios eletrônicos, estivesse atada a um plano limitado de interpretação do mundo que nos é apresentado pela imprensa. O tom é conservador, no sentido em que o discurso em geral circula viciosamente num mesmo plano.

Esquerda ‘leviana’, direita ‘madura’

De modo geral, se observarmos a sociedade brasileira atual, percebe-se que estamos imersos num caldeirão de conservadorismo, especialmente quando colocamos o foco nas classes médias, ainda os clientes típicos da mídia. Esse conservadorismo é induzido e reforçado pela própria imprensa, que procura estabelecer os limites, a linguagem e os valores dentro dos quais a sociedade busca interpretar suas realidades.

Por outro lado, um rol de honoráveis e qualificados observadores da imprensa insiste em que não há um viés ideológico por trás das escolhas dos editores. Discordo. Há, sim, um debate ideológico no cerne do jornalismo, e jornalismo é, sempre, um exercício de apreensão de realidades, mas estruturado sobre uma tela ideológica. O que precisa ser melhor esclarecido é: de que ideologias estamos falando?

Claramente, os jornais brasileiros constroem essa tela de referenciais e valores com os fios de uma velha e antiquada teia, que define como ‘progressista’ o pensamento de ‘esquerda’ e como ‘conservador’ o pensamento de ‘direita’. Também considera que a ‘esquerda’ é leviana, irrealista, evasiva e irresponsável frente ao suposto ‘realismo’ e ‘maturidade’ do pensamento pragmático de ‘direita’. Esse rol de conceitos define, a priori, como a imprensa vai abordar qualquer decisão ou manifestação de personagens que estão classificados de um lado ou de outro desse campo de batalha.

Rever paradigmas

O erro dessa escolha tem muitos vieses. E talvez nem se possa afirmar que se trata de uma escolha consciente da intelligentsia jornalística. O que se pode afirmar é que a escolha da imprensa por esse espectro inflexível de paradigmas decorre de falta de ambição intelectual. A imprensa, em geral – aqui representada por seus líderes e principais ideólogos –, é intelectualmente covarde pelo fato de se negar a questionar seus próprios paradigmas.

Existe outro fator a limitar e condicionar essa escolha retrógrada: a intelligentsia da imprensa se mantém sempre alguns passos atrás do conhecimento científico, do conhecimento que nos permite compreender melhor o ser humano e suas sociedades. Essa definição acontece pelo simples e irrefutável fato de que, conhecendo e aplicando a realidade demonstrada pela ciência, a imprensa teria que rever seus paradigmas e adotar uma posição de flexibilidade, que a obrigaria a admitir uma diversidade de interpretações da realidade tão ampla que, em pouco tempo, teríamos uma imprensa absolutamente nova. Seu poder, evidentemente, seria diluído. Conscientemente ou não, ela foge dessa possibilidade.

A raiz dos erros

Uma das dificuldades de analisar a imprensa de uma forma sistêmica – ou complexa – decorre da percepção de que, por sua natureza limitada, por haver restringido as possibilidades de interpretação das realidades alguns passos atrás, no campo de batalha das velhas ideologias, essa análise será inevitavelmente limitada pela linguagem viciada e pela visão de mundo estreita (em relação aos fatos que a ciência já esclareceu nas últimas décadas).

Um exemplo? A imprensa sempre interpreta as diferentes realidades de um ponto de vista fixo, inalterável. Ela não se desloca de seu pedestal para observar de perto, por exemplo, os fatos que ocorrem na periferia dos sistemas sociais, políticos ou econômicos. Oferece regularmente a mesma visão para toda espécie de fenômeno ou evento noticiável.

Essa é, provavelmente, a raiz de erros como o caso da Escola Base, ocorrido em março de 1994, quando a imprensa de São Paulo, com exceção do extinto Diário Popular, validou automaticamente uma denúncia infundada de abuso sexual contra crianças e destruiu a reputação de seis cidadãos inocentes.

