Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / PAULO QUERIDO

‘Inovação e criatividade zero nas redações portuguesas’

Por Christina Lima em 02/03/2010 na edição 579

O jornalista Paulo Querido é um dos principais consultores de comunicação e novas mídias em Portugal. Ele está na internet desde 1989, quando lançou o webzine Certamente!, publicação digital em que discute jornalismo, política, economia, caminhos da blogosfera e mídias sociais.

Autor dos livros Amizades virtuais, paixões reais, a sedução pela escrita (2005); e Homo conexus – O que nos acontece depois de nos ligarmos à internet (1998) e co-autor das obras Blogs (2003) e O futuro da internet (1999), nesta entrevista, Querido nos atualiza sobre o cenário do jornalismo e das mídias digitais em Portugal que, de acordo com ele, não possui ‘redação integrada, e há grandes dificuldades dos editores on-line em conquistar posição nas organizações’.

‘Contas de celebridades não vingaram’

Um dos livros que você contribuiu com uma análise é o Sociedade da informação – O percurso português. Aproveito o título da obra para perguntar como Portugal se insere hoje no cenário das mídias sociais?

Paulo Querido – Portugal tem uma relação peculiar com a inovação e as novas fronteiras tecnológicas. Somos um país que adere cedo, mas tende a não tirar partido das novidades, sendo rapidamente ultrapassado pelos que chegam mais tarde. Na mídia social, repetiu-se o padrão já verificado antes com o e-mail, os sites, os blogs… Assim, hoje, temos centenas de milhares de portugueses a usar as mídias sociais americanas e outras estrangeiras, com a iniciativa local a valer zero.

Você é um dos criadores do site TwitterPortugal.com. Afinal, quem são e o que dizem os portugueses no serviço de microblogging?

P.Q. – São, sobretudo, early-adopters. É difícil enquadrá-los porque são pessoas de diversas origens sociais, econômicas e de formação. Há predominância das profissões liberais, profissionais médios e estudantes, com algumas classes sobrerrepresentadas: as que têm a ver com comunicação, como jornalistas e publicitários. Uma diferença com relação ao Brasil e aos EUA: excetuando um humorista, por aqui, não vingaram as contas de celebridades, por exemplo. Nenhum ator, músico, cantor ou figura da televisão tem Twitter. Quanto ao que dizem: o mesmo que todas as outras pessoas. Comentários sobre a realidade nacional, política, temas quentes, mas também muita partilha de links.

Slideshow é só para dois ou três jornalistas iluminados

Imagino que seu trabalho tenha ficado mais conhecido pelos brasileiros por causa do Twitter. Como é essa relação com seu público leitor no Brasil?

P.Q. – Ainda estou construindo essa relação. Não é fácil para mim, pois apesar do gosto e da vontade, não conhecer o dia-a-dia do Brasil limita o diálogo. Mas já tenho alguns laços. Não só de agora e no Twitter: já nos blogs, troquei informações com o jornalista Pedro Dória (@pedrodoria), Edney Souza (@interney), entre outros. No Twitter, tenho estabelecido laços não só com figuras como a jornalista Rosana Hermann (@rosanahermann), mas também com grandes blogueiros, como o Douglas Rodrigues (@mondegrass).

Você é um dos pioneiros no jornalismo digital em Portugal, mas acumula muita experiência também em jornal e rádio. Em que nível estão os meios de comunicação portugueses na internet no quesito convergência de mídias? Os sites estão sabendo aproveitar os recursos disponíveis?

P.Q. – Não. A convergência aqui é objeto de estudo na universidade, quando muito. Nenhuma redação integrada, grandes dificuldades dos editores on-line em conquistar posição nas organizações. Inovação e criatividade zero nas redações portuguesas. São raríssimas as iniciativas. O jornalismo on-line português está na fase do slideshow em Flash. Acham o máximo, como se tivessem chegado ao topo e não fosse preciso fazer mais nada. E mesmo slideshow é só para dois ou três jornalistas iluminados em cada redação.

Novos caminhos e desafios

Este ano, o Brasil passará por eleições sob uma nova lei que estabelece regras para campanhas na internet. Como você avalia o poder que internautas podem exercer na política via redes sociais na web, por exemplo?

P.Q. – O poder individual de comunicar ideias é ampliado pela rede, sem dúvida, e enriquece o debate. Agora, é fraco o poder de influência quando comparado com a mídia de massa. Alguns cidadãos, sobretudo bloggers, têm sabido aproveitar para influenciar, sim, os jornalistas e opinadores do mass media, pois a influência direta é diminuta.

O melhor que as redes sociais dão ao cidadão-eleitor é a capacidade de auto-organização para coleta de fundos, para apoiar candidatos, coordenar ações de campanha e estabelecer postos de observação (watch dogs) baseados no voluntariado e capazes de detectar falhas e contradições nos discursos dos candidatos, bem como na ação governativa. Mesmo assim, o resultado desse trabalho necessita do teto de uma publicação (pode ser uma on-line que tenha conquistado prévia reputação) para ser considerado impactante no processo eleitoral.

Como vai o mercado de comunicação em Portugal e como ele foi afetado pela crise financeira mundial?

P.Q. – Vai mal. Foi menos afetado pela crise financeira do que pela crise do próprio setor, em nível mundial também, que já vinha de antes da financeira. É um mercado refém da exiguidade das receitas publicitárias e abafado pela concentração excessiva em grupos de mídia que, por seu turno, são de origem financeira, isto é, não têm sensibilidade específica para as questões midiáticas. O único magnata de imprensa português que foi responsável pelo último surto de inovação na época do surgimento das televisões privadas está aposentado e não se perfilou ninguém com visão para experimentar os novos caminhos e ousar enfrentar os desafios colocados pela emergência do digital e do ambiente em rede.

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