Evolução da consciência

Esses erros acontecem provavelmente porque, ao abordar temas e fatos heterogêneos utilizando uma visão inflexível, sobram possibilidades de interpretação desses fatos que não serão naturalmente considerados pelo jornalista. Um exemplo? Apresente uma pauta a um jornalista sobre a pirataria na informática. Depois que a reportagem estiver pronta, evidentemente condenando os ‘piratas’ de forma liminar, comente que, sem a pirataria, não existiria a informática como a conhecemos hoje, pelo simples fato de que uma imensa quantidade de produtos, softwares e recursos de toda ordem não teriam tido escala para acontecer comercialmente. Esse cândido comentário seria suficiente para dar um nó na cabeça do jornalista, pois rompe a matriz ‘homológica’ do seu pensamento.

Voltando à questão das ideologias, que é onde tudo começa e através da qual se explica a crise da imprensa, é preciso observar que a ciência – especificamente o cruzamento transdisciplinar da biologia, da psicologia, das neurociências e da física – já produziu, há pelo menos duas décadas, conhecimento suficiente para enterrar essa visão de mundo baseada no conflito ‘esquerda’ versus ‘direita’. Ambos os lados desse campo de batalha lutam, na verdade, no mesmo exército. Ambos combatem a inteligência, resistem à evolução da consciência humana e reagem a qualquer tentativa de transferir o estudo e a busca de soluções dos problemas humanos para o círculo de interpretações exterior a essa arena medieval. Porque eles só são relevantes nesse espaço restrito.

Realidade configurada

O verdadeiro conflito ideológico, aquele que vai definir nossas chances de criar sociedades melhores e sustentáveis, acontece verticalmente, se considerarmos, como metáfora, que o campo de batalha no qual a imprensa se movimenta é um plano circular. O conflito ideológico real se dá quando o pensamento enraizado nesse plano tem que interpretar realidades que se movimentam de maneira imprevisível, em elipses transversais que atravessam esse campo. Se tivesse a coragem intelectual para se despregar desse plano linear, a imprensa desenvolveria a capacidade de interpretar de uma forma mais rica essas realidades, contemplando uma gama mais ampla de sua diversidade.

A sociedade e as realidades que ela cria, bem como o chamado mundo natural, existem e operam em planos tão diversos que ninguém é capaz de observá-los completamente. Ora, já se sabe desde Albert Einstein (1879-1955) e seus contemporâneos que a realidade pode se configurar, relativamente, dependendo do observador. Imagine-se uma bola de cristal com milhões de partículas girando continuamente, em velocidade extrema. Cada um desses eventos, identificado individualmente num flagrante hipotético, pode ser considerado partícula ou energia, de acordo com o observador.

Premissas irreais

Mal comparando, a sociedade que a imprensa pretende interpretar se comporta de maneira semelhante. Portanto, cada retrato pintado pela imprensa a partir de um olhar estático é um retrato falso, porque considera apenas uma das inúmeras possibilidades. Ao tentar impor essa visão linear à totalidade social, a imprensa está vendendo a fração pelo todo, está retratando uma cena tridimensional sem visão de perspectiva.

No caso das sociedades, objeto central das ocupações da imprensa, bastaria recorrer à proposta do zoólogo evolucionista britânico Richard Dawkins, segundo a qual a consciência dos indivíduos evolui em ondas, por estágios que ele chama de ‘memes’. Claro que, como toda tentativa de definir complexidades como o processo evolucionário humano, a tese de Dawkins esbarra em muitas polêmicas. Mas, em geral, a psicologia do desenvolvimento aceita essa expressão como plataforma para a análise da evolução das consciências.

Ora, se vivemos a realidade da globalização, na qual cada indivíduo é permanentemente exposto à diversidade planetária e, ao mesmo tempo, cumpre seu papel de observador e protagonista dessa mesma diversidade, estamos claramente lidando com o cruzamento e convivência constante de ‘memes’ muito diferentes entre si, ou seja, de estágios extremamente diversos de consciência. Além, é claro, de tudo que advém das realidades criadas por cada um desses ‘memes’, ou seja, as crenças e valores, o grau de individualidade ou de interatividade, a propensão ao egoísmo ou ao comunitarismo, o que é tido como ilusão – que poderíamos definir como a projeção de possibilidades baseadas em premissas irreais – ou como utopia (vista como a projeção de possibilidades baseadas em premissas reais, cientificamente comprovadas).

Referência melancólica

A imprensa não enxerga esse contexto de múltiplos planos se entrecruzando. Certamente é por essa razão que não consegue explicar satisfatoriamente fenômenos como o terrorismo contemporâneo, colocando tudo sob o velho prisma de uma visão ideológica antiquada e classificando todo fenômeno ‘ininteligível’ como resultado da irracionalidade de seus protagonistas.

Ao se agarrar desesperadamente ao campo linear e plano de uma batalha ideológica que já não contempla a diversidade do mundo, a imprensa contribui para restringir as chances de evolução das consciências. O leitor que, ao comentar um artigo deste Observatório, interpreta toda crítica ao governo federal como um ‘ataque das burguesias aos interesses do povo’ está claramente algemado a esse nível limitado de interpretação da realidade. Da mesma forma, aqueles que reagem como cães raivosos a qualquer observação favorável ao atual governo, ou à distribuição equânime das responsabilidades pelas mazelas nacionais aos protagonistas da política que hoje estão na oposição, é também escravo desse círculo de desinteligência.

Para chegarmos a algum lugar, como nação e como indivíduos, precisamos entender aquilo que limita nossa capacidade de interpretar o mundo. Se a imprensa não ajuda, existem livros, filmes, peças de teatro, músicas e aquelas pessoas com as quais trocamos amenidades todos os dias. Se a imprensa um dia despertar para o imenso mercado que floresce com as novas consciências, haverá um lugar para ela no futuro. Caso contrário, ela vai se tornar uma melancólica referência do passado.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/09/2010 Eduardo Martinelli Filho

    Quando se trata de tais profissões, os problemas recaem invariavelmente em duas vertentes; 1 – Os sindicatos que na volúpia arrecadatoria, e que muitas vezes não defendem interesse algum; 2 – Nos Conselhos Regionais classistas, que provocam defesas espúria contra cidadãos que ousam a inquiri-los em seu meio profissional. No meu entender todos os processos que envolvam tais profissões deveriam ser julgados pela Justiça comum, cujo juiz se acercaria de profissionais não inscritos em seus Conselhos classistas.

  2. Comentou em 04/02/2007 Gabriela Jacinto

    O meio de cominicação pretende introduzir pensamentos gerados por aquele que dizem ser a grande potencia televisiva, ou seja, a rede Globo de televisão, onde esta procura passar o pensamento burguês, reprimindo e injetando opiniões através de seus programas, revistas vinculas, jornais, rádios, etc. É imprescindível tomarmos cuidados com o que vemos, lemos e ouvimos, pois a informação muitas vezes gera desinformação, tornando- nos assim leigos em informações verídicas.

    O pensamentos conservador é muito forte em nosso país, os nossos meios de comunicação trabalham para os tradicionalistas da elite, a massa popular acaba por ter um mesmo pensamento, quase todos têm a mesma opinião e essa opinião é aquela repassada pelo meio de comunicação, esse só quer ibope e vender.

    Nossos jornalistas muitas vezes não escrevem o que na verdade gostariam de escrever, ou muitas vezes o que escrevem não é compatível com a sua real opinião, porém trabalha para aqueles que querem que escrevam o que convém para classe média e alta. Meios de comunicação alternativos denunciam as mazelas instauradas neste meio, mas muitas vezes é interpretada de má fé por aqueles que já estão empregnados pela grande mídia.

    Enfim, esse artigo foi algo mais lúcido que li até o momento sobre a imprensa conservadora que existe e não foi derrubada ainda no país do carnaval, feijão, corrupção, desinformação…

  3. Comentou em 03/02/2007 George Hobert Hobert

    Achei muito interessante o conjunto de reflexoes do autor. Entendo que devemos sacudir os paradgmas e multifacetar as observacoes.O mundo jornalistico, de fato, esta muito empobrecido.A impressao que temos e de que basta ler um jornal e estaremos conscientes da realidade ou bem informados. Por outro lado, e importante considerar que ainda precisamos do dualismo. Noite e dia, dor e prazer, esquerda e direita. Este ultimo, ainda move paixoes e quem disse que ja podemos nos livrar delas…

  4. Comentou em 01/02/2007 albério neves

    Devo estar chegando tarde ao comentar o artigo, culpa talvez da convergência de minha trajetória. Mas talvez isto me permita pensar/praticar/mover-me por uma posição distinta daquela afirmada pela matéria. Gribbin costuma postula, com agudez, uma deep simplicity na emergencia da vida, onde caos e complexidade operam. Porém, a não-linearidade se avançou muito e deve consolidar-se, em dezenas de anos?, carrega problemas pesados, os quais de certa forma se encontram lá na filosofia natural do Newton, e no espirito daquela época e hoje no corriqueiro problema da matemática do infinito, esta mesma que barrou Hegel (vínculo entre analogias sociais e histórica-moral e unicidade, mecânica, do mundo). Parece correto a existência do hiato temporal para a imprensa e paga este enorme pedágio em razão disto. Mas, atento ao posto pelas emergências, um mundo discreto pede a construção de uma filosofia e uma epistêmica para o cotidiano que ainda é bastante complicado. E o primeiro corte deve ser a aritimética da contabilidade e a reconstrução da percepção do randomico. Coisas dificieis ainda, tal qual Laplace, Poincaré, Smale e outros, já vivenciaram. Analogias, metaforas e etc são necessárias, porém, insuficientes e, nas mãos dos gregos, indicaram processos. A mais dura realidade, por enquanto, é o entendimento do mais simples, apenas. Na ausência, melhor o existente, sem o qual E. Roterdan.

  5. Comentou em 31/01/2007 jorge cordeiro

    Sabe quando a imprensa vai despertar para ‘o imenso mercado que floresce com as novas consciências’? No dia que falirem ou com a fragmentação das megas-corporações de midia, que são incompatíveis com a fluidez na circulação da informação. Os jornais repetem a TV, que repetem as revistas, que repetem as agências de noticias, que invariavelmente pertencem aos mesmos grupos. Vc leu um jornal, leu todos. Mas dá um pulinho na internet e o castelo de cartas dos (tu)barões cai bonito. O que mais assusta a midia corporativa é a sensação cada vez mais forte de que não fazem a menor falta….

  6. Comentou em 30/01/2007 João Pequeno

    Esquerda ‘leviana’, direita ‘madura’ Neste caso, aparece com aspas DISCURSO VICIADO
    Imprensa torna a sociedade conservadora Neste, não. Nenhum exemplo prático do que tenta afirmar. E ainda reclama. Espectro restrito de opiniões? Qualquer um que leia os grandes jornais diariamente, sabe que não é verdade. Como quem conhece, sabe que no meio acadêmico, a esquerda é hegemônica e passa seu discurso de boca em boca sem jamais precisar prová-lo comfatos concretos Quem quiser que leve a sério.

  7. Comentou em 30/01/2007 Sérgio Moura

    O argumento sobre a pirataria é fraco. Um software somente tem o preço que tem hoje exatamente por causa da pirataria. É uma relação de causa e efeito portanto, sem a pirataria os produtos de informática seriam pelas leis de mercado acessíveis ao cidadão comum. De resto o texto está bom, embora um tanto vago.

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